segunda-feira, 13 de setembro de 2021

​NOVIDADES EDITORIAIS (224)

CALAMITY JANE - ​Edição Ala dos Livros. Autores: argumento de Thierry Gloris e arte de Jacques Lamontagne. Série: "Wild West".
Calamity Jane (aliás, Martha Jane Canary-Burke), não é uma figura de lenda, muito embora tantas vezes tenha sido "explorada" com alta fantasia pelo Cinema, Banda Desenhada e Teatro. Ela existiu e foi terrivelmente actuante em inúmeras situações de perigo e/ou violência. Era então a tal época do "Far West", em que ela viveu. No seu registo pelo Cinema, salienta-se entre outros filmes, a opereta "Diabruras de Jane" (1953), onde ela foi interpretada por Doris Day. E, na Banda Desenhada, ela é figura-titulo de um álbum do popular "Lucky Luke"... Tudo fantasias convenientes e de ocasião para facilmente embevecerem o público fácil...
Agora, neste belo álbum em português, enfrenta-se e confronta-se com a possibilidade do que foi toda a vida aventurosa e temerária desta admirável mulher, demarcando-se das lendas e sacrifícios num certo e apenas imaginado ambiente do já tão distante Oeste Norte-Americano.
Toca a ler o álbum!...


NAB / 5 - ​Edição Bamboo. Autores: argumentos de Goulesque e Widenlocher, grafismo de Roger Widenlocher e cores de Anne Franjou-Gille.
É o quinto tomo da série "Les Nouvelles Aventures Apeupréhistoriques de Nabchodinosaure". E que tomo!... ​Só a capa, é uma paródia em desafio!
Como é que nenhuma editora-BD portuguesa ainda não agarrou esta tão delirante e impagável série? Será que as nossas editoras e o nosso leitor bedéfilo já não sabem rir?!... Ora essa!
Deixemo-nos de violências e de erotismos, e aprenda-se ou reaprenda-se a rir em pleno, de vez em quando , com os disparates propostos pelo sempre divertido Widenlocher.


SAPIENS IMPERIUM - ​Edição Les Humanoïdes Associés. Autores: argumento de Sam Timei e arte de Jorge Miguel.
Desde há largo tempo que acompanhamos com sincera admiração a arte do nosso compatriota Jorge Miguel... Um dia, ele fartou-se das editoras portuguesas e, embora continue a residir em Setúbal, é pelas francófonas editoras que vai
triunfando. Bravo!
Agora, neste primeiro tomo de "Sapiens Imperium", fica-se estarrecido pela qualidade gráfica e o devido tema. Que surpresa, grata e imensa, caro Jorge Miguel!
Se o argumentista Sam Timei se fez notar, a arte do português Jorge Miguel tudo ultrapassa admiravelmente.
Obrigado, Jorge Miguel, pela tua belíssima arte!
Esta obra é terrível! É imensa, bela e avassaladora !


BLACK PROGRAM / 2 - Edição Gradiva. Autores, com base na série "Bruno Brazil" criada por Greg e W. Vance: argumento de Laurent-Fréderic Bollée, traço de Philippe Aymond e cores de Didier Ray. Tradução de Jorge Lima.
Na casa do "Coronel L", o chefe de Forças Especiais, "Bruno Brazil", "Gaúcho Morales" "Whip Rafale" e "Tony Nomade" escutam, bem estupefactos, as revelações do "General Smith" de alto cargo na NASA: numa operação mais do que ultra secreta, a NASA enviou 
a Marte uma nave tripulada por dois astronautas!
Tudo terá corrido bem menos no regresso à Terra, onde tudo se complica de um modo terrível e de loucura sob a paranóia de um dos astronautas, o "Rutherford"... que esconde uma base perigosa em plena selva amazónica... Exige-se que todo este perigo seja devidamente "limpo"... dê por onde der.
Em paralelo, "Whip Rafale" descobre que o jovem 
"Adam", é filho e consequência de uma fogosa e impensável aventura sexual de "Bruno Brazil" e a sua pressuposta inimiga de sempre, a "Rebelle"...
LB

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

ILUSTRAÇÕES E HISTÓRIAS EM QUADRINHOS por José Ruy (3)

Normalmente Adolfo Simões Müller tinha Fernando Bento como o seu ilustrador de excelência, mas abria exceções e além de mim, também o Vítor Peon ilustrou algumas obras suas.
Entre este livro e o anterior, passaram 9 anos. Estávamos em 1966.
A capa, tal como a do livro sobre «Gutenberg», foi toda desenhada, só as letras no rodapé e as que se lêem de baixo para cima foram aproveitadas da fôrma da coleção.
As capitulares ilustradas eram uma característica desta coleção e embora sendo apenas uma alegoria, davam mais uma ajuda ao ambiente descrito.
Abriam cada capítulo, e vou mostrar apenas algumas.

