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quarta-feira, 1 de setembro de 2021

ENTREVISTAS (34) - JOSÉ PROJECTO (2.ª parte)

Publicamos hoje a segunda parte da entrevista que fizemos recentemente a José Projecto. Pode ler a primeira parte aqui.

BDBD - Como surge a ideia de primeiro fazer e depois publicar o "Giraldo"?
JP - O Giraldo (ou Geraldo), posso dizer que é a BD da minha vida, não pelo tema em si, mas pelo percurso enorme que ainda me acompanha. Fascinado pelo lirismo e romantismo medieval de Évora, decidi um dia dedicar-lhe uma banda desenhada e a lenda do Giraldo pareceu-me um bom ponto de partida. Teve várias versões até chegar à que se publicou, já com uma história melhor construída, baseada na lenda mas também numa eventual realidade histórica. Quando o Jorge Magalhães viu os originais gostou bastante e propôs a história à direcção da Editorial Futura.

BDBD - Conte-nos um pouco acerca do processo de realização deste álbum: quanto tempo demorou com ele, que dificuldades encontrou, que apoios teve, como escreveu o argumento, como se documentou...
JP - Nunca ilustrei ou pintei com rapidez. Gosto de levar o tempo que é necessário, sem stress. Se reparar no ano da minha assinatura nas vinhetas compreende que não criava muitas pranchas por ano. Em paralelo, pintava, estudava, namorava, trabalhava... O Geraldo muitas vezes tinha de esperar. Para me documentar, passei muitas horas na Biblioteca Pública de Évora e falei com alguns historiadores. 
Reuni-me com alguns amigos que me ajudaram a iniciar o argumento. No final do álbum é publicado um apontamento histórico que reflete parte desse auxílio. A história de “Ramiro” por William Vance é talvez a que mais me influenciou na criação do Geraldo. Para além dos amigos que já referi, tive o apoio do Jorge Magalhães que aceitou dar um aspeto final ao meu guião criando o argumento final.

BDBD - Porque é que, após a publicação desse álbum, em 1985 ou 1986, nunca mais ouvimos falar de si (pelo menos no que toca à banda desenhada)? Afastou-se voluntariamente ou foi obrigado a isso?
JP - Com vinte e três anos, muito desmotivado pela Escola Superior de Belas Artes e desejando criar planos para uma vida minimamente estável, receber 25 escudos por exemplar de álbum-BD não era nada promissor. Em paralelo à BD, a ilustração e pintura da vida selvagem começaram a dar fruto. Por sugestão de um amigo filatelista que gosta muito do meu trabalho, e que tinha feito parte da criação do Clube Eborense de Banda Desenhada, procurei a Direcção de Serviços de Filatelia dos CTT. Propuseram-me a primeira emissão filatélica, em 1986, sobre Aves da Madeira. Foi o início da minha carreira como ilustrador filatélico, um percurso mais seguro e independente, que ajudou a organizar a minha vida como ilustrador e pintor de natureza.




BDBD - A ilustração de natureza, com pinturas para livros, selos, quadros... é uma área que lhe dá tanto prazer quanto a BD ou, se pudesse escolher, optaria pela banda desenhada?
JP - A paixão pela BD persiste, mas a motivação pela conservação da natureza foi mais forte. De 1980 a 1990, foi uma década determinante para o meu trabalho como ilustrador de natureza. Em 1986 integrei o Serviço Nacional de Parques e publiquei a minha primeira emissão filatélica. Estes dois acontecimentos proporcionaram-me contactos, viagens, amigos e conhecimentos, que contribuíram muito para aquilo que me tornou conhecido como ilustrador e pintor de natureza. Em Lisboa faltava-me o espaço e a natureza, já não aguentava mais. Conseguir manter o emprego, a atividade como artista plástico e voltar para a província foi muito stressante. Sou uma pessoa muito emocional. Necessito de sossego. Não gosto de solidão, mas gosto de estar e trabalhar sozinho. Em 1990, fiquei doente e solicitei uma licença sem vencimento por tempo indeterminado. Levei muitos anos, com altos e baixos, para me recuperar. Não queria regressar à função pública. Em 1998, por altura de Expo 98, tinha muito trabalho. Mas, nos anos seguintes, a ilustração analógica passou a ter grande concorrência da ilustração digital. Comecei a ter muito pouco trabalho e a dedicar-me mais à pintura e a exposições. A pintura é um processo muito lento, não é rentável, a não ser que os valores se tornem exorbitantes e, mesmo assim, se estiver seis meses a pintar um quadro pelo valor mensal do vencimento mínimo nacional, nem todos os clientes estão dispostos a investir no trabalho, a não ser que compreendam o que está por trás, o que representa e o valor da criatividade. Com muita relutância e para não perder o vínculo, regressei à administração pública, algo que ainda hoje tenho muita dificuldade em aceitar. É um perfil que não me encaixa, sinto-me preso, mas é um mal necessário à minha sobrevivência e da minha condição familiar.


