domingo, 31 de julho de 2022

BREVES (108)

JOSÉ RUY EXPÕE ADAPTAÇÕES LITERÁRIAS EM VISEU
No próximo dia 4 de Agosto (quinta-feira), às 22:00 horas, inaugura em Viseu, no Pavilhão Multiusos da Feira de São Mateus, a exposição "José Ruy: Literatura e Banda Desenhada". 
Trata-se de uma produção conjunta entre o Gicav - Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu, a Viseu Marca e a Câmara Municipal de Moura.
A exposição é composta por dezasseis painéis, com pranchas de algumas das muitas obras literárias que José Ruy adaptou à BD como "Ubirajara", "Os Lusíadas", "A Peregrinação", "Auto da Barca do Inferno" ou "O Bobo", entre outras.
Uma mostra definitivamente a não perder, que estará patente ao público até 21 de Setembro.


O 33.º AMADORA BD JÁ MEXE!
A três meses da abertura oficial, o Amadora BD já tem imagem gráfica(!), uma nota que nos apraz registar pois foi, durante anos, uma lacuna apontada à organização deste evento.
De 20 a 30 de outubro, o maior Festival Internacional de Banda Desenhada em Portugal volta à cidade da Amadora, com o núcleo central com uma área alargada, com uma zona de GAMING e uma nova área de street food.
A relação Portugal-França é o tema da edição 2022 do Amadora BD, e é também a inspiração para a cenografia do evento que este ano e a convite da direção do Amadora BD, conta com uma ilustração original de Juan Cavia, vencedor (a par com Filipe Melo) do prémio de Melhor Obra de BD de Autor Português nos PBDA em 2021.
Voltaremos a este assunto.


ACHADO ENFIM, O TAL MEXICANO!
Diz o povo que "não há mal que não acabe, nem bem que sempre dure". Talvez...
A 18 de Junho de 2013, o BDBD iniciou a rubrica "BD e História de Portugal", começando com "O Assalto ao Santa Maria", a heróica "loucura" do destemido capitão Henrique Galvão e seus companheiros portugueses e espanhóis, em 1961. 
O mundo inteiro parou ante este tão impensável gesto... Em pleno Oceano Atlântico, o paquete português "Santa Maria" (que até foi crismado de "Santa Liberdade") navegava sem grandes decisões: a ida para Angola foi posta de parte, a aposta na Argentina era ambígua, o Brasil (então aliado de Salazar) recusou dar apoio e a Venezuela foi, então, o melhor ponto de acolhimento...
Deste espantoso facto da nossa História surgiram, pelo menos, duas versões em Banda Desenhada: uma, curta em quatro pranchas, pela parceria francófona de Lux (aliás, Nicolas Lux) e Fédor (aliás, Fernand Vandenwouwer), "O Fantástico Cruzeiro do Santa Maria", que até deu origem a uma longa-metragem portuguesa e a devida edição-BD na revista "Mundo de Aventuras". Ça va!...
Mas o México, sempre entusiasmado com a Banda Desenhada, editou então "El Buque Rebelde"... Porém, ninguém achava o nome do respectivo desenhista: nem nós no BDBD, nem o saudoso Jorge Magalhães, nem o digno pessoal atento do Clube Português de Banda Desenhada... Nada! Nem mesmo o belo exemplar do seu "Boletim" #153, a este tema dedicado, nos esclarece...
Quem foi afinal o desenhista mexicano que elaborou "El Buque Rebelde"?
Teimámos em singrar por este mistério e lá descobrimos, para bom alívio, que é (ou era) o famoso (pelo menos no seu país) Alfonso Tirado (1910-1991), um dos maiores valores da BD mexicana, que aqui teve também a habitual parceria com Maria Isabel Camberos e Eduardo Martinez. Aleluia, pois!
Falta, porém, conhecermos no nosso idioma este atrevido e espectacular episódio da nossa História não muito distante. A ver vamos...
Obrigado, Alfonso Tirado!



