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sábado, 11 de janeiro de 2020

ENTREVISTAS (30) - LANÇA GUERREIRO

Lança Guerreiro
António Lança Guerreiro nasceu em Vila Nova ​da Barquinha (tal como a Isabel Lobinho) a 31 ​de Julho de 1964.
Casado e pai de uma filha, ​cursou Línguas e Literaturas Clássicas, residindo ​em Torres Vedras, onde é professor de Português.
Desenhistas favoritos que, mais ou menos, têm sido seus "guias" na Arte que veio a abraçar: Zé Manel, Artur Correia, Eugénio Silva, Dany, Walthèry e Frank Cho.
É assíduo nos Salões de Beja, Viseu, Amadora e nos encontros texianos em Anadia.
Colaborou para diversos fanzines e revistas da 9.ª Arte, e ilustrou alguns livros de Poesia. Sendo também caricaturista e/ou retratista, tem participado nas exposições organizadas pelo GICAV (Viseu).
Finalmente, em 2018, foi editado no álbum colectivo "Humanus" e no ano seguinte, o seu "verdadeiro" inicial álbum, o primeiro tomo de "Homo Inventor", ambos editados pela Escorpião Azul.
Abreviando, vamos à entrevista:

BDBD - Quando começaste a descobrir em ti a paixão pela Banda Desenhada?
Lança Guerreiro (LG) - Sempre tive uma ligação com as imagens que ​ilustravam os livros da escola ou da biblioteca escolar, ​mais tarde a municipal, que frequentava assiduamente ​para devorar páginas de aventuras, umas ilustradas, ​outras somente imaginadas e recriadas em imagens, ​enquanto saboreava a leitura dos "Júlio Verne" ou dos "Salgari".
Mas o meu encontro com as bandas desenhadas das revistas, que então podia ler na escola primária, com autorização especial da professora, foi o momento mais fascinante e o despertar do meu gosto ​pela 9.ª Arte, que desde então passei a ler e a coleccionar.
Para minha felicidade, nessa altura da minha infância, revistas de BD era coisa que abundava, graças à Agência Portuguesa de Revistas e ao amor incondicional que o ​editor Roussado Pinto teve pela divulgação de todos ​aqueles heróis de papel que preencheram esta fase da ​minha existência e foram motivo de grandes aventuras ​imitativas, e também alguns ralhetes dos progenitores, ​quando a Banda Desenhada era ainda vista como uma ​arte menor e desviante do recto caminho a que um jovem
​tinha de se dedicar para ser homem. Eram outros tempos...


Uma homenagem-paródia a Tex
BDBD - E depois?
LG - Tomei contacto com muitos heróis de papel, dos mais diversos: os personagens da Disney (da Abril), os clássicos americanos do "Mundo de Aventuras", do "Jornal do Cuto" ​e de "O Grilo", a escola franco-belga com as revistas "Tintin" ​e "Spirou", e também na revista portuguesa "Pisca-Pisca", onde havia especialmente, as ilustrações de Artur Correia, Zé Manel, ​José Garcês, Eugénio Silva, José Antunes, José Ruy, etc. E ainda, ​os "comics" da Marvel e da DC (via Brasil), e também nos ​italianos "fumetti", com o "Tex", o Zagor" e o "Mister No", que ​se destacavam de entre aqueles a que chamávamos "os livros ​de Cowboys", dos muitos que havia.


BDBD - Foi só a leitura de histórias ou também a vontade de as ​criares?
LG - Talvez tenha sido este meu fascínio pela Banda Desenhada que me tenha levado ao gosto de desenhar "os meus bonecos", que carinhosamente ainda guardo como lembrança desses tempos de juventude. Assim, acho que primeiro foi a leitura, mas, mais tarde, apareceu o desejo de também poder vir a fazer parte daquela miríade de "fazedores de histórias e de sonhos", influenciado por um tal Constantino que também os tinha, para além da sua profissão, facto que hoje acontece comigo.

