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domingo, 11 de fevereiro de 2024

BREVES (119)

100 ANOS DO ABC-ZINHO NA BIBLIOTECA NACIONAL
Continua patente a exposição que comemora o "Centenário da revista ABC-zinho" e, simultaneamente, os "100 anos de revistas de banda desenhada em Portugal".
Trata-se de uma das maiores exposições alguma vez realizadas sobre o tema e ocupa uma grande área expositiva no piso térreo da Biblioteca Nacional (ao Campo Grande) onde ficará até ao próximo mês de Março.
Esta exposição resulta de uma colaboração da Biblioteca Nacional de Portugal com o Clube Português de Banda Desenhada e foi pensada em 2019 para ser inaugurada em outubro de 2021, no centenário da publicação do nº 1 do ABC-zinho. O planeamento de eventos na Biblioteca Nacional teve de ser reformulado em consequência da pandemia de Covid 19 e a exposição acabou por ser adiada.
No enquadramento da banda desenhada, as revistas são periódicos que tipicamente oferecem como conteúdos, histórias em quadradinhos em continuação, contos, passatempos e uma secção de contacto com os leitores de quem, por vezes, também publicam colaborações. Este modelo foi estabelecido de uma assentada pela primeira revista deste tipo publicada em Portugal, o ABC-zinho dirigido por Cottinelli Telmo, cujo nº 1 foi posto à venda a 15 de outubro de 1921, e constituiu mais uma realização notável de um homem extraordinário.
A exposição percorre a história das principais revistas deste tipo publicadas em Portugal desde a década de 1920 até à de 1980. Inicia-se com uma parte introdutória focando Stuart Carvalhais e os seus Quim e Manecas, primeiros personagens perenes da BD portuguesa, depois Cottinelli Telmo e a sua colaboração de crescente importância no ABC e no ABC a Rir até ao lançamento do ABC-zinho cujo nome foi sugerido por Stuart que também colaborou largamente nos anos iniciais da revista.
A partir daí, é contada a história de mais de 30 títulos, representando um percurso até à década de 1980. A exposição compreende cerca de 500 revistas, originais de capas, páginas de histórias e ilustrações produzidas pelos desenhadores para as publicações; construções oferecidas em separata; livros e outros produtos comerciais associados a algumas revistas; cartazes; e muito mais, tudo relacionado com essas publicações.
A mostra tem organização do Clube Português de Banda Desenhada em parceria com a Câmara Municipal da Amadora / Biblioteca Nacional e merece, obviamente, uma visita atenta.
(adaptado a partir de um texto de João Manuel Mimoso)


ANIVERSÁRIOS EM FEVEREIRO

Dia 09 - José de Matos-Cruz e Zeu
Dia 11 - Pedro Morais
Dia 13 - Philippe Jarbinet (belga)
Dia 14 - Fernando Santos Costa
Dia 17 - Alejandro Jodorowsky (chileno)
Dia 20 - Sergei e Sanchez Abuli (espanhol)
Dia 21 - Luís Pinto-Coelho
Dia 24 - Yuval N. Harari (israelita)
Dia 28 - Benjamin Benéteau (francês)
CR

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

BREVES (52)

EXPOSIÇÃO E COLÓQUIO SOBRE REVISTAS BD PORTUGUESAS
"Um Panorama Das Principais Revistas Portuguesas de Banda Desenhada" é o título do colóquio que Carlos Gonçalves e Geraldes Lino, sócios do CPBD, apresentarão amanhã, dia 10 de Janeiro, às 18:30, no Palácio Beau Séjour, na Estrada de Benfica, n.º 368, em Lisboa.
Desde o primeiro número da revista ABC-zinho (15.10.1921) até ao último da revista Visão (Maio.1976), decorre um arco editorial de numerosos periódicos da banda desenhada publicados em Portugal. É sobre este período que incide o colóquio, cujos apresentadores se apoiarão em fichas técnicas elaboradas por Luís Filipe Veiga, também ele sócio do CPBD.
Uma exposição de reproduções de capas de muitas das revistas focadas no colóquio poderá ser visitada, simultâneamente, no local.
Mais informações no site do próprio Geraldes Lino: divulgandobd.blogspot.pt 


MOSTRA BIBLIOGRÁFICA SOBRE COMÈS EM LEIRIA 
A Biblioteca do Campus 1 (ESECS), em Leiria, exibe, até 27 de Janeiro, a mostra bibliográfica dedicada a Didier Comès (1942-2013).
Graficamente, Didier Comès tem um traço muito particular e é percursor de um estilo que já tem outros autores como adeptos.
Embora os seus primeiros trabalhos tenham sido feitos com recurso à cor (Ergun o Errante e A Sombra do Corvo), desde Silêncio a técnica do preto e branco passa a ser uma constante, durando até ao fim da sua vida. Essa técnica foi posteriormente adoptada com sucesso por outros autores como Jacques Tardi, Frank Miller e Eduardo Risso... 
Mais informação pode ser consultada aqui.


SPIROU E FANTÁSIO NO CINEMA

Tem estreia mundial prevista para 21 de Fevereiro do corrente, a longa metragem “Les Aventures de Spirou et Fantasio”, com realização de Alexandre Coffre. Os actores principais, são Thomas Solivérès (Spirou), Alex Lutz (Fantasio) e Christian Clavier (o conde de Champignac).
Recorda-se que estes populares heróis da Banda Desenhada, em Cinema de Animação, já tinham conhecido seriados para a Televisão: “Spirou”, 1993-1995 (pela orientação de três realizadores, Michel Gauthier, Pino Van Lamsweerde e Michel Lemire) e, de 2006 a 2008, “Les Nouvelles Aventures de Spirou et Fantasio” (com realização de Michel Duda).