ANIVERSÁRIOS EM AGOSTO
Dia 01 - Andrei Ariniuchkine (bielorrusso)
Dia 03 - Miguel Montenegro
Dia 06 - Manuel Caldas
Dia 08 - Derib (suíço), Lu Ming (mongol) e 
Ralf König (alemão)
Dia 10 - João Neves e Chistophe Blain (francês)
Dia 13 - Enrico Marini (italiano)
Dia 15 - Tozé Simões e Pedro Massano
Dia 17 - Álvaro
Dia 18 - Xabel Areces (espanhol)
Dia 27 - Nuno Saraiva
Dia 28 - Joann Sfar (francês)
LB/CR

quarta-feira, 27 de julho de 2022

JOSÉ PIRES (1935-2022): MEMÓRIAS DE MOURA

Faleceu, no passado dia 15 de Julho, José Pires, nome grande da BD portuguesa, mas sobretudo um amigo de quem guardo muitas e gratas recordações. É sobre estas que aqui vos venho falar.

Sempre tive uma grande empatia pelo José Pires, logo desde que o conheci, nos primeiros salões da Sobreda que visitei, lá pelos inícios dos anos 90.
Lembro-me que, quando cheguei à Sobreda, eu era um “miúdo” algo complexado, 
no meio daqueles craques todos que idolatrava há anos. 
Com o tempo e a convivência, claro, fui percebendo que os autores de BD mais consagrados falavam comigo de igual para igual, sem quaisquer tiques de vedeta.
Era este, também, o caso do Pires, sempre impecavelmente vestido (em vez de gravata, gostava de usar um elegante lenço ao pescoço) e com uma mala ao ombro (onde normalmente  trazia, entre canetas e lápis, o mais recente número do "Fandwestern") e sempre bem falante. 
Sendo ambos alentejanos e gostando do mesmo tipo de banda desenhada (os clássicos ingleses e italianos, entre outros), a amizade foi crescendo, naturalmente, entre nós. 
À direita, eu e José Pires, assistindo à sessão solene da Sobreda / BD 1999,
no Solar dos Zagallos

Por sugestão do Luiz Beira, indiquei o nome de José Pires à Câmara Municipal de Moura como o autor a homenagear no salão Moura BD 98, algo que ele aceitou meio encavacado pois nunca se considerou um desenhador de excelência no mundo da BD. Considerava-se apenas, com modéstia, um simples “fazedor de bonecos”, como, aliás, disse numa entrevista relativamente recente a este blogue.
José Pires, homenageado no Moura BD 1998
Obviamente que José Pires foi um extraordinário autor de banda desenhada e, por isso, foi premiado com o Troféu Balanito, com todo o merecimento. Mas, mais do que troféus e distinções, o que agradava a Pires verdadeiramente era o convívio entre os amantes da BD, e esse ambiente ele encontrou-o em Moura e cativou-o para sempre.
Tanto que, a partir desse ano, passou a ser uma visita assídua ao salão mourense e, com o tempo, acabou mesmo por se tornar num dos mais assíduos de sempre. Exceptuando o Luiz Beira (que terá falhado uns três ou quatro salões apenas) e o Geraldes Lino, José Pires, desde que visitou o salão em 1998 raramente falhou uma edição. Vinha sempre no seu carro, acompanhado por um grupo de amigos. Partiam de manhã, almoçavam em Moura, durante a tarde visitavam as exposições, assistiam à sessão de entrega de prémios e regressavam no final do dia. Sempre o mesmo ritual e quase sempre o mesmo grupo, também: ele, o Dâmaso Afonso, o Nuno Simões Nunes e o Luís Salvado. Por vezes, o lugar que sobrava era preenchido pelo Jorge Magalhães, pelo Zé Manel, pelo João Amaral ou pelo Luiz Beira. Em duas ocasiões diferentes, trouxe também, e para surpresa geral, a mãe - uma senhora já com idade avançada mas cheia de genica e de boa disposição - e a esposa, esta na última edição do Moura BD, em 2013. 
Com o seu grande amigo Jorge Magalhães, observando pranchas no salão Moura BD, dedicado ao western, uma das suas grandes paixões (Novembro de 2000).

Numa foto de grupo, durante o salão Moura BD (Novembro de 2001)

Durante o almoço-convívio, no Moura BD 2007

Com a esposa, durante o almoço-convívio do Moura BD 2013, última edição do salão.