BDBD - E, no entanto, o "bichinho" da banda desenhada nunca saiu de si, curiosamente... Como surge a ideia de reeditar o Giraldo, com mais páginas e argumento revisto e actualizado? Não ficou totalmente satisfeito com a primeira edição ou há dados novos acerca desta personagem?
JP - A forma como vejo agora a história de Geraldo já não tem a mesma fantasia inicial. Hoje, com cinquenta e nove anos, vejo Geraldo como um mercenário ambicioso, implacável, pronto a jogar com as duas faces da moeda pra obter o que desejava. Este tipo de personagem, embora característico e notável na sua época, não tem nada que ver comigo ou com o que desejo para a humanidade ou para o planeta. Infelizmente, ainda temos muitos Geraldos entre nós, que são cópias fiéis da barbárie medieval. Quando decidi retomar, falei com o Jorge Magalhães e o Geraldes Lino. Como era de esperar, ficaram extremamente motivados. Mas os atentados terroristas aumentaram e começaram a distorcer até a história da invasão islâmica e reconquista. Interrompi novamente. Nalguns períodos históricos sobre a invasão islâmica da Península Ibérica também se viveu em paz entre o Islão, Judeus e Cristãos. Devemos bastante a esses períodos que possibilitaram a troca de valores científicos e culturais entre as diferentes religiões e culturas, que são atualmente reconhecidos como património da humanidade. Reeditar o Geraldo para ser objecto de fundamentalismo não está no meu horizonte. Por isso, se avançar, quero ter bastante cuidado com a forma imparcial e factual como vou retomar toda a história, procurando um tratamento especial para as cenas de violência. O que prevejo é continuar a visão do homem, não do herói, mercenário, ambicioso, mas um homem que sobrevive como pode e não tem religião, tanto ostenta a Cruz como o Crescente. Tal facto custar-lhe-á a vida em Marrocos, onde termina a sua jornada.

Pranchas inéditas de "Giraldo, o Sem-Pavor"

BDBD - Sendo um álbum que se centra num personagem histórico, que tanto diz a Évora, nunca houve interesse, por parte da autarquia eborense, por exemplo, de patrocinar uma reedição?
JP - Respondo-lhe com o seguinte ditado: “os santos da casa não fazem milagres”. E também não sou eu que os procuro. A cultura e a arte em Évora sempre foram muito elitistas e eu não gosto de elites. Se algum dia esta história chegar ao fim, tenho tempo de me preocupar com a sua edição. Se for necessário, edito-a em Espanha. Tenho boa relação com Olivença, onde fiz a minha última exposição de pintura. A história do Geraldo, se avançar, vai deixar de se concentrar na conquista de Évora mas sim na vida (com bastante ficção) do personagem.

BDBD - Uma curiosidade que me ocorreu agora: sendo o José Projecto um ilustrador que domina perfeitamente a utilização da cor no seu trabalho, na BD optou sempre pelo preto e branco. Porquê?
JP - Adoro a cor, mas também adoro a ilustração a preto e branco principalmente em BD. Depende do ilustrador, há artistas que desenham para a cor, no preto e branco, sente-se a falta dela e há outros em que a cor adicionada só estraga. Na escola italiana de ilustradores do personagem “Tex Willer”, existem excelentes artistas a preto e branco. A cor não faz lá falta. Fabio Civitelli é um bom exemplo do que estou a afirmar.

BDBD - Estando tão ligado à ilustração de Natureza, nunca aconteceu fazer uma BD focando esta temática?
JP - Sim, tenho duas páginas sobre um lince. Deixo aqui as reproduções.


BDBD - Continua a manter contacto com a "Tribo da BD", de alguma maneira? Qual a sua relação com esta forma de arte nos dias que correm?
JP - É praticamente nula. De vez em quando troco e-mails com a Chaterine Labey, viúva do Jorge Magalhães, e quero enviar um e-mail ao Esteban Maroto para saber se está bem. Trocámos de e-mails uma ou duas vezes e gostei muito.

