terça-feira, 5 de outubro de 2021

ILUSTRAÇÕES E HISTÓRIAS EM QUADRINHOS por José Ruy (4)

Vou descrever agora o que aconteceu com um livro a que a autora desejava acrescentar ilustrações, mas sem verba disponível para pagar os desenhos.
Estava eu na Bertrand Editora, a trabalhar no «Tin-tin». A empresa havia adquirido as oficinas gráficas «Portugal-Brasil» que instalou no seu espaço na Venda Nova. O seu gerente era o Mário Rodrigues, de quem era amigo. Recebiam obras do exterior para executar, e quando recebiam um trabalho que precisava de uma capa ou ilustrações, pediam-me para o fazer.
Foi o caso deste livro de autoria de Raoul Carrat, sobre teatro, que com os direitos, eram fornecidas imagens em zincogravura e fotogravura.
Fotogravura

Zincogravura

A tradutora e responsável pela edição desejava acrescentar ilustrações ao livro para o tornar mais apelativo, mas constatou que a verba que tinha disponível não dava para pagar os originais, chegava apenas para as zincogravuras. O livro era impresso em tipografia. Um problema.
O Mário rodrigues falou-me no caso, sabendo que eu procurava sempre resolver este tipo de obstáculos, e que neste caso passaria pela possibilidade de eu oferecer as ilustrações.
E pensei num estratagema que permitisse o livro ter mais ilustrações sem que as tivesse de oferecer. 
Há muito que tinha experimentado fazer gravuras em linóleo, xilogravura, e então propus fazer os desenhos, em vez de na base de papel, diretamente no linóleo, e depois gravar com as goivas. Tinha era de inverter as imagens para, ao imprimir, verem-se a direito.
A Maria Helena Lucas queria cerca de uma dúzia de ilustrações. Então, pagar-me-ia pelos desenhos o valor das zincogravuras que não era preciso fazer. Ficava assim a contento de todos.
O Mário Rodrigues ficou satisfeito com a solução e a Senhora ainda mais. Os linóleos foram montados sobre calços de metal, para alinharem com as gravuras que eram montadas sobre calços de madeira.

O processo dava um pouco de mais trabalho do que passar o desenho a tinta da china, quando era sobre papel, mas o gosto de trabalhar nesse material e apostar numa nova experiência, compensou.

Habituei-me a arranjar uma solução para cada obstáculo que vai surgindo pois, antes de considerarmos ser ele irremediavelmente intransponível, se pensarmos com calma conseguiremos sempre ultrapassar o problema. Um de cada vez.




No próximo artigo mostrarei a colaboração que fiz para um livro, a convite do meu amigo e colega Vítor Silva, grande ilustrador.

A capa é de autoria de Vítor Silva.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

TINTIN EM LISBOA!

Hergé, junto a uma estátua de Tintin,
no Wolvendael Park (Bruxelas)
Tem início a 1 de Outubro,  pelas 19 horas, na Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa), uma grande exposição dedicada a Tintin e à vida e obra do seu criador, Hergé.
Na inauguração, estará presente o ambicioso sr. Nick Rodowell, que casou com Fanny Vlamynck, segunda esposa de Hergé e já viúva deste.
A exposição, com entradas pagas, será de 1 de Outubro-2021 a 10 de Janeiro do próximo ano.
Recorde-se, no entanto, que também com o apoio dos Studio Hergé, uma exposição similar, se bem que relativamente mais curta, esteve patente nos anos 80, primeiro em Viseu e depois na Amadora.
Esta exposição em Lisboa, encerra às terças e, nos outros dias, estará aberta das 10 às 21 horas.                                 
                                                                                  LB

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

BREVES (98)

 OS SELOS E A BANDA DESENHADA

O Clube Português de Banda Desenhada inaugurou no passado dia 11, na sua sede, sita na Avenida do Brasil, n.º 52-A, na Falagueira (Amadora) uma exposição denominada "Os Selos e a Banda Desenhada".
A exposição ficará patente até finais de Outubro e poderá ser visitada aos sábados à tarde.
Recordemos, a propósito, que o Festival Amadora BD decorrerá naquela cidade entre 21 de Outubro e 1 de Novembro próximos.