O Pires estava sempre a elogiar o salão e as suas publicações. E sempre que podia, ajudava-nos de alguma forma. Por exemplo, em 2000, o Moura BD deu destaque ao western, um tema muito querido por José Pires (co-criador de personagens como Will Shanon e Irigo, entre outros, e editor do fanzine “Fandwestern”, que manteve durante anos, reeditando histórias dos mais conceituados autores do género).
Entusiasmado, José Pires predispôs-se, desde logo, a emprestar-nos algum material que coleccionava para incluirmos nos cenários que o salão iria produzir.
Lembro-me que, quando fomos buscar a sua casa alguns chapéus, coldres e cartucheiras, assim como réplicas de “colts” e “winchesters”, tinha uma bela colecção de livros sobre o tema, que certamente lhe terão servido de auxílio gráfico para muitas das suas histórias. Cheio de orgulho, abriu alguns desses livros e, enquanto me mostrava fotografias de Sitting Bull, Crazzy Horse ou Gerónimo, explicava detalhes sobre a vida daqueles personagens, as suas lutas, as suas conquistas e os seus trágicos destinos. Uma brevíssima aula de História que, até hoje, recordo com nostalgia.
Uns anos depois, em 2002, o tema escolhido foi “O Terror” e o José Pires também nos emprestou algum material para expor (pranchas de revista Creepie em grande formato).
As armas, coldres e cartucheiras emprestados por José Pires para o salão Moura BD 2000...
...e as pranchas da revista Creepie, expostas no Moura BD 2002

Em 2009, Pires participou com um belo trabalho (texto e desenhos) no álbum colectivo “Salúquia: a Lenda de Moura em Banda Desenhada”.
Lembro-me que o Pires (junto com o José Ruy, o Baptista Mendes e o Augusto Trigo – e talvez mais um ou outro autor que agora não recordo) se mostrou desde logo muito entusiasmado, quando a ideia do álbum surgiu, durante a inauguração do Festival Amadora BD, em 2004, junto ao metro da Falagueira. Uma ideia que surgiu ali e ali teria morrido, certamente, não fora o entusiasmo com que foi acolhida por estes autores.
Durou cinco anos até o álbum ser uma certeza mas, no dia do lançamento e da inauguração da exposição de pranchas originais, fez-se uma grande festa a que muitos dos autores participantes compareceram, tendo o José Pires também marcado presença, onde autografou alguns álbuns. Faltou o meu pois, na confusão do momento, nem me lembrei de tal…
Muito solicitado, autografando o álbum "Salúquia: a Lenda de Moura em Banda Desenhada" (Junho de 2009)

Mantivemos sempre um contacto muito próximo, quer por telefone (o Pires cumprimentava-me sempre de forma efusiva, com a sua característica voz aguda: “Olá, meu querido amigo Carlos Rico!”), quer por e-mail (longos e cheios de conteúdo, como se estivéssemos a conversar cara a cara), quer nos diversos salões e festivais de BD que visitávamos (Amadora, Viseu, Beja… e Moura).
Entretanto, desanimado por não encontrar uma editora que lhe publicasse os álbuns que tinha prontos (creio que eram três!), o José Pires decidiu enveredar pela publicação em fanzine de séries de que gostava desde miúdo, e que ele lia no “Mosquito” e noutras revistas do género.
Restaurou séries emblemáticas como “O Gavião dos Mares”, “O Capitão Meia-Noite”, “Rob the Rover”, “Matt Marriott”, entre outros.
Recentemente optara por publicar trabalhos de Eduardo Teixeira Coelho, não só restaurados como também… coloridos por si, num gesto polémico e pouco consensual entre o meio bedéfilo. Contudo, José Pires defendia-se dizendo que o próprio ETCoelho teria preferido publicar as suas histórias a cores, se na época tivesse tido à disposição os meios que hoje temos. Enfim, nessa parte sempre discordámos. De forma elegante e civilizada, como dois verdadeiros amigos, cada um de nós tentava convencer o outro do seu ponto de vista mas sem efeitos práticos de parte a parte. Em todo o caso, sempre lhe gabei a paciência e o trabalho que tinha para recolher todo o material necessário para reeditar obras como as que referi acima. E – mérito lhe seja dado – por vezes acrescentando material (leia-se pranchas ou vinhetas) que em anteriores publicações tinha sido mutilado ou adulterado.