BDBD - Pretende deixar alguma mensagem especial a alguém?
JP - Na divulgação da primeira parte desta entrevista recebi o apoio de vários amigos, a quem agradeço profundamente, mas houve um em particular que me comoveu e tocou no principal motivo que, 
ao longo de todos estes anos, me moveu como ilustrador. Não foi o dinheiro, carreira, ou ambição. Apenas o amor à ilustração, a vontade de partilhar a fantasia e imaginação, fazer parte desse mundo, dessa variante artística.
José Gaspar foi meu colega na administração pública. Agora aposentado, temos afinidades desde que nos conhecemos, mas muito pouca convivência. Surpreendeu-me com o seu comentário, do qual transcrevo um excerto, que me fez sentir bastante realizado ao optar por esta vida nada fácil que é ser ilustrador em Portugal:
«A minha personalidade e vivência criança/adolescente construiu-se à volta de "figuras" como Kit Carson, David Crockett, Buffalo Bill, Daniel Boone, Tarzan, Major Alvega, grande fã do Fantasma e tantos outros. Também era leitor assíduo do "Mundo de Aventuras".
Alguns destes, como vi agora, tiveram capas desenhadas por ti. Portanto, de alguma forma és responsável pelo mundo maravilhoso e pelo universo de sonhos em que me construí.
Já ganhei o dia!

Forte abraço.»
A todos os que me apoiam e acompanham ao longo da minha carreira como ilustrador, em particular aos que amo e me são mais próximos, o meu muito obrigado.


BDBD - Muito obrigado nós, José Projecto, por esta entrevista.
JP - Obrigado também, pelo interesse no meu trabalho e convite para a entrevista, trazendo boas lembranças de outros tempos. Espero ainda ter oportunidade para nos conhecermos pessoalmente e de retomar este maravilhoso mundo da BD, onde a fantasia se confunde com a realidade.

Nota: as imagens são copyright de José Projecto
CR

sábado, 28 de agosto de 2021

ENTREVISTAS (34) - JOSÉ PROJECTO (1.ª parte)

José Projecto trabalhando no seu ateliê, numa foto de 2020.

José Projecto é um nome que talvez pouco diga ao público bedéfilo dos nossos dias. Contudo, para os "jovens" bedéfilos dos anos 80 ele é um autor bem (re)conhecido, essencialmente pelo seu álbum "Geraldo", editado pela extinta Futura, assim como por outros trabalhos publicados em revistas icónicas como "Mundo de Aventuras" ou "Selecções BD".
Fizemos uma pesquisa e facilmente encontrámos o seu site, a partir do qual encetámos contacto e o convidámos a dar-nos uma pequena entrevista para o nosso blogue, algo a que, simpaticamente, acedeu com agrado. É essa entrevista, que agora aqui reproduzimos. Antes disso, porém, transcrevemos uma mini-biografia que fomos buscar precisamente ao seu site de modo a que todos os que nos leiam entendam melhor quem é o autor a quem damos hoje destaque no BDBD.

José Projecto nasceu em Évora, a 17 de Março de 1962. 
Desde muito cedo manifestou a sua motivação por representar e pintar o que o rodeava, sentindo uma inclinação especial pela 9.ª Arte. Começou por ilustrar fanzines e pequenas histórias de Banda Desenhada editadas no “Mundo de Aventuras”, “Selecções”, entre outros. 
Publicou o seu primeiro álbum de BD, intitulado “Giraldo-o-sem-pavor” em 1984. Durante a execução do segundo álbum que não chegou a terminar, as suas pranchas retratavam aspectos muito detalhados da fauna e paisagens que envolviam os personagens da história. Era o início da sua carreira como ilustrador e pintor naturalista. 
Intensificou as suas saídas de campo, reproduzindo nos anos seguintes vários elementos da nossa vida natural. Interrompendo a sua licenciatura em Belas Artes que iniciou em 1982, trabalhou como ilustrador para o actual Instituto da Conservação da Natureza. 
Simultaneamente começou a trabalhar com os Correios de Portugal e Tecnologia das Comunicações ilustrando diversos originais filatélicos para Portugal (continente, Madeira e Açores), Angola e Guiné-Bissau que se encontram divulgados em diversos países. 
Abandonou por nove anos o seu trabalho na administração pública, para se dedicar inteiramente à pintura e ilustração. Em 1992 o conjunto de selos portugueses da sua autoria, alusivos á conferência das Nações Unidas, ECO 92, foi distinguido com o prémio internacional do mais belo selo dedicado ao ambiente. 
Actualmente, repartindo o seu tempo de trabalho como funcionário da administração pública, continua pintando cenas particulares da nossa fauna.