LAMIRÉS E ZUNZUNS
O clássico "Lendas Japonesas" de JOSÉ RUY, ​vai ser reeditado na íntegra, em álbum. Era bem preciso este gesto editorial. A responsável, ao que consta, será a Polvo, que se felicita desde já.

JORGE MIGUEL, que tem estado a ser editado com êxito em França (e tem alguns álbuns em português) vai ter uma justa exposição focando toda a sua obra no próximo Salão-BD da Amadora. Enfim, faz-se justiça!

O jovem viseense ​DANI ALMEIDA, ​vai finalmente estrear-se na BD, via um álbum colectivo que está a ser programado pela editora Escorpião Azul. Força, pessoal!

Está prevista a presença do grande desenhista galego MIGUELANXO PRADO, ​no próximo Comicon Portugal, em Dezembro próximo. Boa ​sorte, Miguelanxo!


CONTINUAMOS À PROCURA DE FOTOS E VÍDEOS DO MOURA BD...

A todos aqueles que visitaram o salão Moura BD 
continuamos a apelar para que nos enviem fotos ou vídeos de alguma das dezoito edições deste festival, que decorreu entre 1991 e 2013.
Pretendemos ilustrar um conjunto de artigos que estamos a preparar, sobre a história deste salão, a publicar brevemente aqui no blogue.
Até agora, os nossos esforços têm sido infrutíferos mas estamos certos de que, algures, no fundo de uma gaveta ou de um baú de recordações, ou numa qualquer pasta esquecida de um velho CD, haverá uma foto ou um vídeo que poderá fazer toda a diferença quando contarmos a história do Moura BD.
Quem nos ajuda?


"O AMOR INFINITO" TAMBÉM CHEGOU À TURQUIA!
“O Amor Infinito que te tenho”, o belo álbum de estreia de Paulo Monteiro, foi agora editado na Turquia pela Flaneur Books, com o título “Sonsuz Aşk ve diğer hikâyeler”.
“O Amor Infinito que te tenho” foi publicado em Portugal (Polvo), Brasil (Balão Editorial), Espanha (Edicions de Ponent), França (6 Pieds Sous Terre), Polónia (Timof Comics), Roménia (Revers), Sérvia (Komiko) e Turquia (Flaneur). Algumas histórias foram publicadas em alemão, checo, galego, estónio e inglês.
Daqui enviamos um grande abraço de parabéns ao Paulo por este feito!


MORREU OLMO, CRIADOR DE DON CELES
Com 99 anos, faleceu no passado dia 8 de Setembro o cartunista espanhol Luis de Olmo Alonso. Conhecido simplesmente como "Olmo", foi, muito provavelmente, o desenhador que publicou durante mais anos consecutivos uma tira diária de um mesmo personagem.
Em 1945 criou, em La Gaceta del Norte, uma banda desenhada "ao estilo das então publicadas nos Estados Unidos". Surgiu, assim, Don Celes que, desde essa data, foi publicado praticamente de forma ininterrupta, perfazendo uma estimativa de 15.000 tiras(!). A série passou a ser publicada, a partir de 1969, no jornal El Correo Español-El Pueblo Vasco, tendo Olmo trabalhado até ao dia da sua morte...
Em 2010 foi galardoado com o Prémio Notarial de Humor da Universidade de Alicante e em 2012 recebeu o prémio de "Ilustre de Bilbao".
Que descanse em paz!