Estas miniaturas foram desenhadas em formato maior para poder incluir bastantes pormenores.
No fundo, eram ilustrações que iam decorando as páginas do livro, tornando-o mais apelativo.
Como no outro livro, as gravuras a partir dos desenhos foram feitas em zinco tipográfico e o livro impresso em tipografia.

Este tema de Marco Polo também me fascinou, pela aventura, como a «Peregrinação de Fernão Mendes Pinto» que publicara em Quadrinhos n’O Cavaleiro Andante, a partir de 1957.

Também como no livro «Exército Imortal» havia um extratexto a cores. Neste caso não foi em página dupla, mas em duas páginas separadas.

A vida aventurosa desta personagem permitiu mostrar uma diversidade de elementos das regiões por onde os irmãos Polo passaram.
Os desenhos a preto e branco foram executados a tinta da china sobre papel «contínuo» (como expliquei nos artigos anteriores) com aparo de aço e pincel.

Eis a segunda ilustração em quadricromia, também impressa em tipografia.
A técnica usada foi com ligeiro traço a tinta da china e aguarela.

A contracapa também foi aproveitada para mais um desenho, neste caso a cores.

As ilustrações sempre funcionaram como meio aliciante para prender o leitor, não só pela imagem viva dos ambientes como, muitas vezes, para incentivar à leitura do texto despertando a curiosidade em saber mais para além do que era mostrado naquela imagem.




No próximo artigo:
O estratagema que arranjei para ilustrar um livro que não tinha verba para pagar os desenhos, pois as zincogravuras eram dispendiosas.

domingo, 5 de setembro de 2021

NOVIDADES EDITORIAIS (223)

OS MAIAS - Edição Levoir /RTP. Autores: Eça de Queiroz, com adaptação/guião de José de Freitas e Canizales, arte do colombiano Harold Jiménez Canizales. E um precioso dossiê final por José Vieira.
Este álbum tão anunciado e tão adiado, surgiu finalmente no final de Agosto último. Apre, que tardou!
Um senão: a grafia de um nome jamais deve ser alterada. O apelido é Queiroz e não Queirós!... Tino, senhores editores! Não se muda levianamente o modo original como se escreve o nome, sobretudo quando não há o consentimento do visado.
Alguns dos seus contos foram adaptados à Banda Desenhada por Eduardo Teixeira Coelho ("A Aia", "O Defunto", "A Torre de D. Ramires", "O Tesouro" e "Suave Milagre"), por José Morim ("O Defunto") e por José Manuel Saraiva ("Singularidades de uma Rapariga Loira"). Dos seus romances, registavam-se até agora, apenas três, criados além-Atlântico (Brasil e Argentina), a saber: "A Relíquia" por Francisco Marcatti, "A Ilustre Casa de Ramires" por C. Raineri e "O Mandarim" por Enrique Vieyter. Agora temos finalmente "Os Maias", sob o grafismo peculiar de Canizales. Será que o exigente Eça de Queiroz iria gostar desta adaptação?...



INIMIGOS ÍNTIMOS - Edição Ala dos Livros. Autor: Luís Louro.
Aqui temos mais uma espectacular aventura de "O Corvo", por Luís Louro, magnífico como sempre. O sonhador herói, quase épico e um tanto desastrado, é um tão simpático personagem com duas vivências: de dia, ele é o banal "Vicente"; à noite, é o super-herói "O Corvo".
Mais: nunca sabe quem é e o que faz durante o dia!... Adora e devora chamuças, que lhe provocam umas intoleráveis azias.
Quem é o pior inimigo do "Corvo"? Ao que tudo indica, é apenas o seu acidentado passado que não o larga.
Façam o favor de ler este belo álbum e animem-se com a sua sedutora beleza.
Parabéns ao Luís Louro e à editora.