Algumas das publicações que Pires editou com material por ele restaurado

Em 2019, a Câmara de Moura, a de Viseu e o Gicav co-produziram uma exposição sua intitulada “A Portuguesa: História de um Hino”. A exposição inaugurou em Moura e José Pires veio – pela derradeira vez – até esta cidade alentejana, à boleia com um sobrinho.
Durante a inauguração da exposição "A Portuguesa: História de um Hino",
no Cine-Teatro Caridade, em Moura (Abril de 2019)...

...e observando a mesma exposição. 

A exposição seguiu posteriormente para Viseu, onde voltámos a encontrar-nos, mas, depois disso, creio que nunca mais nos vimos pessoalmente. O Covid e as medidas restritivas não deram tréguas e, durante dois anos, apenas trocámos e-mails e alguns breves telefonemas, mas até estes começaram a deixar de acontecer.
Estranhei não ter notícias do José Pires há algum tempo (ele sempre me enviava, por mail, as novidades que incansavelmente produzia em forma de fanzine…) e resolvi escrever-lhe para saber se estava tudo bem. Como não me respondesse, resolvi telefonar mas também não atendia. Consegui, enfim, um contacto através da amiga em comum, Catherine Labey.
Atendeu a filha, Teresa, enfermeira e cuidadora. Percebi que a situação não era boa. 
Combinei com a Teresa uma visita na semana seguinte mas, lamentavelmente, já não foi possível…

Duas coisas vão fazer-me muita falta quando me recordar do José Pires. Aquela troca mais ou menos regular de e-mails, cheios de conversa, como se estivéssemos cara a cara; e aquela voz fininha e musicada, a cumprimentar-me do outro lado do telefone: “Olá, meu querido Amigo Carlos Rico!”
Até um dia, meu querido Amigo José Pires!
CR

quarta-feira, 13 de julho de 2022

ILUSTRAÇÕES E HISTÓRIAS EM QUADRINHOS por José Ruy (14)

E vamos seguindo a aventura de «Fabrício, o Espadachim» de Peter Tenerife, aliás José Padiña, que foi publicada no jornal «O Mosquito», mas sem ilustrações. Continuemos com as palavras de Padiña, embora resumidas: 