ANIVERSÁRIOS EM OUTUBRO
Dia 01 - Harold Canizales (colombiano)
Dia 02 - Joe Sacco (maltês)
Dia 10 - José Pires
Dia 12 - Siro (francês)
Dia 15 - Derradé
Dia 16 - José Carlos Fernandes
Dia 17 - Augusto Trigo
Dia 19 - David Rubin (espanhol)
Dia 21 - Rui Pimentel
Dia 22 - Yuri Jigunov (russo)
Dia 24 - Ziraldo (brasileiro)
Dia 26 - Susa Monteiro
Dia 27 - Mauricio de Sousa (brasileiro)
Dia 28 - Denis Béchu (francês)
Dia 31 - Claudio Villa (italiano)
CR/LB

domingo, 19 de setembro de 2021

CAPAS (25) - VICTOR HUBINON

Cidadão belga, Victor Hubinon, nasceu em Angleur a 26 de Abril de 1924 e faleceu a 8 de Janeiro de 1979. Chegou a usar os pseudónimos de Charvick e de Victor Hughes. 
Com uma vasta e bem esmerada obra, regista-se como um dos grandes e admiráveis desenhistas europeus.
Também óptimo pintor e colorista-BD, foi professor na Academia de Belas Artes em Liège. 
Colaborou com vários argumentistas (Jean-Michel Charlier, René Goscinny, etc) e colegas seus mais directos, como Eddy Paape e Albert Wenberg.
Raras vezes abordou o humor, como num álbum da série "Blondin et Cirage", com argumento de Jijé. Mas também executou as biografias de Jean Mermoz e de Stanley. Foi editado em diversos periódicos da 9.ª Arte, inclusivé, em Portugal.
Em 1951, com argumento de Charlier e apoios (na arte) de Paape e de Weinberg, marcou grande entusiasmo o seu álbum "Tarawa, Atoll Sanglante". As séries mais curtas, ambas com três tomos e argumentos de Charlier, "Tiger Joe" e "Surcouf", foram bem aplaudidas.
Mas as séries tipo "cereja no topo do bolo", marcam-se com "Barba Ruiva" e "Buck Danny", que têm prosseguido com alguns continuadores.
Abaixo se reproduzem algumas das suas capas, evocando assim a sua bela arte e o seu elegante e vigoroso estilo.
LB

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

​NOVIDADES EDITORIAIS (224)

CALAMITY JANE - ​Edição Ala dos Livros. Autores: argumento de Thierry Gloris e arte de Jacques Lamontagne. Série: "Wild West".
Calamity Jane (aliás, Martha Jane Canary-Burke), não é uma figura de lenda, muito embora tantas vezes tenha sido "explorada" com alta fantasia pelo Cinema, Banda Desenhada e Teatro. Ela existiu e foi terrivelmente actuante em inúmeras situações de perigo e/ou violência. Era então a tal época do "Far West", em que ela viveu. No seu registo pelo Cinema, salienta-se entre outros filmes, a opereta "Diabruras de Jane" (1953), onde ela foi interpretada por Doris Day. E, na Banda Desenhada, ela é figura-titulo de um álbum do popular "Lucky Luke"... Tudo fantasias convenientes e de ocasião para facilmente embevecerem o público fácil...
Agora, neste belo álbum em português, enfrenta-se e confronta-se com a possibilidade do que foi toda a vida aventurosa e temerária desta admirável mulher, demarcando-se das lendas e sacrifícios num certo e apenas imaginado ambiente do já tão distante Oeste Norte-Americano.
Toca a ler o álbum!...


NAB / 5 - ​Edição Bamboo. Autores: argumentos de Goulesque e Widenlocher, grafismo de Roger Widenlocher e cores de Anne Franjou-Gille.
É o quinto tomo da série "Les Nouvelles Aventures Apeupréhistoriques de Nabchodinosaure". E que tomo!... ​Só a capa, é uma paródia em desafio!
Como é que nenhuma editora-BD portuguesa ainda não agarrou esta tão delirante e impagável série? Será que as nossas editoras e o nosso leitor bedéfilo já não sabem rir?!... Ora essa!
Deixemo-nos de violências e de erotismos, e aprenda-se ou reaprenda-se a rir em pleno, de vez em quando , com os disparates propostos pelo sempre divertido Widenlocher.