Feitas as apresentações, é hora de avançar para a entrevista que, na verdade, não é tão pequena assim, facto que nos obriga a dividi-la em duas partes (sendo que a segunda parte será publicada nos próximos dias).
Boas leituras!
Carlos Rico


BDBD - O primeiro contacto que teve com a BD surgiu aos seis anos, através de um exemplar de "O Falcão", que lhe foi oferecido pelo seu pai (segundo nos dá conta no seu site, onde refere, até, o nome da aventura que tanto o fascinou: "O Segredo do Deserto"). O que é que viu de especial nessa história que lhe despertou esta paixão pela 9.ª Arte?
José Projecto (JP) - Desde muito cedo tive facilidade em imaginar qualquer história que me contavam. Felizmente, a minha geração foi contemporânea de um período áureo da ilustração, desde as caixas de sapatos, embalagens alimentares, anúncios de publicidade, jornais, revistas, embalagens de brinquedos, etc., quase tudo era ilustrado. Quando o meu pai me ofereceu o “Falcão #392”, com a história intitulada “O Segredo do Deserto”, deveria ter cerca de seis anos, como refere. 
Capa de "O Falcão" #392
Compreendi o meu interesse pela comunicação através do desenho porque me atraía muito tudo o que era ilustrado. Foi o ponto de partida para iniciar o desenho, reproduzindo muitas das ilustrações das revistas que passei a coleccionar sempre que era possível. Embora nunca tenha visitado o deserto, ainda hoje sinto uma atração muito especial por tudo o que se relaciona com os grandes desertos de África, a sua história, mistérios e evolução. Muitas destas histórias eram originalmente publicadas em Inglaterra e França, com ilustrações e argumentos muito bons. Felizmente, hoje é possível encontrar o trabalho de muitos dos ilustradores na internet, que maioritariamente não eram identificados. É frequente pesquisar autores como Thomas Marco Nadal no personagem de “Kalar”, Russ Manning no personagem de “Tarzan”, e outros que fizeram e fazem as delícias do meu gosto por BD. Das histórias que encontrava no Falcão, o personagem do “Robin dos Bosques”, publicado com o nome francês “Oliver”, foi sempre um dos meus preferidos, pelo lirismo que lhe atribuía princípios de democracia e distribuição de riqueza.

BDBD - Esses tempos áureos, nos anos 70 e 80, em que nos quiosques se encontravam inúmeros títulos de revistas de banda desenhada, acabaram há muito. Hoje não temos uma única revista sob edição portuguesa (embora uma fatia de público adquira revistas com edição brasileira ou americana, por exemplo) e, em contrapartida, consomem-se maioritariamente álbuns. Tem saudades desses tempos? Acha que algum dia haverá condições para termos de novo uma revista BD portuguesa nas bancas ou julga que esse cenário estará completamente colocado de lado, nos tempos actuais?
JP - Claro que tenho muitas saudades. Quando ia de férias com os meus pais para a praia de Armação de Pêra, adorava os quiosques repletos de revistas de BD em segunda mão e todos os tostões que apanhava eram para comprar revistas. Por essa altura, deveria ter uns dez anos, comprava uns cadernos A4 da Firmo-Porto, que rapidamente enchia de desenhos, por vezes procurando reproduzir as vinhetas que me despertavam mais interesse. Passava um mês de férias completamente obcecado. Acredito que tudo tem o seu tempo, é possível que voltemos à BD nos quiosques, mas o que deu vida ao fanzine e revista de BD foi um espaço socio-cultural livre nos EUA e na Europa, após a Segunda Guerra. Em Portugal, sentimos mais este impacto depois da Revolução de Abril, porque a ditadura não permitia ter muitas edições nesta área. Actualmente, esse espaço não é o mesmo, a realidade virtual tem mais força pelas infinitas possibilidades que disponibiliza. Mesmo depois de Abril, qualquer artista tinha de trabalhar muito para ver o seu trabalho aprovado e publicado. Hoje, graças à internet, os artistas têm a possibilidade de mostrar o seu trabalho ao mundo inteiro de uma forma muito rápida e praticamente gratuita. Recordo-me de uma entrevista que tive com o Vasco Granja, próximo dos meus quinze anos, de onde saí profundamente desiludido quando lhe pedi opinião para uma BD que ilustrei sobre a vida da Marilyn Monroe. Granja afirmou que aquele trabalho era apenas uma brincadeira. Mais tarde compreendi que era uma questão política, a vida de Marilyn foi complexa e a sua morte um mistério, a história reflectia a minha falta de conhecimento e ingenuidade, próprias da idade, numa enorme paixão pela diva. Talvez Granja desejasse proteger-me, porém poderia ter sido mais construtivo e explícito nas suas observações. 
Assim como o e-book não tirou o lugar ao livro, o mesmo irá acontecer com os álbuns ou algumas revistas de BD. Mas nada que se compare ao passado. A realidade do futuro editorial, tudo leva a crer que será acima de tudo virtual.