ALEXANDRE DUMAS, O DEMÓNIO NEGRO - ​Edição Serafim & Malaqueco, Inc. Colecção "Fandaventuras" (número especial). 
Autor: José Pires.
Este belo e biográfico álbum foi publicado em França em 2010. Tardava em português!... Nosso estimado amigo José Pires, lá cedeu finalmente a publicá-lo no nosso idioma. Parabéns!
Antes de se ler o álbum, pelo título que apressadamente notamos, logo surge um precipitado engano: idealiza-se ​o Alexandre Dumas, Pai ("Os Três Mosqueteiros", "Vinte Anos Depois", "A Tulipa Negra", "O Conde de Monte Cristo", "O Homem da Máscara de Ferro", etc.) ou o Alexandre Dumas, Filho ("A Dama das Camélias", etc.). Mas não é nenhum destes, antes um antecessor (Alexandre Dumas, "Avô"), que foi um bem notável e destemido militar francês. A BD também nos ensina e esclarece!...
Muito obrigado, José Pires, por esta tua achega à nossa cultura e pela beleza da obra. A tiragem foi muito curta (apenas 40 exemplares!). Os interessados deverão contactar com o autor, para: gussy.pires@sapo.pt


HOMEM-GRILO & SIDERALMAN - Edição: FA. Autores: Cadú Simões e Will. 
Agora o Homem-Grilo e o Sideralman encontram-se no mesmo universo, trazendo um crossover entre os dois super-heróis.
O Homem-Grilo & Sideralman mostra os super-heróis às voltas com vários dos seus inimigos, numa aventura com muita ação, lutas, explosões, pancadaria, humor... ou talvez não!
Além disso, também uma aventura do Cricket Rider, a versão tokusatsu, manga ou mangá (como queiram teimar) do Homem-Grilo.
Disponível em várias lojas e plataformas on-line,
 em formato físico e digital. Pontos de venda em: https://fabd.weon.pt/
LB/CR

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

ENTREVISTAS (34) - JOSÉ PROJECTO (2.ª parte)

Publicamos hoje a segunda parte da entrevista que fizemos recentemente a José Projecto. Pode ler a primeira parte aqui.

BDBD - Como surge a ideia de primeiro fazer e depois publicar o "Giraldo"?
JP - O Giraldo (ou Geraldo), posso dizer que é a BD da minha vida, não pelo tema em si, mas pelo percurso enorme que ainda me acompanha. Fascinado pelo lirismo e romantismo medieval de Évora, decidi um dia dedicar-lhe uma banda desenhada e a lenda do Giraldo pareceu-me um bom ponto de partida. Teve várias versões até chegar à que se publicou, já com uma história melhor construída, baseada na lenda mas também numa eventual realidade histórica. Quando o Jorge Magalhães viu os originais gostou bastante e propôs a história à direcção da Editorial Futura.

BDBD - Conte-nos um pouco acerca do processo de realização deste álbum: quanto tempo demorou com ele, que dificuldades encontrou, que apoios teve, como escreveu o argumento, como se documentou...
JP - Nunca ilustrei ou pintei com rapidez. Gosto de levar o tempo que é necessário, sem stress. Se reparar no ano da minha assinatura nas vinhetas compreende que não criava muitas pranchas por ano. Em paralelo, pintava, estudava, namorava, trabalhava... O Geraldo muitas vezes tinha de esperar. Para me documentar, passei muitas horas na Biblioteca Pública de Évora e falei com alguns historiadores. 
Reuni-me com alguns amigos que me ajudaram a iniciar o argumento. No final do álbum é publicado um apontamento histórico que reflete parte desse auxílio. A história de “Ramiro” por William Vance é talvez a que mais me influenciou na criação do Geraldo. Para além dos amigos que já referi, tive o apoio do Jorge Magalhães que aceitou dar um aspeto final ao meu guião criando o argumento final.