GASTON LAGAFFE TAMBÉM NA 7.ª ARTE
Igualmente pela Animação, surgiu em 2009, o seriado “Gaston Lagaffe”, sob direcção de Alexis Lavillat.
Agora, com estreia mundial prevista para 4 de Abril de 2018, a longa metragem homónima, sob realização de Pierre-François Laval.
O jovem actor francês Théo Fernandez será Gaston Lagaffe e em outras interpretações contam-se: Jérôme Commandeur (o Sr. De Mesmaeker), Alison Wheeler (a Menina Jeanne), Maka Sidibe (Jeff), Pierre-François Martin-Laval (Prunelle) e Arnaud Ducret (o polícia Longtarin). Veremos como vão resultar as trapalhadas de Gaston, agora com actores de carne-e-osso...


ANIVERSÁRIOS EM FEVEREIRO
Dia 07 - Alejandro Jodorowsky (chileno)
Dia 09 - Eliseu Gouveia, José de Matos-Cruz
Dia 11 - Pedro Morais
Dia 15 - Matt Groening (estado-unidense)

Dia 20 - Sergei
Dia 21 - Luís Pinto-Coelho
Dia 25 - Eugénio Silva 
Dia 29 - Paolo Eleuteri Serpieri (italiano)

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

BREVES (34)

CPBD INAUGURA TRÊS EXPOSIÇÕES DE UMA ASSENTADA!
O Clube Português de Banda Desenhada inaugura, no próximo sábado, dia 15, a partir das 15:30, na sua sede, sita na Avenida do Brasil, n.º 52A - Amadora, três exposições de banda desenhada de uma só vez!
A primeira delas presta homenagem a Fernando Bento.

A segunda é dedicada a uma revista emblemática na BD portuguesa, o "ABC-zinho", e é composta por exemplares da revista (1.ª e 2.ª séries) e por construções de armar.

A terceira exposição é uma mostra de objectos (revistas, cromos, cards, etc) relacionados com a saga "Star Wars", cedidos pelas Bedetecas da Amadora e de Beja. 

E AINDA...
Como cereja no topo do bolo, o CPBD agendou também para esse mesmo dia, entre as 16:00 e as 17:30 horas, uma palestra (incluída no ciclo "Personalidades Ilustres da Vida Social, Política e Cultural Portuguesa Falam de Banda Desenhada") com a presença do Dr. Mega Ferreira.
Excelentes motivos, portanto, para passar pela Amadora, quando estamos a poucos dias da inauguração do festival daquela cidade.



PEDRO MASSANO EXPÕE EM VISEU
Ainda no próximo sábado, mas mais a Norte, na histórica cidade de Viseu, é inaugurada uma exposição dedicada ao último trabalho de Pedro Massano, sobre a Batalha de Aljubarrota.
A mostra decorre até 31 de Outubro, no Foyer da Aula Magna - Instituto Politécnico de Viseu (IPV) e é uma organização conjunta do IPV e do Gicav. 




POR FALAR EM AMADORA...
A poucos dias da abertura de portas (o que acontecerá já na próxima semana, a 21 de Outubro!), conseguimos apurar que as obras de Hergé, Hugo Pratt e Moebius ilustrarão o tema da 27.ª edição do Amadora BD: "O Tempo e o Espaço na banda desenhada".
A exposição central ocorrerá, como nos últimos anos, no Fórum Luís de Camões, na Brandoa, embora o festival se divida em múltiplos núcleos espalhados pela cidade, até dia 6 de Novembro.
Presenças de autores (já confirmadas pela organização): Marco Mendes, António Altarriba, Kim, Eloar Guazzelli Filho, Marcelo Quintanilha, Tony Sandoval, os irmãos Gary e Warren Pleece, Hunt Emerson e Savage Pencil. 
Escassa informação para um festival desta envergadura, onde estranhamente ainda não é conhecida a imagem gráfica da edição deste ano...
Pagina oficial do festival: https://amadorabd.com/





ANIVERSÁRIOS EM NOVEMBRO

Dia 04 – Pedro Brito
Dia 08 – Paulo Monteiro
Dia 14 – João Amaral
Dia 16 – Clarke (belga) e Maikel (espanhol)
Dia 18 – Rui Brito e Ricardo Neto
Dia 21 – Vassalo de Miranda
Dia 22 – Cyril Pedrosa (francês)
Dia 24 – Carlos Laranjeira e Horacio Altuna (argentino)
Dia 25 – Jorge Deodato e Luiz Beira
Dia 30 – Marcelo de Moraes






sábado, 5 de dezembro de 2015

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS na memória de José Ruy (14)


14) O REPÓRTER CLIQUE


Uma tarde recebemos na redação o dono da Agência 2000, um francês que estava a angariar anúncios para o Tintin, e que eu desenhava com o objetivo de integrar a publicidade no ambiente das histórias da revista.
Entretanto ia aparecendo esta publicidade, bem aceite pelos leitores pois continha também uma história,
embora ingénua e simples, dirigida a um escalão etário mais baixo.

A Agência 2000 tinha contactado algumas firmas importantes no mercado que se interessaram em anunciar no Tintin. O francês propunha que criássemos uma personagem que se tornasse conhecida e que funcionaria como elo de ligação na série que acreditava conseguir angariar. Por isso queria conversar connosco, principalmente comigo que fazia os desenhos.
O que me ocorreu de imediato foi criar um jornalista que fosse fazendo as reportagens. Um repórter. Precisava de ter um nome simples, sonante e de fácil memorização. Porque não o som da máquina fotográfica, «clic»? Gostaram e foi aceite, faltava dar forma à figura. E a primeira «grande reportagem» foi na Aliança, e como precisávamos de «ver» para «crer» fui com o Dinis Machado à fábrica receber informações e acompanhar o fabrico para poder explicar em Quadrinhos.
Esta reportagem foi descrita em seis números e fiz acompanhar o «Clique» de um rapazito, o «Tonecas»,
a quem o repórter ia explicando o fabrico durante a visita. Nesta última página, o Tonecas trouxe a «Mariazinha» quando o Clique ia explicar o fabrico das bolachas. Ela simbolizava a bolacha «Maria».