BDBD - A sua estreia na Banda Desenhada, enquanto autor, deu-se, naturalmente, através de publicações amadoras (vulgo fanzines) que produzia de forma artesanal, como era norma naqueles tempos. Que tipo de histórias editava? Já indiciavam o seu gosto pela História e pela Natureza ou eram de outro âmbito?
JP - Sempre fascinado pelo desenho e pela ilustração, os estudos ficavam em segundo plano. Era mais o tempo que passava a desenhar, do que a estudar. Sensivelmente pelos meus catorze anos, um amigo da adolescência propôs-me criarmos uma BD em conjunto. Dessa proposta mais tarde nasceu o “Clube Eborense de Banda Desenhada” composto por um grupo de amigos com uma visão comum, e que atravessou várias alterações, originando, entre outras atividades, cerca de seis fanzines intitulados “Calypso”. Tudo apoiado pelo FAOJ (Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis) e, já no final da sua existência, apoiado também por uma tipografia local, que contribuiu bastante para os meus conhecimentos sobre impressão em offset. Influências num misto de 7.ª e 9.ª Arte, primeiro, a ficção cientifica, as séries “Space 1999”, “Star Treck”, “Star Wars”, etc. Depois, o regresso à ficção histórica e ao fantástico com a época medieval “Robin Hood”, “Prince Vaillant” e primórdios das civilizações com “Conan”. A paixão ou influência da natureza esteve sempre presente, mas só teve relevo nas vinhetas do Geraldo. O meu crescente interesse pela fotografia ajudou-me a ter outra sensibilidade e maneira de criar os meus originais.

Capas do primeiro e último números do fanzine "Calypso" 
(Edições de 1977 e 1983)

BDBD - No princípio dos anos 80, publica nas "Selecções BD" e no "Mundo de Aventuras". Como aconteceu isso? Ser autor de BD (ou, pelo menos, publicar uma história) era algo que ambicionava e que acabou por se concretizar ou a oportunidade veio ter consigo e soube aproveita-la?
JP - A criação de “Crime do Universo” surgiu na evolução natural do meu interesse pela BD, com grande influência de ilustradores como Esteban Maroto em “5 x Infinito” e Jonh M. Burns com “Danielle” e “The Seekers”. Consumidor habitual da revista semanal “Mundo de Aventuras”, sabia que a editora estava aberta a novos autores portugueses. Quando terminei a história, dirigi-me à Agência Portuguesa de Revistas onde conheci o Jorge Magalhães, apresentei-lhe as pranchas e convidou-me a propor à direcção a sua publicação, que foi aprovada e editada. 
Prancha original de "Crime no Universo" (episódio 1), publicado no "Mundo de Aventuras"

BDBD - Fale-nos um pouco deste trabalho, "Crime no Universo".
JP - Penso ter respondido a esta questão na pergunta anterior, não há muito mais a dizer, “Crime no Universo” foi o resultado de anos de trabalho, precedido pela história de “IRA”, uma história que a minha irmã, Margarida Projecto, adaptou a partir de um poema e que foi publicada nas Seleções da Agência Portuguesa de Revistas.
Prancha original de "Ira", um trabalho dos irmãos Projecto,
José (desenhos) e Margarida (adaptação), publicado em "Selecções BD"

BDBD - Acabou, mais tarde, por fazer um segundo episódio de "Crime no Universo" que se manteve inédito (sendo hoje reveladas, em primeira mão, algumas pranchas, facto que muito lhe agradecemos). Porque é que este segundo episódio não foi publicado, como aconteceu com o primeiro?
JP - Recordo-me vagamente. Acho que esteve relacionado com o final ou restruturação da Agência Portuguesa de Revistas e a saída do Jorge Magalhães, para ficar como colaborador da Editorial Futura. Lembro-me que o último encontro que tive com o Jorge Magalhães foi precisamente para reaver as pranchas que estavam na sua posse.