BDBD - No "AmadoraBD/2019", foi lançado o teu primeiro álbum, "Homo Inventor". É para prosseguir como uma série?
LG - Foi a editora Escorpião Azul que me deu a possibilidade de, ao fim de todos estes anos, editar o primeiro volume do "Homo Inventor", episódios que contam, num traço semi-realista e humorístico, algumas das grandes invenções da Humanidade, que era um dos meus projectos esquecidos na gaveta (como diria o mestre José Ruy no BDBD). Não tinha previsto fazer uma série do "Homo Inventor", mas tão-somente, contar os dez episódios que tinha planeado fazer. Como o primeiro volume tem cinco desses episódios, estou a contar concluir os outros cinco para o segundo volume, para que fique completo este "Homo Inventor".
Duas pranchas de "Homo Inventor" 

BDBD - No entanto, já um ano antes, foste incluído pela mesma editora, no ​colectivo "Humanus", com uma narrativa ​em seis pranchas, "A Grande Banhoca dos ​Pergaminhos de Camões". Como te surgiu ​esta ideia, bem irónica?
LG - Quando concorri ao "AmadoraBD", o tema do concurso desse ano era "Ser repórter por ​um dia. Então surgiu-me a ideia de um estilo ​pseudo-investigativo, tratar de assuntos pseudo-​míticos. Como a minha formação é a área da Literatura ​Portuguesa, achei que o nosso ilustre Luiz de Camões ​e o seu salvamento do manuscrito de "Os Lusíadas" ​seria uma ideia gira de trabalhar e que se enquadraria dentro do pretendido. Aliás, depois ​desta pequena história em BD, surgiu-me a ideia ​de fazer uma série sobre heróis e casos da nossa ​história literária, dentro da mesma toada irónica ​e levemente sarcástica. Mas primeiro, há que acabar ​o 2.º volume de "Homo Inventor"; depois se verá…
Duas pranchas de "A Grande Banhoca dos Pergaminhos de Camões"

BDBD - É a tua linha preferencial o sarcasmo, mesmo que subtil?
LG - Gosto de fazer histórias com algum humor, seja ​ele subtil ou até por vezes, um pouco cínico. Acho ​que as primeiras histórias que criei foram humorísticas, ​talvez por influências do Artur Correia, embora também ​as faça num estilo mais realista. Mas terá de haver em ​todas elas sempre um pouco de humor, porque assim ​é que tem piada. Julgo que todos os meus projectos ​que estão "encalhados", têm sempre um tom humorístico, ​por isso acho que esse toque de humor, com sarcasmo ​ou sem ele, é o que mais me agrada nas histórias que ​faço.

BDBD - Que outras séries preparas para eventual edição?
LG - Neste momento, estou a trabalhar numa história de homenagem ao Geraldes Lino, que a editora Escorpião ​Azul está a pensar editar. Será uma história que fará ​parte de uma coletânea, à semelhança do que ​aconteceu com o álbum "Humanus".


Dany e Lança Guerreiro em Beja
BDBD - Também te dedicas a ilustrações soltas, inclusive na base de caricaturas e/ou retratos. Por aqui, no "BejaBD/2019", ofereceste um belo desenho de ​homenagem ao Dany… Que significou para ti ​esse encontro?
LG - Esse encontro com o Dany, ainda que breve, foi sublime. Ele é uma das minhas referências gráficas ​e um autor que eu aprecio desde sempre. Por isso, ​ter tido o privilégio de lhe oferecer a minha singela ​homenagem, foi um momento muito importante ​para mim e que nunca esquecerei.
À esquerda: o desenho que Lança Guerreiro ofereceu a Dany. À direita: uma homenagem a Eddy Paape

BDBD - Como vês a importância dos salões de Banda Desenhada?
LG - Os salões de Banda Desenhada são importantes para o encontro com todos aqueles que amam e ​fazem BD, possibilitando momentos inolvidáveis, ​como o que aconteceu no "BejaBD/2019" com o ​Dany, ou outros grandes artistas-BD, nacionais e ​estrangeiros, da velha geração e da nova geração.