Este novo «herói» interno do Tintin chegou a figurar nas apresentações das histórias, como na de Lucky Luke em «Canyon Apache».

Como previra o francês da Agência 2000 outras empresas foram aderindo a este género de anúncios que tinham até algo de didático: um banco, uma fábrica de sumos, a própria Siderurgia Nacional. Mas a seguir à reportagem na Aliança o Dinis Machado achou que realmente fazia falta um acompanhante para o Clique, de modo a estabelecerem um diálogo enquanto ia «fotografando». Seria um rapazito, como o Tonecas e lembrou-se de lhe chamar «Flash». Clique e Flash. Era o disparo da máquina e da luz.

Estes anúncios ultrapassaram as páginas do Tintin e foram publicados em jornais e outras revistas. A Aliança quis até fazer um folheto para distribuição com o conjunto das páginas, que foi impresso nas oficinas da Bertrand, para o qual acrescentei uma capa. O mesmo aconteceu com a reportagem no Banco.
O suplemento passou a ter 12 páginas e o Fernando Relvas começou aí a publicar as suas primeiras Histórias em Quadrinhos.
O Relvas publicou no "Tintin" algumas das suas melhores histórias, com bom argumento, bem contadas e muito equilibradas na mancha do claro-escuro.

Quando o «Jornal do Cuto» dirigido pelo Roussado Pinto com quem todos nós havíamos já trabalhado fez um ano de publicação resolvemos fazer-lhe uma surpresa. E ele retribuiu publicando-a nas suas páginas.

Mas nos anos 80 do século XX criara-se uma certa instabilidade política em Portugal. A revista «Tintin» continuava com boa venda, mas os direitos precisavam de ser enviados para a Bélgica e para a França e as quantias atingiam um volume que ultrapassava o limite que o Banco de Portugal estabelecera para a saída de divisas. Assim a Bertrand pagava conforme lhe era permitido, mas acumulando sempre uma diferença para o total. Tinham até de pagar a utilização do título «Tintin». Em dada altura as agências franco belgas receando uma súbita alteração política que pudesse pôr em causa receberem o dinheiro em dívida, começaram a pressionar a Bertrand que não podia fazer nada, porque lei é lei.
O Dinis Machado ciente de que o desfecho da polémica poderia levar ao corte do contrato e obrigar á suspensão do Tintin, lembrou-se de criar as condições para que se isso acontecesse poder sair com outra revista à base de colaboração portuguesa e alguma estrangeira de outra origem, aproveitando os assinantes e compradores fieis ao Tintin.
Nessa altura eu estava a trabalhar nas «Edições Europa-América» e o Dinis contactou-me para fazer uma série de histórias com o Clique e Flash sem ligação à publicidade para que os leitores o deixassem de ver comutado com os anúncios.
Saiam em dupla página, todas as semanas, e foram muitas as histórias publicadas.

E assim o Clique e o Flash entraram na pura aventura, com peripécias sempre ligadas à redação. Para que o protagonismo da personagem fosse mais forte, começou a entrar nas capas do Tintin intrometendo-se na divulgação das outras histórias. Mas mais ainda, aproximando-se do próprio título, indiciando um contra ponto à vinheta do Tintin e Milou.

Mas esta estratégica não foi compreendida pela administração, que achou que estávamos (as pessoas da redação) a procurar protagonismo aparecendo constantemente na revista. Porquê eles e não nós? Isto chegou a ser alvitrado. Além disso recearam que os franco-belgas se ofendessem em ver aquele «Clique» em lugar de tanto destaque, junto ao título.
Nessa altura o Henrique Trigueiros continuava como diretor, mas o chefe de redação deixou de aparecer na ficha técnica.
Sob pressões, o Dinis Machado saiu.
Em 1981 o Vasco Granja passou a diretor acumulando a chefia da redação. Mas a condenação estava iminente e o que o Dinis Machado previra aconteceu mesmo. Os belgas decidiram que se não recebessem todo o dinheiro cortavam com o envio dos fotólitos.
E a revista «Tintin» portuguesa acabou deixando os seus fiéis leitores à deriva, procurando outras publicações que entretanto foram surgindo.
(Continua)

No próximo artigo: AS SELEÇÕES BD

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS na memória de José Ruy (13)