Pranchas do segundo episódio de "Crime no Universo", que se mantém inédito

BDBD - Para o "Mundo de Aventuras" fez também uma série de capas, já na última fase da revista, com variados personagens. Como surgiu essa oportunidade?
JP - Como estava a estudar em Lisboa necessitava de ter algum rendimento extra, para não sobrecarregar os meus pais. Como faziam outros ilustradores, propus à Agência Portuguesa de Revistas dar apoio às ilustrações que fossem necessárias para as suas edições quando fosse possível. Ganhava-se pouco, mas ajudava a pagar o quarto.


Capas da revista "Mundo de Aventuras", por José Projecto (1986)

BDBD - Quantas capas fazia por mês? As cenas eram-lhe sugeridas ou era um trabalho totalmente seu?...
JP - À semelhança do que aconteceu com muitos ilustradores, não valorizei muito este trabalho. Por vezes sugeriam-me o que deveria reproduzir, outras vezes davam-me a liberdade para escolher...
(continua)

Nota: as imagens são copyright de José Projecto
CR

domingo, 8 de agosto de 2021

ENTREVISTAS (33) - DERRADÉ

Derradé
Já conhecia, superficialmente, algumas bem animadas criações de Derradé, mas não o conhecia pessoalmente...
O seu recente álbum, "A Loja" (ed. Polvo), despoletou todo o desafio para esta merecida entrevista, se bem que breve.
Derradé (aliás, Dário Rui Duarte) é um dos grandes e incontestáveis valores de uma nova geração de desenhistas portugueses. Em boa aposta, ele singra pela difícil vertente do humor e de bem fazer rir e sorrir. A sua já notável obra espalha-se por alguns álbuns, sobretudo editados pela Polvo e pela Escorpião Azul, e por participações diversas em fanzines e outras publicações e antologias, numa bela e infindável lista.
Tem participado em grandes festas-BD, como a de Beja e da Amadora. 
Com frequência, faz parceria com argumentos do economista e saxofonista Geral (aliás, Mário Alberto Caldeira Cavaco). Muito cúmplices e muito divertidos e a divertir os leitores. Espantosos!
Na obra de Derradé, para além do já citado álbum "A Loja", há que salientar: "A 25, Sempre a Abril", "Edição Extra", "Fava!", "Fúria", "Pai Natal, Um Estudo Morfológico", "Segunda Oportunidade", "A Demanda do G", os três tomos de "Há Piores!" e todas as suas loucuras por fanzines e não só.
Nasceu em Lisboa a 15 de Outubro de 1971. 
Licenciou-se em Matemáticas Aplicadas e é analista e programador de Informática.
Em 1992, iniciou-se na Ilustração, no Cartune e na Banda Desenhada.
Colaborou e/ou colabora para várias publicações mais ou menos conotadas com a 9.ª Arte, como o "Jornal de Alverca". Editou diversos fanzines e expôs em Alverca (2000, 2001 e 2002), na Amadora (2011 e 2019) e Beja (2016). 
Recebeu o Troféu Central Comics, em 2012 e em 2017. 
Tem álbuns completamente esgotados, como "Segunda Oportunidade".
Por sua vez, no álbum "Edição Extra" há uma inteligente compilação de obras que estavam dispersas.
Aí segue o nosso "diálogo".
LB

BDBD - Como e quando te surgiu a aproximação à Banda Desenhada?
Derradé (D) - Desde miúdo. Aprendi a ler com a BD, em revistas como "Tintin", "Tio Patinhas" ou "Turma da Mónica". Depois, tinha um certo jeito para desenhar, o que também ajudou. E tenho a certeza que o desprezo com que alguns adultos a votavam me influenciou teimosamente a não largar a BD...

BDBD - Algum ou alguns desenhistas te influenciaram?
D - Sem dúvida. Há aqueles que esperamos que se vejam no nosso trabalho e há aqueles que surgem no teu trabalho e que julgavas que nunca te influenciariam: Angeli, Laerte, Glauco, Peter Bagge, Gilbert Shelton, Joe Matt, Morris e Maurício de Sousa.

