sábado, 16 de janeiro de 2021

O 2020 SUGOU-NOS ATÉ AO FIM!...

Sempre disse e reafirmo (eu LB) que detesto os anos bissextos, que foi o caso de 2020. Por estranho capricho, são os anos mais aziagos... 
Para além de hecatombes provocadas pelo bicho-homem e das ocasionais fúrias da Natureza (furacões, tsunamis, terramotos ) e desastres (aviões, navios, comboios, viaturas, incêndios...), as pandemias, volta não volta, fazem as suas razias pela Terra. Mas algo não está nada bem "explicado" sobre esta última, que temos estado a viver e a suportar...
Foram milhares de anónimos e algumas celebridades dos mais diversos sectores que se destacaram ao longo da vida. Não escaparam aqui, na Banda Desenhada, alguns altos valores como os portugueses José Garcês e Jorge Machado Dias e o argentino Juan Gimenez, tendo sido este o único (ao que consta) vítima do Covid-19. Mesmo assim, no Dezembro e mês final, foram arrebatados para o misterioso Além, dois grandes talentos, a saber:
Richard Corben (1940-2020)
RICHARD CORBEN, norte-americano nascido a 1 de Outubro de 1940. Ousado, peculiar e inovador, tem obra imensa e variada, como as séries "Den" e a que versava os textos de Edgar Allan Poe ou, entre outros, argumentos de Bruce Jones.
Ultra famoso nos países anglófonos e francófonos, até hoje, não foi devidamente acarinhado em edições em português. Acontece!...
Com um estilo próprio, quiçá revolucionário, apostou muito em temas estranhos e/ou de terror. Seus heróis masculinos, por norma, aparecem parcialmente desnudados e bem musculados. Recebeu o Grande Prémio de Angoulême em 2018.
Richard Corben faleceu a 2 de Dezembro de 2020, vítima de uma operação mal sucedida ao coração.



Malik (1948-2020)
MALIK, cujo nome próprio era William Tai, nasceu em Paris a 2 de Janeiro de 1948. Mudou-se depois para a Bélgica, onde foi constante colaborador da revista "Spirou". Era de origem euro-asiática e, na juventude, viveu vários anos no Vietname. Tem uma obra imensa e encantadora abordando vários estilos, incluindo o humorístico.
Da sua bibliografia, para além das curtas que desenhou para a série "Oncle Paul", salientou-se por excelência, com as séries "Archie Cash" (cuja fisionomia do herói é nitidamente baseada na do actor Charles Bronson) e "Cupidon" (com argumentos de Raoul Couvin). Mas, não se devem ignorar, a efémera série "Johnny Paraguay" ou o álbum "Gertrud"...
Este afável e grato desenhista teve um inesperado fim trágico: na noite de 11 de Dezembro, durante a madrugada e enquanto dormia, faleceu devido a um incêndio que assolou a sua residência na Bélgica.
Que raio do bissexto 2020!
LB


quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

NOVIDADES EDITORIAIS (211)


PLANETA PSICOSE - Edição Escorpião Azul. Autor: Ricardo Santo.
É loucura, loucura e tremenda loucura!... O português Ricardo Santo (aliás, Ricardo Santo Encarnação Machado), nascido em Leiria e a residir e a laborar em Barcelona, é um abençoado e "doidão" criador de Banda Desenhada.
Fantástico e convulsivamente a sacudir intensamente a pasmaceira idiota em que todos chafurdamos, com esta sua obra, "Planeta Psicose", tem a força bem atenta de agitar as massas que não estejam ainda fossilizadas ou encarneiradas por umas constantes e perigosas rotinas sócio-político-económico e culturais.
Todo o esquema desta magnífica narrativa com momentos um tanto desafiadores, deixa-nos sem fôlego. Tudo é confusamente diferente e, digamos, apavorante. Mas Ricardo Santo não está a "dormir na forma". Com um certo tipo de sarcasmo, desmonta todas as situações.
Para já, com plenos aplausos, apenas acrescentamos que é um verdadeiro fenómeno na BD Portuguesa. 
Parabéns, Ricardo Santo!


A LOJA - Edição Polvo. Autor: Derradé (aliás, Dário Rui Duarte).
Um autor espantosamente sarcástico, mordaz, irónico... significados de todo um mesmo. Um digno continuador, à sua maneira, das "ferocidades" de Aristófanes, Voltaire, Eça de Queiroz, Bernard Shaw, etc. E sem tréguas nem entretantos!
Nesta obra, Derradé, arrasta-nos para o mundo da Banda Desenhada com um delirante humor fora de série. Bravo, Derradé!
E não faltam por aqui, caricaturas do próprio, de Geraldes Lino, de José Freitas, de Álvaro, de Rui Brito, etc. E também, uns palavrões necessários e em conformidade com o nosso dia-a-dia. Mas outros "palavrões" parecem ser uma notória crítica ao "apagar" do idioma português: as expressões e palavras do imperialista idioma inglês...
Uma obra a ler por qualquer bedéfilo que se preze!