13) REDAÇÃO DO TINTIN, REALIDADE OU FICÇÃO


Já com 4 páginas a mais na revista, embora com impressão só a preto e branco, o Dinis Machado ficou com mais espaço para poder anunciar as histórias que iam substituindo as que acabavam entretanto. Deu-me carta-branca para essas apresentações.
Acontece que nas variadas peripécias que aconteciam na redação, por vezes (muitas vezes) caricatas e de grande comicidade, em dez segundos eu riscava num papel a situação, caricaturando a cena, sempre com uma legenda adequada. O Dinis Machado achou que seria interessante passarmos a fazer o mesmo nessas apresentações das histórias.
E neste desenho aparecemos todos, como passou a ser hábito, inseridos no ambiente da aventura que estávamos a anunciar.
Em primeiro plano o Vasco Granja, muito alto e magro seguido do Mário Correia, mestre nas legendas, que trazia sempre uma pasta plena de tralha, desde escova para o cabelo, tubo de cola, ampolas de vidro, papelada, pinceis e canetas, muitas, tesoura e chapéu-de-chuva de encolher, enfim, um nunca acabar de surpresas. Eu exagerava e fazia toda a aquela «babilónia» a saltar da pasta. Na corrida, o Dinis Machado e eu numa trotinete com faróis de nevoeiro; isto porque havia comprado um par destes fura-neblina para um carrito que tinha e parecia mais uns faróis com rodas, acompanhado por um cãozinho Coquer Espaniel da minha filha.
No segundo plano o rapaz com a bandeirinha ajudava em pequenos trabalhos na redação, seguido da Maria Quirino, secretária do diretor da editora, e na mesma bicicleta dupla a «Milocas», uma jovem ajudante da Lurdes a secretária da redação, que vai atrás com os seus longos cabelos. Por último o Luís Nazaré, autor dos passa-tempos e de uma parte das legendas desenhadas.
Na torre de controlo O António Ramos, o diretor editorial, a falar para a Lombard, o que fazia constantemente.
Esta rubrica não era semanal, saía só quando se iniciava uma nova história. Ao idealizar a forma da apresentação, tinha a colaboração aprazível do Dinis Machado e do Márinho, como chamávamos carinhosamente ao Mário Correia, até hoje. Um dizia uma coisa, o outro acrescentava e assim se construía a página.
Nesta história dos «Charutos do Faraó», substituímos os balões com a frase atribuída a cada um, por hieróglifos. O Henrique Trigueiros tinha uma espiga, o Dinis Machado tinha o machadinho, eu tinha o Coquer, o Vasco Granja que exibia diariamente uma nova gravata ultrapassando-se nos mais inimagináveis padrões, deixava-a pender das ligaduras de múmia e o Mário Correia espalhava todo o conteúdo da sua pasta de couro, concorrente à «Caixa de Pandora».
Gostava de tirar partido dos contrastes existentes entre nós, principalmente entre a diminuta altura do Mário Correia e do «pé direito» do Vasco Granja. O António Ramos sempre a ligar, ou a tentar fazê-lo, para a Lombard, a Maria Quirino preocupada com os contratos e à procura do sítio em que os tinha guardado da última vez, o Luís Nazaré a saborear o seu cafezinho, o que ia repetindo ao longo do dia, e o Mário Correia com a sua pasta a despejar mais coisas do que a sua capacidade estimada.
Os leitores iam-se apercebendo de que aquelas personagens faziam parte da redação e alguns interpelavam-nos nesse sentido, procurando saber se seria verdade ou ficção. No fundo era uma verdade que ultrapassava a imaginação.
Estavam sempre a acontecer coisas, alguém que tropeçava num fio e espalhava as pastas que levava, um telefonema da Venezuela que por acidente veio parar ao telefone do Dinis Machado, de um Morales que queria à força saber qualquer coisa relativa à administração, e por mais que o Dinis tentasse fazer-se entender a explicar que não era dali, o tal Morales insistia e voltava a repetir a lenga-lenga. Por muito tempo gozávamos com o Dinis Machado, quando ele estava um pouco distraído, a pensar por certo nas histórias, dizíamos: Está lá, Morales!!!
Ele fingia que se irritava, mas não conseguia.

Costumávamos ir almoçar a uma tasquinha na Venda Nova, na Amadora, perto da redação, o Dinis, o Mário Correia, o Teixeira Abreu da Ibis e eu. Um dia, estávamos à espera do prato-do-dia, um guisado de carne, com os pratos voltados ao contrário sobre a mesa para proteção do pó, e distraidamente olhávamos um outro cliente na mesa ao lado, embebido profundamente na leitura de um jornal desportivo. O criado trouxe-lhe a travessa com o «ragu» e ele acto contínuo, sem desviar os olhos do jornal, despejou todo o conteúdo no prato, sem se aperceber de que este estava ao contrário. Na fração de segundo em que isto se passou, esboçámos ainda a tentativa de o avisar, mas o guisado resvalava já pelo fundo convexo do prato, depositava-se em parte na toalha continuando para as calças e sapatos do cliente.
Após a primeira reação de surpresa, fomos atacados pela inevitável vontade de rir, pois o senhor como se tratasse da coisa mais natural do mundo, voltou o prato e com a mão foi encaminhando o derrame para o seu interior, mesmo o que se havia depositado nas calças, deixando só como desperdício o que caíra no chão. E começou a comer continuando a ler o desportivo.
Pode imaginar-se o esforço que tivemos de fazer para não começarmos à gargalhada, incapazes de olharmos uns para os outros, pois só de vermos a expressão de cada um nos fazia mais vontade de rir. Levámos o almoço a engolir mais o riso do que propriamente a carne com as batatas, nem comemos sobremesa e saltámos para a rua onde, aí sim, demos largas às gargalhadas contidas até então. Foi neste propósito que chegámos à redação, lágrimas a correr, para espanto de todos, e sem fôlego para contar o sucedido, pois quando um de nós começava a descrever a cena, desmanchávamo-nos e não conseguíamos dar seguimento nem coerência ao acontecimento. Claro que isto foi motivo para boneco, não para publicar.
Até que o Dinis Machado resolveu que devíamos assumir mostrar como era na realidade a redação aproveitando um concurso promovido pela casa-mãe de Bruxelas. A disposição das secretárias e estiradores, armários e ficheiros está correta neste desenho. Atrás de mim e do Mário Correia havia grandes janelas que davam para a Rua e ao fundo, o gabinete do António Ramos… a ligar para a Lombard. No meu lado direito havia uma porta (que não se vê) que dava para a secção de promoção e publicidade, de onde saía várias vezes ao dia o Vasco Granja sobraçando pastas com desenhos dos franco belgas.
E um dia tivemos a visita do francês dono da Agência 2000 com uma questão.
(Continua)