BDBD - Porque é que, após a publicação desse álbum, em 1985 ou 1986, nunca mais ouvimos falar de si (pelo menos no que toca à banda desenhada)? Afastou-se voluntariamente ou foi obrigado a isso?
JP - Com vinte e três anos, muito desmotivado pela Escola Superior de Belas Artes e desejando criar planos para uma vida minimamente estável, receber 25 escudos por exemplar de álbum-BD não era nada promissor. Em paralelo à BD, a ilustração e pintura da vida selvagem começaram a dar fruto. Por sugestão de um amigo filatelista que gosta muito do meu trabalho, e que tinha feito parte da criação do Clube Eborense de Banda Desenhada, procurei a Direcção de Serviços de Filatelia dos CTT. Propuseram-me a primeira emissão filatélica, em 1986, sobre Aves da Madeira. Foi o início da minha carreira como ilustrador filatélico, um percurso mais seguro e independente, que ajudou a organizar a minha vida como ilustrador e pintor de natureza.




BDBD - A ilustração de natureza, com pinturas para livros, selos, quadros... é uma área que lhe dá tanto prazer quanto a BD ou, se pudesse escolher, optaria pela banda desenhada?
JP - A paixão pela BD persiste, mas a motivação pela conservação da natureza foi mais forte. De 1980 a 1990, foi uma década determinante para o meu trabalho como ilustrador de natureza. Em 1986 integrei o Serviço Nacional de Parques e publiquei a minha primeira emissão filatélica. Estes dois acontecimentos proporcionaram-me contactos, viagens, amigos e conhecimentos, que contribuíram muito para aquilo que me tornou conhecido como ilustrador e pintor de natureza. Em Lisboa faltava-me o espaço e a natureza, já não aguentava mais. Conseguir manter o emprego, a atividade como artista plástico e voltar para a província foi muito stressante. Sou uma pessoa muito emocional. Necessito de sossego. Não gosto de solidão, mas gosto de estar e trabalhar sozinho. Em 1990, fiquei doente e solicitei uma licença sem vencimento por tempo indeterminado. Levei muitos anos, com altos e baixos, para me recuperar. Não queria regressar à função pública. Em 1998, por altura de Expo 98, tinha muito trabalho. Mas, nos anos seguintes, a ilustração analógica passou a ter grande concorrência da ilustração digital. Comecei a ter muito pouco trabalho e a dedicar-me mais à pintura e a exposições. A pintura é um processo muito lento, não é rentável, a não ser que os valores se tornem exorbitantes e, mesmo assim, se estiver seis meses a pintar um quadro pelo valor mensal do vencimento mínimo nacional, nem todos os clientes estão dispostos a investir no trabalho, a não ser que compreendam o que está por trás, o que representa e o valor da criatividade. Com muita relutância e para não perder o vínculo, regressei à administração pública, algo que ainda hoje tenho muita dificuldade em aceitar. É um perfil que não me encaixa, sinto-me preso, mas é um mal necessário à minha sobrevivência e da minha condição familiar.


BDBD - E, no entanto, o "bichinho" da banda desenhada nunca saiu de si, curiosamente... Como surge a ideia de reeditar o Giraldo, com mais páginas e argumento revisto e actualizado? Não ficou totalmente satisfeito com a primeira edição ou há dados novos acerca desta personagem?
JP - A forma como vejo agora a história de Geraldo já não tem a mesma fantasia inicial. Hoje, com cinquenta e nove anos, vejo Geraldo como um mercenário ambicioso, implacável, pronto a jogar com as duas faces da moeda pra obter o que desejava. Este tipo de personagem, embora característico e notável na sua época, não tem nada que ver comigo ou com o que desejo para a humanidade ou para o planeta. Infelizmente, ainda temos muitos Geraldos entre nós, que são cópias fiéis da barbárie medieval. Quando decidi retomar, falei com o Jorge Magalhães e o Geraldes Lino. Como era de esperar, ficaram extremamente motivados. Mas os atentados terroristas aumentaram e começaram a distorcer até a história da invasão islâmica e reconquista. Interrompi novamente. Nalguns períodos históricos sobre a invasão islâmica da Península Ibérica também se viveu em paz entre o Islão, Judeus e Cristãos. Devemos bastante a esses períodos que possibilitaram a troca de valores científicos e culturais entre as diferentes religiões e culturas, que são atualmente reconhecidos como património da humanidade. Reeditar o Geraldo para ser objecto de fundamentalismo não está no meu horizonte. Por isso, se avançar, quero ter bastante cuidado com a forma imparcial e factual como vou retomar toda a história, procurando um tratamento especial para as cenas de violência. O que prevejo é continuar a visão do homem, não do herói, mercenário, ambicioso, mas um homem que sobrevive como pode e não tem religião, tanto ostenta a Cruz como o Crescente. Tal facto custar-lhe-á a vida em Marrocos, onde termina a sua jornada.