TINTIN, C'EST L'AVENTURE/6 - Edição Geo/Moulinsart.
É o n.º 6 desta ultra preciosa publicação (volumosa, confirme-se) trimestral, que abrange Novembro-2020 a Fevereiro-2021.
Este exemplar leva-nos para o mundo de "Tintin" a diversos e bem discutíveis aspectos do Insólito. Estranhos e bizarros fenómenos, terrestres ou extraterrestres, estão lá. Há que topá-los! 
Também com destaque neste exemplar: a bedê inédita (curta) de Romain Renard, a entrevista com Erik Orsenna, os registos de viagens por Jacques de Loustal e a belíssima e imperdível reportagem "Les Peuples de l'Himalaya".
Força, bedéfilos!


DOI ANI DE VACANTÁ - Edição Revers. Autora, segundo Jules Verne, Livia Rusz.
O francês Jules Verne é, sem dúvida, um dos mais universais autores de romances de aventuras, e não só, pois qual "vidente", criou no seu tempo e nos seus textos, espantosas situações e inventos que vieram a acontecer... Foi quase, um continuador de Leonardo da Vinci e de Nostradamus... Não acredita
?!... Se não acreditam, é porque vigora uma infeliz casmurrice nas vossas meninges. Dixit!
Quanto ao romance "Dois Anos em Férias", em Portugal, foi adaptado à BD por mestre Fernando Bento para a revista "Diabrete" (1941/1942).
Nesta versão, cabe-nos agora a vez de divulgar o álbum romeno "Doi Ani de Vacantá", pela talentosa Livia Rusz.
Admirável desenhista romena, nasceu a 28 de Setembro de 1930. Que brilhante veterana a tal se atreveu!
LB

sábado, 9 de janeiro de 2021

BD E HISTÓRIA DE PORTUGAL (20) - O "SEM PAVOR"

Geraldo Geraldes, o "Sem Pavor", num cromo da caderneta
"História de Portugal", com ilustrações de Carlos Alberto Santos
No século XII, em plena época da Reconquista pelas forças ibero-cristãs, existiu este senhor, Geraldo Geraldes, que se tornou famoso como o "Sem Pavor".
Personagem heróica, tanto real como envolvido em lendas, teria uma maneira de ser um tanto dada à violência e à ausência de medos ou pavores. Seria de origem nobre, no norte do Condado Portucalense, e avançou para sul onde terá comandado um bando de salteadores e respectivas actividades afins.
Para tentar escapar à justiça do nosso primeiro rei, a este se ofereceu para um apoio pleno pelo Portugal em construção. D. Afonso Henriques aceitou os seus préstimos e daí, o "Sem Pavor" e o seu bando, feitos guerreiros. Com atrevida astúcia e heroicidade, tomaram Évora (a 30 de Novembro de 1166) e terras vizinhas. Foi um dos que mais incentivaram o nosso primeiro monarca a conquistar Badajoz... que foi um desastre. Lá calha!...
Chegou, sabe-se lá com que intentos, a "mudar de campo", mas lá  tornava ao seu portuguesismo... Com esta situação, consta que D. Afonso Henriques o enviou a Ceuta em missão de espionagem, onde foi "apanhado" e executado pelos mouros almorávidas. Infeliz final para quem era um valoroso "sem pavor"!
Com uma vida destemida e temerária cheia de invejáveis e bem perigosas aventuras, bem merecia ter abordagem pelo nosso Cinema, mas...
Tem uma estátua em Valverde/Tourega e, para além da bela Praça do Giraldo em Évora, a sua imagem consta em pleno no brasão desta cidade. 
Estátua de Geraldo, o "Sem Pavor" e brasão da cidade de Évora

Armando de Sousa Pereira escreveu uma biografia, "Geraldo Sem Pavor, um Guerreiro de Fronteira Entre Cristãos e Muçulmanos", sob edição Fronteiras do Caos Editores (2008).
Porém, é a nossa Banda Desenhada que melhor o regista através de quatro (pelo menos) exemplos - 
que, parcialmente, a seguir reproduzimos - elaborados por: 

José Antunes...

"Geraldo Sem Pavor", por José Antunes (texto e desenhos), in "Mundo de Aventuras" (1.ª fase) #369 a #380 (1956)


Baptista Mendes...

"Geraldo Geraldes, o Sem Pavor", por Baptista Mendes (texto e desenhos),
in "Camarada" #14 (6.º ano) - Ed. Mocidade Portuguesa (1963)


José Projecto...

Capa e prancha de "Giraldo, o Sem-Pavor", por José Projecto, Ed. Futura (1986)

José Projecto, entretanto, enveredou pela ilustração de natureza, deixando a banda desenhada (quase) completamente de lado. Todavia, ainda acalenta o sonho de, um dia, reeditar este álbum, com texto revisto e aumentado (numa adaptação aos dados históricos actuais da vida do Geraldo), com as pranchas originais retocadas e com novas pranchas acrescentadas.
Pranchas de "Giraldo, o Sem-Pavor". Á direita, as imagens originais;
à esquerda, as pranchas já retocadas para uma nova edição


Algumas das páginas inéditas de "Giraldo, o Sem-Pavor", que José Projecto
pretende acrescentar numa eventual reedição desta obra


Por fim, a dupla Artur Correia/António Gomes de Almeida.