No próximo artigo: O REPORTER CLIQUE

domingo, 11 de outubro de 2015

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS na memória de José Ruy (12)


12) O «TINTIN» PORTUGUÊS

Em 1968 por iniciativa de Jaime Mas, o catalão filho de Francisco Mas da Editorial Íbis, iniciou-se a publicação em Portugal de uma revista congénere da «Tintin» belga. A editorial Íbis e a editora Livraria Bertrand eram sócias e nessa altura eu trabalhava nesta última fazendo capas de livros e publicidade às edições, incluindo cartazes para decorar as montras das várias lojas que possuíam, espalhadas pelo país.
Capa do primeiro número da revista "Tintin"
O material incluído na revista era de origem belga e francesa, reunindo o melhor que então se fazia de Histórias em Quadrinhos nesses países. Tinha como diretor o Jaime Mas e como chefe de redação o Dinis Machado, que foi ocupar na Íbis o lugar do Roussado Pinto que fora abrir uma editora própria.
Esta revista impôs-se pela qualidade gráfica e pela criteriosa escolha das histórias, num cuidadoso equilíbrio dos temas, o que levou a ser considerada pelos editores belgas a melhor de entre as muitas com o nome «Tintin» editadas na Europa e mesmo em outros continentes.
Na distribuição da colaboração, deixaram 20% do espaço nas páginas da revista para ser preenchido com histórias feitas em Portugal, e foi convidado o Vítor Péon para preencher esse espaço, que logo no número 1 e em página dupla publicou «A 1.ª Travessia Aérea do Atlântico Sul». Estamos a falar, claro, da proeza de Sacadura Cabral e Gago Coutinho num voo sobre o Oceano até ao Brasil.
O Dinis Machado na nota de apresentação disse mesmo que a revista teria também «acontecimentos e figuras da História de Portugal».
Página dupla de Péon na sua melhor fase. Como foi scanerizado de um volume encadernado, nota-se o
ressalto do medianiz devido à dobra, "comendo" um pouco de desenho e letras.
Uma página e parte de outra onde Péon começou a preencher a rubrica com a nossa ligação
com África, primeiro no tempo dos Descobrimentos e depois nas campanhas militares do Séc. XIX 
Essa rubrica foi sendo preenchida com episódios dos lusitanos, Cristóvão Colombo, Pedro Álvares Cabral, até que, no n.º 19, O Péon destacou o Infante Don Henrique. E depois as campanhas em África no século XIX. Aí os belgas não gostaram pois estavam a acontecer grandes alterações nesse continente relativamente a independências e lutas contra o colonialismo. A Bélgica perdera o seu chamado «Congo Belga» e Portugal encontrava-se em plena guerra em África. Alarmados com a reclamação vinda da Bélgica os administrativos do jornal em Portugal entraram em pânico e para apaziguar os seus «maiores» resolveram o problema desta maneira: «Matando o bicho morre a peçonha». Acabaram com o espaço destinado à presença portuguesa preenchendo-o com mais material estrangeiro.
Assim o Tintin transformou-se numa revista totalmente franco-belga traduzida para a nossa língua.
As legendas eram todas desenhadas, como se havia convencionado internacionalmente (mas nem sempre cumprido) que os textos da banda desenhada precisavam de ser igualmente desenhados. Como eram muitas páginas a publicar semanalmente e o Mário Correia, nessa altura já grande profissional de «rotulação» e funcionário da casa, não podia sozinho dar vasão, foi necessário criar uma equipa.
Compunha-a o Mário Correia, o Teixeira Abreu orientador gráfico da Íbis, o Luís Nazaré funcionário da Bertrand e sobrinho do Aníbal Nazaré, que era autor de textos para revistas teatrais, o Strompa, nessa altura montador de Offset nas oficinas da Editora Bertrand e eu. Eu era dos mais fracos a legendar.
Foi necessário que acertássemos o desenho da letra de modo a que não se notasse diferença de umas páginas para outras. Todos tínhamos de trabalhar na mesma dimensão, o mesmo recorte e a mesma espessura da letra.
Fomos obrigados a um treino intenso e tomando por padrão o tipo de letra usado pelos franco-belgas.
Entretanto a editora decidiu também publicar álbuns com as histórias completas em paralelo com a revista, e as respetivas rotulações tinham de ser executadas num curto espaço de tempo. Levávamos para casa um desses álbuns com 44 páginas à sexta-feira para entregarmos tudo pronto após o fim-de-semana. Dividíamos então as páginas pelos cinco e não poderia haver diferença significativa na escrita.
Caneta Rotring que funcionava com uma tinta própria, mais diluída para poder escoar-se nos seus tubos finíssimos que funcionavam como aparos. Porém, para conseguirmos uma maior opacidade no traço,
carregáva-mo-las com tinta-da-china, o que entupia os tubos, obrigando a frequentes
lavagens e perda de tempo. Mas tinha de ser assim... 
As legendas eram executadas sobre papel vegetal, com canetas «Rotring» carregadas a tinta-da-china para ficar mais preta, sobre as páginas originais francesas ou belgas e tinham de caber nos espaços de origem, pois não havia hipótese de se mexer nos balões ou nos desenhos.
Esses vegetais eram montados sobre os fotólitos do desenho a preto cedidos pelas editoras estrangeiras e gravados nas chapas Offset, para a edição em português.
Se a tinta não ficasse bem negra, falhava na passagem à chapa. Também não se admitiam rasuras, e se nos enganávamos tínhamos de reiniciar tudo nessa página, pois qualquer raspagem, corte e colagem ficaria marcado sobre o desenho original. Era verdadeiramente um trabalho sem rede que exigia ficar pronto à primeira.
O facto é que criámos uma homogeneidade tal, que por vezes não sabíamos definir quais as páginas que tinham sido legendadas por nós próprios.
A revista tinha publicidade, alguma de página inteira, para desespero do Dinis Machado que achava estar a retirar ao leitor a possibilidade de ler mais uma aventura. Foi quando entrou em cena a «Agência 2000», de um francês radicado em Portugal.
Começou a mentalizar a administração e principalmente a redação em criar uma publicidade em forma de Quadrinhos, contando uma história. Para ser a agência a encarregar-se desse trabalho, ficaria mais caro do que recebiam do anúncio, por isso lembraram-se de mim, pois fazia parte dos quadros da editora com um ordenado fixo. Até me dava prazer e assim criei e desenhei uma série de pequenas historiazinhas, algumas para produtos da Thibaud, agência publicitária da «Fima Lever» dirigida pelo Telmo Protásio. Foi o primeiro contacto que tive com o que viria a ser, 6 anos mais tarde, o criador e proprietário da Meribérica/Liber.
Saíram várias historiazinhas destas onde a publicidade era bem aceite
pois continha ela própria uma aventura. 
Mas o Dinis Machado lutava para conseguir na revista umas páginas extra onde pudesse anunciar aos leitores as histórias seguintes.
Tanto insistiu com a administração que acordaram incluir 4 páginas, como se fosse um suplemento, em papel inferior ao do resto da revista e impressas só a preto. Chamou-lhe «Tintin por Tintin» e reuniu aí a secção de respostas às cartas dos leitores «Tu Escreves Tintin Responde», artigos sobre os autores franco belgas que o Vasco Granja traduzia do francês. Deu-me carta-branca para elaborar composições a anunciar as novas aventuras a publicar quando as anteriores iam terminando.
 (Continua)