Lança Guerreiro conversando com Pedro Massano
na exposição dedicada a Viriato, em Viseu (2015)
Antes, eu pensava neles unicamente como fã, ​amante e colecionador de Banda Desenhada; hoje, ​considero que também estes eventos servem para ​que eu possa encontrar-me com eventuais leitores ​das minhas histórias, trocar experiências com outros ​artistas, e deste modo, também assim poder dar o ​meu modesto contributo para o todo da grande ​família da 9.ª Arte.

​BDBD - Obrigado amigo Lança Guerreiro por esta tua entrevista.

LB


Jantando com Luiz Beira e o Presidente da Câmara de Moura, Álvaro Azedo,
em Viseu, após a inauguração da exposição de José Pires (2019)

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

NOVIDADES EDITORIAIS (184)

CHAPLIN - ​Edição Dupuis. Autores: argumento de Bernard Swysen ​e arte de Bruno Bazile. E prefácio (emocionante) do cineasta Claude Lelouch.
​Um álbum, bem especial, que relata a vida e obra do genial Charles Chaplin (homónimo de seu pai), conhecido em Portugal e nos países francófonos (por exemplo) como "Charlot". Esta biografia em Banda Desenhada é extraordinária, revelando aspectos inéditos da vida do pluri-artista gigantesco que ele foi. Magnífico!
Filho de Hannah e Charles Chaplin, Charles (Charlie) Sidney Chaplin, nasceu em Londres a 16 de Abril de 1889, havendo já da parte de seus progenitores, um outro filho, Sydney. O pai, normalmente sempre ébrio e artista medíocre, duvidava que um destes dois rebentos fosse dele!... A mãe, garantia que sim… Hannah cantava num cabaré e cedo veio a perder a voz, o que complicou mais a vida doméstica.
Foi depois, uma saga de amarguras, onde a grande força residia na estima fraterna de Sydney e Charles. Sobreviviam, mais a mãe sempre doente e que veio a perder o tino, num mundo de aflições e pobreza.
Ainda garoto, ele terá dito: "Detesto a escola! A História é só violência, a Geografia apenas mapas, a Poesia é uma ginástica para a memória e a ​Aritmética é enjoativa..."

O Destino leva Charles a ingressar ​no Teatro. Um dia, na Companhia onde estava, parte para ​os Estados Unidos… Nessa viagem, trava amizade com o ​colega Stan Laurel (o futuro e famoso "Estica"). Depois, ​tudo vai funcionando, com alegrias e triunfos, mas também ​com marcantes amarguras.
​Charles (Charlie) Chaplin acaba por se firmar e afirmar, e cada vez mais, pelo futuro adiante, como um diverso e ​genial artista. Foi, inclusive, perseguido pela política ​fascistóide de um tal McCarthy norte-americano. Dos seus ​diversos amores, só foi verdadeiramente feliz e até ao ​fim da vida, com Oona O'Neil.
Vivendo vários anos na ​Suíça, ali faleceu no Dia de Natal, a 25 de Dezembro ​de 1977.
​Fez e continuará a fazer rir (e a puxar também a uma certa lágrima) pelos seus filmes eternos.
Foi agraciado com o  ​título de "Sir" em 1975, pela rainha de Inglaterra (Elizabeth II), e apesar ​de banido no "país" norte-americano, em 1972, recebeu o ​famoso "Oscar" pela sua carreira.
No final deste justo e belo álbum, está toda a cronológica filmografia de Chaplin (com especiais fotos intercaladas).
Esta é uma obra-BD tão preciosa como útil ​a ​qualquer um. Topam onde quero chegar?... É obrigatório ler ​esta obra-BD!
​Acréscimos de mera rotina conveniente: o nosso José Ruy também ​forjou em BD a biografia de "Charlot", que após publicar em revistas, ​teve esta sua "A Vida Maravilhosa de Charlie Chaplin", editada em ​álbum em 1988, pela Editorial Notícias. Outro pertinente exemplo: o ​saudoso belga François Craenhals, em 1953, criou uma "curta" (em ​quatro pranchas, mais capa), editada na célebre revista "Tintin"...
Estas e outras versões podem ser consultadas no post que lhe dedicámos, aqui no BDBD. 
​Viva Charles (Charlie-Charlot) Chaplin!