No dia seguinte, o padre e Fabrício foram ao palácio do Governador que lhes falou de testa franzida, mirando em redor à procura de Daniel. E perguntou:
— Só um? Vós haveis dito que me entregaríeis os dois, Padre...
— Perdão! Eu nunca pensei entregar ninguém. Fazia tenção de me apresentar a mim próprio, acompanhado por outro religioso. Mas o Sr. Don Fabrício quis vir...
O Governador estava fulo. E mais fulo ficou quando Fabrício se lhe dirigiu assim:
— Senhor Governador, peço-vos que escuteis, porque vou contar a verdade do acontecido...
— A verdade sei-a eu em demasia! Não há mais falatório! Dai-me a vossa espada! Estais preso à ordem D’el-Rei de Portugal!
— O quê?! El-Rei não manda nunca prender um cavaleiro sem antes o escutar!
— Dai-me a vossa espada, já vo-lo disse!
— Segurai-a pela ponta, se a quiserdes... — e Fabrício desembainhou a lâmina.
O Governador, branco de cólera, agitou freneticamente a campainha, chamando socorro.
Apareceu um criado à porta da sala...
— Que venha a guarda! Todos os soldados! Depressa!
— Isso é que é valentia, senhor Governador! — comentou Fabrício com sorriso irónico.
Voltou costas ao Governador, e atirou-se contra a chusma de soldados e criados que invadiam a sala.
Estes, espantados pelo inesperado ataque, mal resistiram. Fabrício percorreu os corredores e atravessou o pátio sem encontrar obstáculos. Quando alcançou a porta da rua, e se dispunha a atravessar o espaço que havia até à saída da fortaleza, ouviu um tropel e a voz do Governador ecoou de uma janela:
— Prendam esse homem! Não o deixem sair!
O soldado que estava de sentinela, e mais dois ou três que vagueavam nas proximidades, esforçaram-se por cumprir a ordem. Claro que Fabrício pô-los fora de combate.
O tropel era de três cavaleiros que vinham a toda a brida.
Correu ao encontro dos recém-chegados, atirou-se à cabeça do primeiro cavalo e obrigou-o a parar. O cavaleiro era nem mais nem menos do que Balsemão Geraldes, acompanhado por dois amigos. Vinha saber notícias. Com um pulo, montou, virou o animal, e deparou com os amigos de Balsemão a impedir-lhe o caminho e com o clássico grito: «San Sebastian y amor!» Mas bastou que Fabrício desfechasse dois golpes, um para cada um, e lhes mostrasse a cara: eles não o tinham reconhecido antes.
— Oh! Fabrício, o espadachim...
E a coragem fugiu-lhes pelas pernas abaixo. E Fabrício abalou, livre como um passarinho.
Galopou direito ao porto e teve a sorte de haver uma nau, de partida para o sul. Entregou o cavalo aos cuidados dum marinheiro que trabalhava em terra a fiscalizar o embarque de mantimentos, e foi num batel até bordo da nau.
Dupla sorte a de Fabrício: o capitão era seu amigo, companheiro de pelejas e aventuras.
— Homem! Ainda bem que és tu o capitão! Vais salvar-me! Preciso que mandes recado ao Vice-Rei da Índia, dizendo que Fabrício está em risco de ser preso pelo Governador cá da terra.
Fabrício abraçou o amigo, e tornou ao batel. No cais um grupo de homens lutava encarniçadamente e o cavalo desaparecera. O tal marinheiro gritou:
— Senhor cavaleiro, eles roubaram-lhe o bicho.
O nosso herói desembainhou a espada e pôs os inimigos ao largo. O marinheiro explicou que logo a seguir tinham aparecido uns homens...
— É gente que anda por conta dos Geraldes. O senhor Don Bonifácio julga que é o dono disto tudo! uns fugiram com o animal, e outros ficaram-se a lutar comigo e mais estes amigos que vieram ajudar-me... — concluiu o marinheiro.
Fabrício começou a perceber a atitude do Governador querendo prendê-los, a ele e a Daniel, a todo o custo.
— Oh! Senhor! Se tendes os Geraldes como inimigos acautelai-vos!
Fabrício estabeleceu rapidamente um plano, disse aos seus novos amigos que não conhecia a cidade e precisava dum homem que estivesse disposto a correr os riscos de andar com ele.
— Quero ir à casa de um fidalgo cujo nome não sei. Apenas que tem dois filhos: uma menina chamada Florinda, e um rapaz chamado Miguel.
— Eu conheço e conduzir-vos-ei até lá, -- disse um dos homens.
— Está bem. Então partamos.
— Senhor, acho aconselhável tomarmos um batel, fingindo que vamos para bordo de uma nau. E depois desembarcaremos noutro ponto da praia...
E enquanto o barco ia vogando, Paco contava os atropelos e violências que Balsemão Geraldes, à sombra da impunidade do pai, cometia descaradamente. Desembarcaram depois de ultrapassada uma ponta de rocha e Fabrício deixou umas moedas ao barqueiro.
Internaram-se na vegetação quase bravia que a terra tinha naquele ponto.
— Agora precisamos de arranjar cavalos — disse Fabrício para o seu guia.
— Chiu! — recomendou este, encolhendo-se e puxando Fabrício atrás de si.
— Ali adiante! Olhe...
Amarrados ao tronco duma palmeira estavam quatro cavalos. Sentados no chão, os respetivos donos gozavam as delícias da sombra. Eram soldados.

— Vamos para a frente! Trata de desatar dois animais, montar num e abalar. Eu encarrego-me do resto e depois vou ter contigo!
Os soldados só se aperceberam claramente das intenções dos nossos heróis quando sentiram a pele rasgada pela ponta da espada de Fabrício e quando viram Paco desandar a galope num dos seus cavalos. Em dois minutos estavam três soldados estendidos no chão. O outro fugiu.
Então Fabrício escolheu um cavalo e partiu também, na pista de Paco.
— Ó senhor Don Fabrício! Se o senhor Don Domingos vos visse, não diria mais que Portugal já não tem guerreiros como os antigos...
— Quem é Don Domingos ?!...
— O pai do menino Miguel, o meu amo...
— Ah! Não lhe sabia ainda o nome. Pois vamos a casa do senhor Don Domingos saber novidades.
Don Domingos estava dormindo a sesta, e havia proibição absoluta de o acordarem, de modo que Fabrício viu-se obrigado a esperar e foi passear para o jardim. Ai encontrou Florinda. Saudou-a, e perguntou:
— Podeis dar-me novas de vosso irmão e do senhor Don Daniel?
A rapariga respondeu friamente:
— Nada sei deles, nem me interessa saber...
— Pois então senhora, tristes são os vossos sentimentos...
E dizendo isto, Fabrício voltou-lhe costas e afastou-se. Florinda, ficou vermelha como um pimentão, toda a tremer de nervoso.