No próximo artigo: A REDAÇÃO DO TINTIN, REALIDADE OU FICÇÃO?

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS, na memória de José Ruy (11)


11) O PORQUÊ E COMO FOI CRIADO O "CAVALEIRO ANDANTE"

Pois o «Cavaleiro Andante» foi realmente criado para escoar uma quantidade enorme de papel que se acumulava nos armazéns da «Empresa Nacional de Publicidade» a que o Diário de Notícias pertencia. Este importava da Finlândia o papel em bobinas mas o seu tamanho na largura excedia a medida da rotativa e o formato do jornal. As bobinas eram serradas no excedente produzindo pequenas frações que se iam acumulando. Numa tiragem diária de 100 mil exemplares pode-se calcular a velocidade a que os armazéns ficavam lotados.
Que fazer a tanto papel? Era um desperdício mandá-lo para a reciclagem. Foi aí que o inventivo José Gonçalves pensou num pequeno jornal infanto-juvenil onde aplicasse esse papel dando assim vasão às bobinas. Encomendou uma rotativa Offset com esse formato e foi assim que o «Cavaleiro Andante» surgiu sujeito àquela medida, e substituindo o «Diabrete».

Era uma rotativa deste género que
imprimia o "Cavaleiro Andante"
Capas do "Diabrete"

Esta rotativa tinha 60 centímetros de largura e utilizava as tais bobinas excedentes. Portanto este jornal nasceu com papel já pago e reunia todas as condições para dar certo.
Nada se desperdiçava naquela empresa. Tudo se transformava num ciclo de reaproveitamento. Um dia poderei contar pormenores de recuperações inimagináveis, de produtos que hoje vejo deitar para o lixo sem a preocupação de os reutilizar.
Durante o período da colaboração que mantive durante alguns anos n’O Cavaleiro Andante, criei várias histórias.
"A Mensagem", "Ubirajara" do escritor brasileiro José de Alencar, e "O Bobo", de Alexandre Herculano
Quando estava a terminar a publicação de «O Bobo», o Simões Müller perguntou-me o que pensava fazer a seguir. Tinha entretanto descoberto a «Peregrinação» através do Teixeira Coelho, que até já a havia iniciado em HQ com apenas três tiras de propósito para a primeira exposição de Histórias em Quadrinhos, no Palácio da Independência em Lisboa, em 1952.
A "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto
O Coelho antes de partir para França sugeriu-me que fizesse essa história, pois ele não a ia continuar nem planeava fazê-lo mais tarde. Em França dedicar-se-ia a outro tipo de temas, como aconteceu. Depois de ler esse original fiquei apaixonado, por isso disse ao Müller que era essa a história seguinte.
Ele torceu o nariz, Fernão Mendes Pinto confessava nos seus escritos ter sido pirata… porque não fazia eu antes os «Fumos da Índia»? Mas encontrava-me bastante determinado, e durante umas semanas fui argumentando com o Müller, que se tratava de uma história com empolgantes aventuras, que tinha episódios históricos e até de heroísmo em locais exóticos. Anuiu por fim, depois de lhe mostrar algumas pranchas que havia já adiantado.
Essa adaptação estendeu-se por 75 semanas, e as reações que chegaram à redação foram todas positivas.
Claro que tive o cuidado de construir a personagem sem barba, para se afastar o mais possível do aspeto do «pirata padrão, barbudo e com pala no olho», que o cinema da altura nos mostrava e através das séries inglesas em quadrinhos.
Talvez por isso a censura não me tenha incomodado, embora o Fernão Mendes Pinto fosse considerado pelos mentores dos bons costumes na época, um escritor maldito.
Vinte e dois anos depois viria a reformular essas pranchas para publicação em livro, inserindo balões nas vinhetas, conseguindo assim um maior dinamismo na narrativa.
Uma prancha original, acervo do CNBDI, e uma página impressa da versão em livro. 
O José Gonçalves era um grande admirador do Teixeira Coelho e por várias vezes me deu a conhecer. Um dia, sabendo da minha ligação de amizade com o Coelho, perguntou-me se ele aceitaria trabalhar para o «Cavaleiro Andante». Disponibilizei-me para o contacto pois nessa altura encontrava-se já em França. Começou por fazer capas para os números especiais e a sua história «Harpa de Ouro» foi mesmo publicada no «Cavaleiro Andante». Mas por vontade do José Gonçalves.
Duas das várias capas que Teixeira Coelho desenhou
para números especiais de "O Cavaleiro Andante"
Também a série "Falcão Negro", novela criada por Raúl Correia n' "O Mosquito" e depois passada a banda desenhada com argumentos de Eduardo Teixeira Coelho foi publicada neste jornal. Esta capa foi feita de propósito para o "Cavaleiro Andante"
Conto um episódio inusitado acontecido ainda em tempo do «Diabrete», que mostra como funcionava a redação deste jornal.
«O Mosquito» fazia permuta dos desenhos do Teixeira Coelho com o jornal «Chicos» de Espanha, recebendo os de Jesus Blasco, Emílio Freixas e outros autores. O Tiotónio tirava provas de prelo em papel cristal das ilustrações do Coelho, que serviam de fotólitos para a impressão no jornal «Chicos», e enviava-as pelo correio. A Consuelo Gil, diretora desse jornal, utilizava esses desenhos soltos para ilustrar novelas escritas de propósito pelos seus colaboradores, inspiradas nas cenas explícitas nessas ilustrações.
Do jornal "Chicos"
Exemplo de como em Espanha aproveitavam os desenhos do Teixeira Coelho publicados n'O Mosquito para ilustrar contos e novelas, muitas feitas a partir das imagens, inventando argumentos a condizer com as cenas criadas, nada tendo a ver com as histórias portuguesas originais.
Por sua vez o jornal «Chicos» vendia para Portugal, para o Simões Müller, desenhos da Pili Blasco, irmã do Jesus Blasco e de outros autores espanhóis que eram publicados no «Diabrete».
Certa vez num desses lotes, por distração, vieram juntos desenhos do Teixeira Coelho, já publicados n’«O Mosquito» e no «Chicos». Na redação do «Diabrete» não se aperceberam que esses desenhos não eram espanhóis, e publicaram-nos. Claro que o Raul Correia e o Tiotónio reclamaram de imediato. Espantado, o Müller pediu imensa desculpa, pois não tinha reparado que eram desenhos do Teixeira Coelho.
Era evidente que não lia «O Mosquito» e não o observava, como os diretores deste jornal faziam com todas as publicações concorrentes existentes na altura. Era preciso estar atento ao que se publicava à volta. Fazia parte da ética.