BDBD - De todos (são tantos) os desenhistas portugueses, quais os teus favoritos?
D - Vou-me escusar a responder a esta questão, com uma única excepção: o meu velho companheiro de luta pelo humor em Portugal, o Álvaro.

BDBD - A mesma questão em relação aos estrangeiros...
D - Para além dos que me influenciaram: Lewis Trondheim, Joaan Sfar, Mathieu Sapin, Seth, Daniel Clowes, Jeff Smith, Carl Barks, Prett, Franquin, Tillieux, Serge Clerc, Yves Chaland, Quino, Bill Waterson, Richard Thompson, Hunt Emerson...

BDBD - ​​Aplicas-te essencialmente ao humor, às vezes com a bela malícia cáustica. A BD realista não te atrai?
D - Eu sou autodidacta. Os meus desenhos mais realistas acabam sempre com um ar cartunesco, o que quer dizer que só leio Humor a 100 %, mas gosto de um desenho que foge do real e que se estiliza, que se cartuniza.
Capa de "Pai Natal: um estudo morfológico", por Geral (texto) e Derradé (desenhos)
Edições Polvo (2001)

BDBD - Em "A Demanda do G", ajustas em cada prancha, em baixo e como rodapé, uma tira de divertida discussão entre o "desenhista" e o "argumentista". É ideia tua, do Geral ou de ambos?
D - A ideia de usar esse sistema no livro foi do Geral. A contribuição do Geral para esse livro, foi exactamente essa estrutura, as duas primeiras páginas, a última e duas tiras. Mas a ideia não é nossa, mas sim do que o Gilbert Shelton costumava fazer nas pranchas dos Freak Brothers, com as tiras do Fat Freddy's Cat.
Capa e prancha de "A Demanda do G", por Geral (texto) e Derradé (desenhos)
Edições Polvo (2016)

BDBD - Em "Há Piores", por exemplo, funcionam os sonhos e as frustrações erótico-sexuais. Há alguma base autobiográfica nesta linha?
D - Há sempre algo de autobiográfico em qualquer personagem que criemos. Neste caso, quem sabe? Quando fazemos BD também fazemos um pouco de terapia. A série "A Paixão Segundo Derradé", incluída no "Há Piores!... 3", surgiu de um desafio que me foi lançado pelo Nuno Amado do blogue "Leituras de BD" e é abertamente mais sexual. Foi uma experiência engraçada.
Capa e prancha de "Há Piores 3#, por Geral (texto) e Derradé (desenhos)
Edições Polvo (2014)

BDBD - Por sua vez, no bem pândego álbum "A Loja", parodias-te a ti próprio e ao universo-BD português. Excluindo a diversão que aí consta, é assim que julgas mais seriamente toda esta situação?
D - Olhando friamente, sim. Aliás, acho que é mais irreal do que a parodiei, digna de uma certa aldeia de gauleses, mas que ao contrário destes, não resistirão ao invasor romano. Já me pediram um segundo livro, mas não será para já. Histórias não faltam...
Capa e prancha de "A Loja", por Derradé (texto e desenhos)
Edições Polvo (2019)

BDBD - Em certos momentos, incluis figuras reais (Garcia Lorca, Serge Gainsbourg, Vinicius de Moraes, etc.). São autores da tua simpatia e aparecem, ao teu jeito, como um certo tipo de homenagem?
D - Sem dúvida. Sempre que puder, e fizer sentido, irei incluir esse tipo de homenagens. Aliás, todo "A Demanda do G" é, de certo modo, uma homenagem ao Joe Strummer.

BDBD - E a seguir, o que tens planeado?
D - A reforma!... O tempo escasseia e terei de ser mais criterioso com os projectos que ainda me proponho idealizar. Assim, estou a terminar para a Escorpião Azul, o que posso definir como uma autobiografia fictícia pós-apocalíptica viral. Depois, tenho mais quatro projectos para a Polvo. Tudo irá ser feito a seu tempo e sem pressas.