A FILHA DE VERCINGETORIX - ​Edição Asa. Autores: segundo René Goscinny e ​Albert Uderzo, tem argumento de Jean-Yves ​Ferry, traço de Didier Conrad e cores de Thierry Mébarki. A tradução para a edição portuguesa é de ​Maria José Pereira e Paula Caetano.
​A feitura deste 38.º álbum da série "Astérix" muito ​deve ter divertido os seus responsáveis, tanto como ​nos diverte a nós, leitores.
Em "A Filha de Vercingétorix" ​há uma certa reviravolta no tradicional desenrolar dos ​enredos… Adrenalina é uma pressuposta filha do ​grande e bravo líder gaulês Vercingétorix. Júlio César ​quer capturá-la para a "romanizar" mas ela, escoltada ​por uns outros fiéis gauleses (que falam com um ​bizarro sotaque, assim a modos que o mesmo idioma, ​mas tipo "o português" e "o galego"), é entregue ​à protecção da famosa aldeia irredutível que todos conhecemos. O tema cedo salta para o confronto de gerações e é um ver se te avias na balbúrdia de acertadas ironias que se vão desenrolando.
​Adrenalina é rebelde, corajosa e frontal. Enfrenta tudo e todos e o seu ego de "nariz arrebitado" a todos confunde. Seus mais directos parceiros são dois adolescentes da aldeia, o Blinix e o seu irmão mais petiz, Surimix, e o ​Selfix. Astérix, Obélix e o cachorrito Ideiafix, são quase secundários… De resto, Adrenalina, pensa escapar-se para bem longe desse mundo "antigo, estagnado e ​acabado"... Escapa-se dos Romanos (que, volta não ​volta, levam uns bons sopapos da parte de quem ​sabemos), enfrenta um certo gaulês (bruto e espião ​de César) e, pela sua firmeza, quase "domestica" os ​sempre infelizes piratas…
Ilesa de "todos os perigos", ​apaixona-se por um ecologista bretão, um tal Letitbix ​(nome inspirado na canção "Let It Be" dos Beatles), e ​ambos navegando e abordando pelas mais diversas ​geografias, adoptando crianças desvalidas pelo caminho ​(tipo gesto de Josephine Baker ou do breve casal Angeline ​Jolie/ Brad Pitt)...
​Indica-se, numa certa conveniência de "marketing, que é a obra da série onde uma figura feminina se demarca. É ​uma meia-verdade apenas, pois há pelo menos três ​mulheres que são frequentes: Bonemine (a "primeira dama" ​da famosa aldeia), a boazona da Sra. Agecanomix e a bela ​Falbala (por quem Obélix chegou a estar apaixonado) que ​veio a casar com Tragicomix. Outros personagens ​femininos existem na série, mas são, na verdade, de menor ​relevo.
​Um belo e conveniente álbum, com múltiplas alusões, da série que todos amamos, mesmo aqueles de fígados amargos… Bravo!


​HOMO INVENTOR - ​Edição Escorpião Azul. Autor: Lança Guerreiro.
​Finalmente, o primeiro álbum da autoria de António ​Lança Guerreiro!... Já não era sem tempo! Em "formato italiano", o "Homo Inventor, Quando o ​Homem se Pôs a Inventar", agradou-nos plenamente.
​Com a ironia característica de Lança Guerreiro, narra as aventuras de uma família troglodita (um casal e três filhos, mais o avô que tudo confunde, sobretudo com os ursos) e que, ante situações drásticas, vai inventando o progresso: a pesca, a roda, a aplicação do fogo, o vestuário, a jangada para navegar, o domar dos cavalos, os primórdios da medicina, etc.
Para além de divertir, o álbum tem também uma positiva linha didáctica, em especial para os mais novos.
Este álbum foi lançado no Festival "Amadora-BD/2019".
​Parabéns, Lança Guerreiro!

LB