Mas tudo tem os dias contados e o «Cavaleiro Andante» terminou a sua «cavalgada». No entanto para escoar o muito material que o Simões Müller havia adquirido aos franco-belgas, criaram a «Nau Catrineta» como suplemento integrado no «Diário de Notícias».
Embora já a trabalhar em outra empresa, continuei a colaborar com desenhos para essa publicação.

(continua)



No próximo artigo: O "TINTIN" PORTUGUÊS

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS, na memória de José Ruy (10)

No artigo anterior contei dos recursos às técnicas dos processos gráficos para resolver problemas surgidos na alteração do sistema de impressão do jornal, agora suplemento de revista.

10) A REDAÇÃO DE O "CAVALEIRO ANDANTE"

O meu primeiro contacto com esta redação foi um pouco estranha. Estava a elaborar uma história que destinava para "O Mosquito", uma aventura passada em África, sobre um caçador em situações de perigo com tribos aguerridas, quando o Diário de Notícias lançou o "Cavaleiro Andante". 
Adolfo Simões Muller
Após alguns números publicados, o seu diretor, Adolfo Simões Müller, dirigiu no jornal um apelo aos jovens que tivessem alguma habilidade para o desenho que enviassem as suas histórias pois teriam a possibilidade de serem aceites como colaboradores.
O Teixeira Coelho com quem nessa altura partilhava um dos vários ateliês que tivemos em conjunto, alvitrou-me que fosse ao novo jornal mostrar o trabalho, que ele achava já com nível. Além disso ali poderiam pagar melhor a colaboração do que n’O Mosquito, e teria mais projeção. Como tinha meia dúzia de pranchas prontas, fiz um rolo e fui ao Diário de Notícias procurar a redação do "Cavaleiro Andante". Subi ao segundo andar conforme me indicaram e deparei com uma pequena sala onde uma senhora se encontrava a uma secretária. Soube depois que era a Dr.ª Maria Amélia Bárcia, secretária do Dr. Simões Müller.
A capa de Fernando Bento
no primeiro número do jornal
Disse ao que ia, esbocei desenrolar os originais, mas ela, sem se levantar disse para os deixar assim mesmo acondicionados sobre um maple, o segundo móvel existente no gabinete, pois o Dr. Müller quando chegasse mais tarde, logo os veria e me contactava.
Despedi-me e aguardei uma resposta. Passou uma semana sem qualquer sinal, se sim se não. Deixei passar mais outra semana e comentei com o Teixeira Coelho o estranho da situação. Pensei que tinham perdido o meu contacto e resolvi ir até lá.
Quando entrei no gabinete onde se encontrava à secretária a secretária do diretor, vi o rolo dos originais, no mesmo sítio, repousando no maple conforme o havia deixado.
Apercebi-me de que o apelo feito para angariar colaboração era uma coisa muito vaga, e passadas duas semanas nem sequer haviam desembrulhado o meu material para terem uma opinião. No contacto que deixara figurava o meu nome, que por certo conheceriam como colaborador d’O Papagaio e da "Flama" durante alguns anos. Um jornal precisa estar atento ao que se faz na concorrência, e antes de o "Cavaleiro Andante" já tinham editado o "Diabrete" e durante muito tempo. Não eram novos no ofício.
A Dr.ª Maria Amélia Bárcia disse então que o Dr. Müller ainda não tinha tido vagar…
Achei o facto inusitado, pelo menos deviam ter guardado os originais e espreitar o pacote para ver se valia a pena. Delicadamente, disse que precisava de fazer umas alterações, se podia levá-los de volta. Ela disse logo que sim, parecendo-me até aliviada. Seria menos uma tarefa que tinha para resolver.
O Coelho também achou o procedimento muito estranho e ficou resolvido publicar a história n’O Mosquito: chamei-lhe «O Reino Proibido».
Prancha de "O Reino Proibido"
Cerca de um ano volvido fui convidado a fazer parte da equipa de uma revista semanal de atualidades e notícias, ainda em preparação, «A Esfera» edição do Diário de Notícias. Pretendia ser um contraponto ao «Século Ilustrado». A minha função seria desenhar cabeçalhos, ilustrações e arranjos gráficos. O Teixeira Coelho foi convidado como grande desenhador de fundo. O seu diretor era o Dr. Leitão de Barros. Foi assim que ingressei na empresa e entretanto me especializei em Rotogravura.