Pranchas inéditas de "Giraldo, o Sem-Pavor"

BDBD - Sendo um álbum que se centra num personagem histórico, que tanto diz a Évora, nunca houve interesse, por parte da autarquia eborense, por exemplo, de patrocinar uma reedição?
JP - Respondo-lhe com o seguinte ditado: “os santos da casa não fazem milagres”. E também não sou eu que os procuro. A cultura e a arte em Évora sempre foram muito elitistas e eu não gosto de elites. Se algum dia esta história chegar ao fim, tenho tempo de me preocupar com a sua edição. Se for necessário, edito-a em Espanha. Tenho boa relação com Olivença, onde fiz a minha última exposição de pintura. A história do Geraldo, se avançar, vai deixar de se concentrar na conquista de Évora mas sim na vida (com bastante ficção) do personagem.

BDBD - Uma curiosidade que me ocorreu agora: sendo o José Projecto um ilustrador que domina perfeitamente a utilização da cor no seu trabalho, na BD optou sempre pelo preto e branco. Porquê?
JP - Adoro a cor, mas também adoro a ilustração a preto e branco principalmente em BD. Depende do ilustrador, há artistas que desenham para a cor, no preto e branco, sente-se a falta dela e há outros em que a cor adicionada só estraga. Na escola italiana de ilustradores do personagem “Tex Willer”, existem excelentes artistas a preto e branco. A cor não faz lá falta. Fabio Civitelli é um bom exemplo do que estou a afirmar.

BDBD - Estando tão ligado à ilustração de Natureza, nunca aconteceu fazer uma BD focando esta temática?
JP - Sim, tenho duas páginas sobre um lince. Deixo aqui as reproduções.


BDBD - Continua a manter contacto com a "Tribo da BD", de alguma maneira? Qual a sua relação com esta forma de arte nos dias que correm?
JP - É praticamente nula. De vez em quando troco e-mails com a Chaterine Labey, viúva do Jorge Magalhães, e quero enviar um e-mail ao Esteban Maroto para saber se está bem. Trocámos de e-mails uma ou duas vezes e gostei muito.

BDBD - Pretende deixar alguma mensagem especial a alguém?
JP - Na divulgação da primeira parte desta entrevista recebi o apoio de vários amigos, a quem agradeço profundamente, mas houve um em particular que me comoveu e tocou no principal motivo que, 
ao longo de todos estes anos, me moveu como ilustrador. Não foi o dinheiro, carreira, ou ambição. Apenas o amor à ilustração, a vontade de partilhar a fantasia e imaginação, fazer parte desse mundo, dessa variante artística.
José Gaspar foi meu colega na administração pública. Agora aposentado, temos afinidades desde que nos conhecemos, mas muito pouca convivência. Surpreendeu-me com o seu comentário, do qual transcrevo um excerto, que me fez sentir bastante realizado ao optar por esta vida nada fácil que é ser ilustrador em Portugal:
«A minha personalidade e vivência criança/adolescente construiu-se à volta de "figuras" como Kit Carson, David Crockett, Buffalo Bill, Daniel Boone, Tarzan, Major Alvega, grande fã do Fantasma e tantos outros. Também era leitor assíduo do "Mundo de Aventuras".
Alguns destes, como vi agora, tiveram capas desenhadas por ti. Portanto, de alguma forma és responsável pelo mundo maravilhoso e pelo universo de sonhos em que me construí.
Já ganhei o dia!

Forte abraço.»
A todos os que me apoiam e acompanham ao longo da minha carreira como ilustrador, em particular aos que amo e me são mais próximos, o meu muito obrigado.


BDBD - Muito obrigado nós, José Projecto, por esta entrevista.
JP - Obrigado também, pelo interesse no meu trabalho e convite para a entrevista, trazendo boas lembranças de outros tempos. Espero ainda ter oportunidade para nos conhecermos pessoalmente e de retomar este maravilhoso mundo da BD, onde a fantasia se confunde com a realidade.