A mocinha desatou a andar à toa, e foi parar ao pé do mesmo banco onde estivera com seu irmão na noite em que Fabrício trouxera Daniel. Era um banco próximo da entrada do jardim. Entretanto Balsemão Geraldes chegou e foi falar-lhe. Balsemão vinha acompanhado pelos seus amiguinhos do costume e por novo reforço de soldados do Governador.
— Olá, Florinda! Ainda bem que vos encontro a sós .
— E eu desejo agradecer-vos o modo como me haveis defendido em vossa casa, daquelas grosserias... — disse a moça.
— Nada fiz que tanto mereça... agradeça antes ao Governador que quer meter na ordem aqueles desordeiros e dar-lhes um castigo que impeça a repetição.
— Então pouco mais vos falta andar — interrompeu Florinda, encantada por achar a vingança que buscava. — Entrai e procurai...
— Qual deles está aqui?!
— Fabrício... o tal espadachim...
Balsemão empalideceu e recuou instintivamente uns passos.
— Aqui?! Não pode ser! — disse ele apressadamente, e deitando olhares medrosos em redor.
Florinda esbugalhou os olhos, espantadíssima. A escolta de Balsemão devia ter perto de cinquenta homens.
Balsemão corou, mas não ficou mais corajoso por aquela muda censura. Fabrício ganhara tal fama, que só um regimento se atreveria a atacá-lo de frente.
Para apagar a má impressão Balsemão esboçou mais um «projeto» de valentia, perguntando:
— E o outro? Sabeis onde está?
— Sei, sim. Mas vede que não vos faltem os homens suficientes... — disse, com uma pronta ironia.
— Oh! Para esse basto eu! Dizei-me onde o posso encontrar. Florinda baixou a voz, olhou à volta, e murmurou:
— Na «missão» de Vodagui...
— Obrigado. Eu vos vingarei!
E toda a soldadesca abalou, em grande tropel e grito. Tanto barulho fizeram que Fabrício veio a correr ver o que havia, e Don Domingos acordou da sesta e saiu para o jardim meio estremunhado e rabugento. Florinda tentou esconder-se, mas esbarrou com o pai ao virar uma esquina. Não se atreveu a mentir-lhe e contou-lhe o acontecido. Don Domingos não percebia, custava-lhe a acreditar.
— Então tu foste trair o teu noivo e o teu irmão?! Ahn?! Tu fizeste isso?!...
— Meu Pai, eles ofenderam-me...
— Cala-te ! Vai para o teu quarto, infeliz! E não saias de lá sem ordem minha!
A mocinha ajoelhou em terra, pedindo perdão. Compreendeu de repente a maldade do seu gesto. Mas Don Domingos já não lhe dava atento, porque Fabrício o puxava por um braço, pedindo:
— Arranje-me o melhor cavalo que tiver! Galoparei atrás daqueles bandidos, e não os deixarei chegar a Vodagui!
E antes de passados cinco minutos, Fabrício voava pelos campos fora para salvar o amigo.


No próximo artigo, a conclusão desta aventura.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

CAPAS (30)

Brasileiro por nascimento, Leo (aliás, Luis Eduardo Oliveira), nasceu no Rio de Janeiro, a 13 de Dezembro de 1944.
Por razões políticas, fugiu para o Chile e depois para a Argentina. Porém, em 1981, veio para a Europa, radicando-se em Paris.
É casado com Isabel, natural da lha da Madeira. Aqui passam vários períodos de férias.
Leo recebeu o Troféu Sobredão na edição de 2000 da "Sobreda-BD".
Em 2014, o BDBD publicou uma entrevista com Leo que pode reler aqui.
Em França, publicou curtas histórias realistas para algumas revistas, até que surgiu o seu primeiro álbum, "Gandhi, o Peregrino da Paz", com argumento de Benoît Marchon. Pouco depois, por convite do argumentista Rodolphe, elaborou a série western, com oito tomos, "Trent". Porém, a paixão de Leo é a ficção-científica, donde uma obra já bem vasta.
Ocasionalmente, Leo, também funciona como argumentista para outros desenhistas.
Aqui apresentamos algumas das suas belas capas de obras em que é o autor da arte. Imparável, continua agora com "Europa", "Scotland " e "Neptuno".
Infelizmente, continua estranhamente ignorado pelas editoras portuguesas, embora conste que foi publicado um álbum da série "Betelgeuse" pela extinta Booktree...