SAPIENS IMPERIUM - ​Edição Les Humanoïdes Associés. Autores: argumento de Sam Timei e arte de Jorge Miguel.
Desde há largo tempo que acompanhamos com sincera admiração a arte do nosso compatriota Jorge Miguel... Um dia, ele fartou-se das editoras portuguesas e, embora continue a residir em Setúbal, é pelas francófonas editoras que vai
triunfando. Bravo!
Agora, neste primeiro tomo de "Sapiens Imperium", fica-se estarrecido pela qualidade gráfica e o devido tema. Que surpresa, grata e imensa, caro Jorge Miguel!
Se o argumentista Sam Timei se fez notar, a arte do português Jorge Miguel tudo ultrapassa admiravelmente.
Obrigado, Jorge Miguel, pela tua belíssima arte!
Esta obra é terrível! É imensa, bela e avassaladora !


BLACK PROGRAM / 2 - Edição Gradiva. Autores, com base na série "Bruno Brazil" criada por Greg e W. Vance: argumento de Laurent-Fréderic Bollée, traço de Philippe Aymond e cores de Didier Ray. Tradução de Jorge Lima.
Na casa do "Coronel L", o chefe de Forças Especiais, "Bruno Brazil", "Gaúcho Morales" "Whip Rafale" e "Tony Nomade" escutam, bem estupefactos, as revelações do "General Smith" de alto cargo na NASA: numa operação mais do que ultra secreta, a NASA enviou 
a Marte uma nave tripulada por dois astronautas!
Tudo terá corrido bem menos no regresso à Terra, onde tudo se complica de um modo terrível e de loucura sob a paranóia de um dos astronautas, o "Rutherford"... que esconde uma base perigosa em plena selva amazónica... Exige-se que todo este perigo seja devidamente "limpo"... dê por onde der.
Em paralelo, "Whip Rafale" descobre que o jovem 
"Adam", é filho e consequência de uma fogosa e impensável aventura sexual de "Bruno Brazil" e a sua pressuposta inimiga de sempre, a "Rebelle"...
LB

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

ILUSTRAÇÕES E HISTÓRIAS EM QUADRINHOS por José Ruy (3)

Normalmente Adolfo Simões Müller tinha Fernando Bento como o seu ilustrador de excelência, mas abria exceções e além de mim, também o Vítor Peon ilustrou algumas obras suas.
Entre este livro e o anterior, passaram 9 anos. Estávamos em 1966.
A capa, tal como a do livro sobre «Gutenberg», foi toda desenhada, só as letras no rodapé e as que se lêem de baixo para cima foram aproveitadas da fôrma da coleção.
As capitulares ilustradas eram uma característica desta coleção e embora sendo apenas uma alegoria, davam mais uma ajuda ao ambiente descrito.
Abriam cada capítulo, e vou mostrar apenas algumas.

Estas miniaturas foram desenhadas em formato maior para poder incluir bastantes pormenores. No fundo, eram ilustrações que iam decorando as páginas do livro, tornando-o mais apelativo.
Como no outro livro, as gravuras a partir dos desenhos foram feitas em zinco tipográfico e o livro impresso em tipografia.

Este tema de Marco Polo também me fascinou, pela aventura, como a «Peregrinação de Fernão Mendes Pinto» que publicara em Quadrinhos
n’O Cavaleiro Andante, a partir de 1957.

Também como no livro «Exército Imortal» havia um extratexto a cores. Neste caso não foi em página dupla, mas em duas páginas separadas.

A vida aventurosa desta personagem permitiu mostrar uma diversidade de elementos das regiões por onde os irmãos Polo passaram.
Os desenhos a preto e branco foram executados a tinta da china sobre papel «contínuo» (como expliquei nos artigos anteriores) com aparo de aço e pincel.


Eis a segunda ilustração em quadricromia, também impressa em tipografia.
A técnica usada foi com ligeiro traço a tinta da china e aguarela.


A contracapa também foi aproveitada para mais um desenho, neste caso a cores.

As ilustrações sempre funcionaram como meio aliciante para prender o leitor, não só pela imagem viva dos ambientes como, muitas vezes, para incentivar à leitura do texto despertando a curiosidade em saber mais para além do que era mostrado naquela imagem.





No próximo artigo:
O estratagema que arranjei para ilustrar um livro que não tinha verba para pagar os desenhos, pois as zincogravuras eram dispendiosas.