"Geraldo Geraldes, o Sem Pavor", por António Gomes de Almeida (texto) e
Artur Correia (desenhos), in Colecção "Super Heróis da História de Portugal".
Ed. "Correio da Manhã". Reedição: Bertrand Editora (2004)


Nota: agradecemos a José Projecto a cedência de algumas imagens para este post.
LB

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

CAPAS (11) - VITOR PÉON

Vítor Péon (1923-1991)
De seu nome completo, Vítor Amadeu Batista Péon Mourão, nasceu em Luanda (Angola) a 3 de Abril de 1923 e, bem doente, faleceu em Carnaxide a 5 de Novembro de 1991.
Tinha um "feroz" entusiasmo pelas artes a que se dedicava, como a Banda Desenhada, as colecções de cromos, o Cinema de Animação... 
Chegou a editar (apenas três números) o "Vítor Péon Magazine" e os efémeros periódicos "Valente" e "O Mariola".
Trabalhou e editou-se, em Portugal, Escócia, Inglaterra e França. 
Foi homenageado nos salões-BD da Sobreda, Amadora e Lisboa... pelo menos. A Vila de Sobreda (Almada) deu o seu nome a uma das ruas. A Filatelia também o não olvidou, pois o seu "herói" por excelência, Tomahawk Tom, figura num selo.
Sendo um dos maiores dos grandes desenhistas portugueses, toda a sua admirável e variada obra indicam-no a ser metido numa provável galeria dos nossos "Lendários"...
Está devida e merecidamente registado em "Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal" (por Leonardo de Sá e António Dias de Deus), em "Bedeteca Portugal" (sob coordenação de José Vítor Silva) e pelos sítios na estranja "BD Gest" e "Lambiek Comiclopedia", não esquecendo os notáveis registos em duas edições especiais sob coordenação do nosso saudoso Jorge Margalhães e com edição da Camara Municipal de Moura, "O Western na BD Portuguesa" (em 2007) e "Vítor Péon e o Western" (em 2011).
​Abaixo reproduzimos algumas, apenas algumas (repetimos), das suas mais famosas e clássicas capas.

LB

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

MEMÓRIAS DO MOURA BD (1) - Prólogo

Texto: Carlos Rico



O Salão Internacional de Banda Desenhada de Moura, ou simplesmente "Moura BD" como era popularmente conhecido entre o público bedéfilo, foi um evento que durou vinte e três anos, num total de dezoito edições, o que faz dele um dos festivais ou salões de BD portugueses de maior longevidade.  
Ao longo da sua existência foi assunto em muitos meios de comunicação (jornais, revistas, rádios, televisões, blogues e sites) e, evidentemente, nas redes sociais, mas nem sempre foi tratado com o rigor e a exactidão exigidos. Algumas informações erradas (que, como é sabido, se propagam como uma praga, mediante o sempre fácil e tentador copiar-colar que tantos usam como ferramenta) ou detalhes e episódios caricatos que nunca antes foram contados, fizeram-me pensar que seria útil escrever a história deste salão para que a memória futura não apague ou trunque aquele que foi um projecto em que eu e muitos outros trabalhámos tantos anos e do qual tenho tão gratas recordações.
A determinada altura, propus à Câmara Municipal de Moura a criação de um site para o Moura BD que colocámos on line contendo, entre outras informações, um pequeno historial do salão. Com o desaparecimento deste, o site foi, também ele, desactivado mas decidi aproveitar todo esse material (que eu próprio produzira, em 2005, para inclusão numa exposição retrospectiva), para servir de base a esta série de artigos que hoje iniciamos no BDBD.
Tentarei auxiliar-me daquilo que resta deste projecto: registos escritos e fotográficos, depoimentos vários e a maior fonte onde poderei ir buscar velhas recordações, a minha própria memória.
Em cada artigo teremos:
1 - Uma ficha técnica (com as datas em que cada edição funcionou, as exposições que incluiu, as publicações que se lançaram, os prémios que se outorgaram...)
2 - Um bloco de texto onde se contará, de forma mais ou menos concisa, a história de cada edição do salão
3 - Uma mini-biografia dos autores homenageados 
4 - Uma nota de rodapé, com curiosidades ou episódios caricatos ocorridos
5 - Recortes de imprensa ou testemunhos de personalidades do meio bedéfilo que marcaram presença no salão
6 - Uma galeria de imagens/vídeos
A respeito deste último ponto, aproveito a ocasião para apelar àqueles que nos estão a ler e que, porventura, registaram, algum dia, imagens do Moura BD em fotografia ou vídeo, que, se assim o entenderem, nos façam chegar esses ficheiros via e-mail. Desde já agradeço essas eventuais colaborações pois serão, certamente, um precioso contributo para a história de um salão que, embora extinto, continua a permanecer na memória de quantos tiveram a oportunidade de o visitar em pelo menos uma ocasião.
(continua)