Nota: as imagens são copyright de José Projecto
CR

sábado, 28 de agosto de 2021

ENTREVISTAS (34) - JOSÉ PROJECTO (1.ª parte)

José Projecto trabalhando no seu ateliê, numa foto de 2020.

José Projecto é um nome que talvez pouco diga ao público bedéfilo dos nossos dias. Contudo, para os "jovens" bedéfilos dos anos 80 ele é um autor bem (re)conhecido, essencialmente pelo seu álbum "Geraldo", editado pela extinta Futura, assim como por outros trabalhos publicados em revistas icónicas como "Mundo de Aventuras" ou "Selecções BD".
Fizemos uma pesquisa e facilmente encontrámos o seu site, a partir do qual encetámos contacto e o convidámos a dar-nos uma pequena entrevista para o nosso blogue, algo a que, simpaticamente, acedeu com agrado. É essa entrevista, que agora aqui reproduzimos. Antes disso, porém, transcrevemos uma mini-biografia que fomos buscar precisamente ao seu site de modo a que todos os que nos leiam entendam melhor quem é o autor a quem damos hoje destaque no BDBD.

José Projecto nasceu em Évora, a 17 de Março de 1962. 
Desde muito cedo manifestou a sua motivação por representar e pintar o que o rodeava, sentindo uma inclinação especial pela 9.ª Arte. Começou por ilustrar fanzines e pequenas histórias de Banda Desenhada editadas no “Mundo de Aventuras”, “Selecções”, entre outros. 
Publicou o seu primeiro álbum de BD, intitulado “Giraldo-o-sem-pavor” em 1984. Durante a execução do segundo álbum que não chegou a terminar, as suas pranchas retratavam aspectos muito detalhados da fauna e paisagens que envolviam os personagens da história. Era o início da sua carreira como ilustrador e pintor naturalista. 
Intensificou as suas saídas de campo, reproduzindo nos anos seguintes vários elementos da nossa vida natural. Interrompendo a sua licenciatura em Belas Artes que iniciou em 1982, trabalhou como ilustrador para o actual Instituto da Conservação da Natureza. 
Simultaneamente começou a trabalhar com os Correios de Portugal e Tecnologia das Comunicações ilustrando diversos originais filatélicos para Portugal (continente, Madeira e Açores), Angola e Guiné-Bissau que se encontram divulgados em diversos países. 
Abandonou por nove anos o seu trabalho na administração pública, para se dedicar inteiramente à pintura e ilustração. Em 1992 o conjunto de selos portugueses da sua autoria, alusivos á conferência das Nações Unidas, ECO 92, foi distinguido com o prémio internacional do mais belo selo dedicado ao ambiente. 
Actualmente, repartindo o seu tempo de trabalho como funcionário da administração pública, continua pintando cenas particulares da nossa fauna.

Feitas as apresentações, é hora de avançar para a entrevista que, na verdade, não é tão pequena assim, facto que nos obriga a dividi-la em duas partes (sendo que a segunda parte será publicada nos próximos dias).
Boas leituras!
Carlos Rico


BDBD - O primeiro contacto que teve com a BD surgiu aos seis anos, através de um exemplar de "O Falcão", que lhe foi oferecido pelo seu pai (segundo nos dá conta no seu site, onde refere, até, o nome da aventura que tanto o fascinou: "O Segredo do Deserto"). O que é que viu de especial nessa história que lhe despertou esta paixão pela 9.ª Arte?
José Projecto (JP) - Desde muito cedo tive facilidade em imaginar qualquer história que me contavam. Felizmente, a minha geração foi contemporânea de um período áureo da ilustração, desde as caixas de sapatos, embalagens alimentares, anúncios de publicidade, jornais, revistas, embalagens de brinquedos, etc., quase tudo era ilustrado. Quando o meu pai me ofereceu o “Falcão #392”, com a história intitulada “O Segredo do Deserto”, deveria ter cerca de seis anos, como refere. 
Capa de "O Falcão" #392
Compreendi o meu interesse pela comunicação através do desenho porque me atraía muito tudo o que era ilustrado. Foi o ponto de partida para iniciar o desenho, reproduzindo muitas das ilustrações das revistas que passei a coleccionar sempre que era possível. Embora nunca tenha visitado o deserto, ainda hoje sinto uma atração muito especial por tudo o que se relaciona com os grandes desertos de África, a sua história, mistérios e evolução. Muitas destas histórias eram originalmente publicadas em Inglaterra e França, com ilustrações e argumentos muito bons. Felizmente, hoje é possível encontrar o trabalho de muitos dos ilustradores na internet, que maioritariamente não eram identificados. É frequente pesquisar autores como Thomas Marco Nadal no personagem de “Kalar”, Russ Manning no personagem de “Tarzan”, e outros que fizeram e fazem as delícias do meu gosto por BD. Das histórias que encontrava no Falcão, o personagem do “Robin dos Bosques”, publicado com o nome francês “Oliver”, foi sempre um dos meus preferidos, pelo lirismo que lhe atribuía princípios de democracia e distribuição de riqueza.