LB


domingo, 3 de julho de 2022

NOVIDADES EDITORIAIS (239)

L'ÉCOLE DES FEMMES - Edição Glénat. Autores: argumento de Vincent Delmas e arte de Sergio Gerasi. É o primeiro tomo da trilogia biográfica de Molière.
De seu nome autêntico Jean-Baptiste Poquelin, Molière nasceu a 15 de Janeiro de 1622 (fez agora 400 anos) em Paris, onde faleceu a 15 de fevereiro de 1673. É considerado um dos grandes, senão mesmo o maior, dos comediógrafos clássicos franceses. Suas peças continuam a ser representadas em todo o mundo culto, como por exemplo: "Tartufo", "D. Juan", "O Misantropo", "Médico à Força", "As Velhacarias de Scapin", "O Avarento", etc, etc, donde, também, a tão aplaudida "A Escola de Mulheres".
Molière teve uma vida agitada, mas sempre frontal contra as hipocrisias do clero e das elites da nobreza francesa. Mas foi sobretudo protegido pelo rei Louis XIV, que muito o admirava e estimava.
Convém ler e/ou ver, Molière. Agora há uma trilogia biográfica em BD, apenas com o primeiro tomo editado. Que venham os outros dois!...


SCOTLAND / 1 - ​​Edição Dargaud. Autores: Rodolphe e Leo no argumento e Bertrand Marchal na arte.
A empolgante série "As Missões de Kathy Austin" prossegue agora num quarto ciclo, ou seja, "Scotland (Escócia)".
Depois de "Kenya", "Namíbia" e "Amazone", todos com cinco tomos, a destemida agente secreta britânica Kathy Austin, deixa cenários exóticos e vai parar à misteriosa Escócia, onde possui um solar, para algum repouso... Chegada à aldeia de Killwood, ela descobre com espanto que o solar ardera. Investigando o sucedido, vai enfrentar bizarros fenómenos na região, enquanto um estranho grupo faz atrevidas pesquisas nas caves do ardido solar...


RATTLESNAKE - Edição Escorpião Azul. Autor: João Amaral, e prefácio por Mário Marques.
Recente criação deste autor português, "Rattlesnake"(Cascavel), é um belo triunfo na obra-carreira deste valor da nossa BD.
É uma invulgar narrativa western, com uma pistoleira/justiceira. Implacável, assobia como as cobras cascavéis, antes de disparar os seus tiros certeiros. Ninguém sabe o seu nome e tão pouco, o que esconde do seu sofrido passado...
Quem não deve não teme, mas muito cruel patife lhe deve muito, não tendo esta "cascavel" qualquer piedade por tais criminosos, aparentemente encobertos... Pois sim!

EU, MENTIROSO - Edição Ala dos Livros. Autores: argumento do basco Antonio Altarriba E arte do castelhano Keko (aliás, José Antonio Godoy). Tradução de Ricardo Magalhães Pereira.
Esta magnífica parceria espanhola de autores enfrenta-se aqui numa bem frontal denúncia às politicas hipócritas de que estão ensopadas, julgando-se ilesos, no topo da ganância de qualquer país. Como se cita no álbum: "Governar, é Fazer Acreditar"... Mas, nos povos, nem todos são ingenuamente parvos. Não são, não!
Nesta narrativa, o facto situa-se num Partido político (fictício) de Espanha, que governa o país com apenas três leis: a lei da selva, a lei do mais forte e a lei da rolha, mas sem a fantasia mórbida de se dizerem "governo democrático"... Mesmo sem os países com ditadores actuais (Coreia do Norte, Rússia, China, Bielorrússia, Brunei, Arábia Saudita, Irão, Brasil, Venezuela, Nicarágua, Birmânia, Eritreia e pouco mais), os países "democráticos" estão mascarados num certo tipo de "facinorice". Estão, estão!
Obrigatório ler este álbum!
LB