Exercia já funções nesse departamento gráfico enquanto a revista não saía, quando numa manhã entrou na secção o Dr. José Gonçalves, dono principal do jornal e grande entusiasta das Histórias em Quadrinhos, impulsionador das publicações infanto-juvenis da empresa, principalmente de o "Cavaleiro Andante". Nessa altura encontrava-me a fazer histórias ilustradas nas edições «Fomento de Publicações L.da» e o José Gonçalves quando me viu perguntou-me à queima-roupa por que razão estava a fazer desenhos para a concorrência e não para o "Cavaleiro Andante", sendo funcionário da casa.
Numa fração de segundo raciocinei que não podia dizer que a minha colaboração não tinha tido interesse da parte da direção do jornal, e ocorreu-me uma maneira airosa de sair da situação: o "Fomento de Publicações" pagava por prancha 250 Escudos enquanto o "Cavaleiro Andante" pagava 200 Escudos. Apresentei essa questão como motivo. O José Gonçalves retorquiu se era só por isso e me pagassem o mesmo, estaria disponível para colaborar no jornal. Retorqui que sim, e então respondeu-me que mais tarde passasse pela redação d’O Cavaleiro Andante.
Esperei a minha saída do serviço para então me dirigir à redação que era no mesmo edifício, na Avenida da Liberdade em Lisboa, quando pouco depois recebi uma chamada do Müller, se podia ir ao seu gabinete. Lá fui, com a bata branca que todos usávamos no departamento gráfico e recebeu-me com sorriso rasgado e mão estendida. O José Gonçalves havia-lhe falado de mim por isso queria convidar-me a fazer uma história para um número especial do "Cavaleiro Andante" a sair em breve.
A redação tinha mudado de gabinete para uma sala maior, onde além da Maria Amélia Bárcia trabalhavam o Fernando Passos que escrevia contos e fazia traduções, e o Artur Correia que desenhava para o suplemento «Pajem». Era primo do chefe da sala de desenho do Diário de Notícias e fora este que o colocara na empresa. Em boa altura.
Logo nessa noite comecei a pensar num argumento e resolvi fazer a história de «Gutenberg» que foi aceite com agrado. Mas à cautela não entreguei os originais enrolados…
A história foi impressa alternando as páginas com duas cores e só uma. Ao lado, esse número especial com a capa desenhada por Fernando Bento.
Já agora explicarei como a história foi reproduzida. Este número especial de outono d’O Cavaleiro Andante tinha uma parte impressa em Rotogravura e outra em Offset. A minha história «Gutenberg» calhou ser destinada ao caderno impresso em Rotogravura, secção onde eu trabalhava e fazia já algumas experiências nessa técnica. Este processo consegue a singularidade de com uma única impressão produzir o efeito de duas cores. E com duas cores, o resultado de três.
O verde na sua máxima intensidade (o desenho a traço) funciona como um preto, mas nas meias-tintas que lhe sobrepusermos abre a cor, como se pode ver na imagem do meio.
Na da esquerda, o verde/preto junto com o vermelho e quando as duas meias-tintas se sobrepõem consegue-se um acastanhado; assim com duas cores temos um resultado igual ao do Offset com três cores, o «preto», o vermelho e o verde com castanho obtido pelas sobreposições.
Como consegui esses meios-tons? «Aguarelando» com uma tinta especial, «Neococcina» sobre a película do fotólito onde estava reproduzido o desenho só a traço. Noutra película branca fiz os meios-tons equivalentes ao vermelho, manualmente sem intervenção fotográfica, e a cor forte, com «fotopak», um produto muito opaco próprio para pintar sobre a película. Depois foi tudo gravado no cilindro de cobre.

A partir desta história fiquei também colaborador residente do próprio jornal semanário.
A base da colaboração era de origem franco belga e da parte portuguesa havia o Fernando Bento, o José Garcês, o José Manuel Soares, o Artur Correia e eu. Mas foram aparecendo outros desenhadores. Esta redação afigurava-se-me fria, tudo era tratado à distância, não havia reunião com os autores para debate dos temas a fazer nem uma estratégia de planificação, no entanto a força do material importado mantinha o jornal em equilíbrio estável. A alma daquilo tudo era o José Gonçalves, dele vinham as ideias que o Simões Müller punha em prática. Este era um poeta, sonhador, delicado mas frio no sentido do entusiasmo e entrega ao jornal, se compararmos com a redação de "O Mosquito".
A ideia de criar aquele jornal foi do José Gonçalves, para escoar excedente de papel…
(Continua)

No próximo artigo: PORQUÊ E COMO FOI CRIADO O "CAVALEIRO ANDANTE"