BDBD - Esses tempos áureos, nos anos 70 e 80, em que nos quiosques se encontravam inúmeros títulos de revistas de banda desenhada, acabaram há muito. Hoje não temos uma única revista sob edição portuguesa (embora uma fatia de público adquira revistas com edição brasileira ou americana, por exemplo) e, em contrapartida, consomem-se maioritariamente álbuns. Tem saudades desses tempos? Acha que algum dia haverá condições para termos de novo uma revista BD portuguesa nas bancas ou julga que esse cenário estará completamente colocado de lado, nos tempos actuais?
JP - Claro que tenho muitas saudades. Quando ia de férias com os meus pais para a praia de Armação de Pêra, adorava os quiosques repletos de revistas de BD em segunda mão e todos os tostões que apanhava eram para comprar revistas. Por essa altura, deveria ter uns dez anos, comprava uns cadernos A4 da Firmo-Porto, que rapidamente enchia de desenhos, por vezes procurando reproduzir as vinhetas que me despertavam mais interesse. Passava um mês de férias completamente obcecado. Acredito que tudo tem o seu tempo, é possível que voltemos à BD nos quiosques, mas o que deu vida ao fanzine e revista de BD foi um espaço socio-cultural livre nos EUA e na Europa, após a Segunda Guerra. Em Portugal, sentimos mais este impacto depois da Revolução de Abril, porque a ditadura não permitia ter muitas edições nesta área. Actualmente, esse espaço não é o mesmo, a realidade virtual tem mais força pelas infinitas possibilidades que disponibiliza. Mesmo depois de Abril, qualquer artista tinha de trabalhar muito para ver o seu trabalho aprovado e publicado. Hoje, graças à internet, os artistas têm a possibilidade de mostrar o seu trabalho ao mundo inteiro de uma forma muito rápida e praticamente gratuita. Recordo-me de uma entrevista que tive com o Vasco Granja, próximo dos meus quinze anos, de onde saí profundamente desiludido quando lhe pedi opinião para uma BD que ilustrei sobre a vida da Marilyn Monroe. Granja afirmou que aquele trabalho era apenas uma brincadeira. Mais tarde compreendi que era uma questão política, a vida de Marilyn foi complexa e a sua morte um mistério, a história reflectia a minha falta de conhecimento e ingenuidade, próprias da idade, numa enorme paixão pela diva. Talvez Granja desejasse proteger-me, porém poderia ter sido mais construtivo e explícito nas suas observações. 
Assim como o e-book não tirou o lugar ao livro, o mesmo irá acontecer com os álbuns ou algumas revistas de BD. Mas nada que se compare ao passado. A realidade do futuro editorial, tudo leva a crer que será acima de tudo virtual.

BDBD - A sua estreia na Banda Desenhada, enquanto autor, deu-se, naturalmente, através de publicações amadoras (vulgo fanzines) que produzia de forma artesanal, como era norma naqueles tempos. Que tipo de histórias editava? Já indiciavam o seu gosto pela História e pela Natureza ou eram de outro âmbito?
JP - Sempre fascinado pelo desenho e pela ilustração, os estudos ficavam em segundo plano. Era mais o tempo que passava a desenhar, do que a estudar. Sensivelmente pelos meus catorze anos, um amigo da adolescência propôs-me criarmos uma BD em conjunto. Dessa proposta mais tarde nasceu o “Clube Eborense de Banda Desenhada” composto por um grupo de amigos com uma visão comum, e que atravessou várias alterações, originando, entre outras atividades, cerca de seis fanzines intitulados “Calypso”. Tudo apoiado pelo FAOJ (Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis) e, já no final da sua existência, apoiado também por uma tipografia local, que contribuiu bastante para os meus conhecimentos sobre impressão em offset. Influências num misto de 7.ª e 9.ª Arte, primeiro, a ficção cientifica, as séries “Space 1999”, “Star Treck”, “Star Wars”, etc. Depois, o regresso à ficção histórica e ao fantástico com a época medieval “Robin Hood”, “Prince Vaillant” e primórdios das civilizações com “Conan”. A paixão ou influência da natureza esteve sempre presente, mas só teve relevo nas vinhetas do Geraldo. O meu crescente interesse pela fotografia ajudou-me a ter outra sensibilidade e maneira de criar os meus originais.

Capas do primeiro e último números do fanzine "Calypso" 
(Edições de 1977 e 1983)

BDBD - No princípio dos anos 80, publica nas "Selecções BD" e no "Mundo de Aventuras". Como aconteceu isso? Ser autor de BD (ou, pelo menos, publicar uma história) era algo que ambicionava e que acabou por se concretizar ou a oportunidade veio ter consigo e soube aproveita-la?
JP - A criação de “Crime do Universo” surgiu na evolução natural do meu interesse pela BD, com grande influência de ilustradores como Esteban Maroto em “5 x Infinito” e Jonh M. Burns com “Danielle” e “The Seekers”. Consumidor habitual da revista semanal “Mundo de Aventuras”, sabia que a editora estava aberta a novos autores portugueses. Quando terminei a história, dirigi-me à Agência Portuguesa de Revistas onde conheci o Jorge Magalhães, apresentei-lhe as pranchas e convidou-me a propor à direcção a sua publicação, que foi aprovada e editada. 
Prancha original de "Crime no Universo" (episódio 1), publicado no "Mundo de Aventuras"

BDBD - Fale-nos um pouco deste trabalho, "Crime no Universo".
JP - Penso ter respondido a esta questão na pergunta anterior, não há muito mais a dizer, “Crime no Universo” foi o resultado de anos de trabalho, precedido pela história de “IRA”, uma história que a minha irmã, Margarida Projecto, adaptou a partir de um poema e que foi publicada nas Seleções da Agência Portuguesa de Revistas.
Prancha original de "Ira", um trabalho dos irmãos Projecto,
José (desenhos) e Margarida (adaptação), publicado em "Selecções BD"

BDBD - Acabou, mais tarde, por fazer um segundo episódio de "Crime no Universo" que se manteve inédito (sendo hoje reveladas, em primeira mão, algumas pranchas, facto que muito lhe agradecemos). Porque é que este segundo episódio não foi publicado, como aconteceu com o primeiro?
JP - Recordo-me vagamente. Acho que esteve relacionado com o final ou restruturação da Agência Portuguesa de Revistas e a saída do Jorge Magalhães, para ficar como colaborador da Editorial Futura. Lembro-me que o último encontro que tive com o Jorge Magalhães foi precisamente para reaver as pranchas que estavam na sua posse.

Pranchas do segundo episódio de "Crime no Universo", que se mantém inédito

BDBD - Para o "Mundo de Aventuras" fez também uma série de capas, já na última fase da revista, com variados personagens. Como surgiu essa oportunidade?
JP - Como estava a estudar em Lisboa necessitava de ter algum rendimento extra, para não sobrecarregar os meus pais. Como faziam outros ilustradores, propus à Agência Portuguesa de Revistas dar apoio às ilustrações que fossem necessárias para as suas edições quando fosse possível. Ganhava-se pouco, mas ajudava a pagar o quarto.


Capas da revista "Mundo de Aventuras", por José Projecto (1986)

BDBD - Quantas capas fazia por mês? As cenas eram-lhe sugeridas ou era um trabalho totalmente seu?...
JP - À semelhança do que aconteceu com muitos ilustradores, não valorizei muito este trabalho. Por vezes sugeriam-me o que deveria reproduzir, outras vezes davam-me a liberdade para escolher...
(continua)

Nota: as imagens são copyright de José Projecto
CR