Registo o meu agradecimento pleno pelos apoios para esta entrevista, para além do do próprio Derradé, os das editoras Polvo (Rui Brito) e Escorpião Azul (Jorge Deodato).
Avante, pois parar é morrer antes do tempo!
Luiz Beira

Capa de "A 25, sempre a Abril", por Geral (texto) e Derradé (desenhos)
Edições Polvo (2002)

Capa de "Segunda Oportunidade", por Geral (texto) e Derradé (desenhos)
Edição Escorpião Azul (2013)


Capa e prancha de "Edição Extra", por Geral (texto) e Derradé (desenhos)
Edição Escorpião Azul, 2015) 

domingo, 28 de março de 2021

ENTREVISTAS (32) - RICARDO SANTO

​Foi a leitura e apreciação do seu álbum "Planeta Psicose" (Ed. Escorpião Azul), aqui divulgado a 13 de Janeiro, que logo me despoletou o interesse de uma entrevista com este jovem autor. 
Estabelecido o contacto, eis a sua breve história e a nossa conversa.
Ricardo Santo
Ricardo Santo (aliás, Ricardo Santo Encarnação Machado) nasceu em Leiria a 21 de Dezembro de 1976, mas, praticamente, cresceu em Pataias (concelho de Alcobaça). 
Cursou Design Industrial nas Caldas da Rainha e tem uma graduação pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa.
Começou bem garoto, a desenhar e a escrever as suas "estórias".
Colaborou para o "Jornal de Pataias" e "Tribuna do Oeste".
Recebeu em 1991, uma Menção Honrosa no Concurso BD pelo Salão de Banda Desenhada de Amora. Similarmente, recebeu também Menções Honrosas em concursos efectuados em Loulé, Caldas da Rainha, Sobreda e Amadora.
Publicou-se, também, em diversos fanzines.
Seus desenhistas preferidos: Hugo Pratt, Hayao Miyazaki, Osamu Tezuka, David Clowes, Moebius, Jordi Bernet, Albert Monteys, Jaime Martin, David Rubin, Nuno Saraiva, João Fazenda, Ricardo Cabral, Filipe Abranches e Luís Louro.
Reside há alguns anos com a família próxima, a companheira e os dois filhos, em Barcelona. Entretanto, em 2017, editou por conta própria, o álbum "Livro Sagrado".
Segue-se o nosso diálogo que, devido às circunstâncias, foi efectuado por e-mail.

Ilustração de Ricardo Santo
BDBD - Que força te levou a abraçar a Banda Desenhada?
Ricardo Santo (RS) - Suponho que a minha relação com a Banda Desenhada não seja diferente da de muitos outros que se dedicam a ela. Começa invariavelmente na escola primária, quando te dás conta de que os outros miúdos param de fazer desenhos deles para ficarem a olhar para os teus. E aí percebes que se passa alguma coisa que não é normal. Essa primeira sensação ainda é o que sobretudo me move, cada vez que eu faço um boneco ou penso numa história. Faço-o
para os meus amigos. É neles que penso quase sempre. Ou em conversas e diarreias mentais que tive com alguns deles. Olhando para trás, suponho que desde muito cedo era um miúdo que desenhava, escrevia e lia mais do que os outros miúdos à minha volta.

BDBD - Disseste-me que a BD não é o teu funcionamento normal, mas sabes bem (e os leitores também), que por aqui já és admirável e grande. Mesmo assim, recusas-te à dita 9.ª Arte?
RS - Há de certeza muita gente a quem sou completamente indiferente! E outra tanta que detesta o que eu faço! Se os tenho na família, não duvido que os tenha fora dela! É uma das dores do crescimento! Quando és pequeno, todos acham graça a tudo o que tu fazes! Depois, cresces e já ninguém te acha piada nenhuma. Nem sequer tu próprio, muitas vezes! Normalmente, é quando nos apercebemos do que dá e não dá o pão para a boca. De repente olha-se para o lado e percebe-se que o mundo, afinal, é maior do que pensávamos. E se calhar, não somos assim tão especiais! Nessa altura, fazem-se outras escolhas. De resto, as pessoas que só sabem fazer uma coisa na vida são, regra geral, muito desinteressantes.


BDBD - Vives na Catalunha, digo, Barcelona... É a geografia mais tranquilizadora para o teu dia-a-dia?
RS - Não! Decididamente, não é! Foi uma coisa que me aconteceu quase sem querer. Ou melhor, eu queria experimentar viver fora de Portugal. Mas nunca tive nenhum tipo de predileção especial pela Catalunha. Calhou, por causa do trabalho da minha mulher. E já estou aqui há tempo suficiente para perceber que nunca na vida me tornarei catalão! Ou espanhol! Gostava de algum dia viver uma temporada num país asiático. Mas, eventualmente, quero voltar para Portugal. Acho que, de facto, em tranquilidade, devemos ser imbatíveis. Mas nem toda a gente gosta de tranquilidade a todo o momento! E, às vezes, um bocadinho de agitação , de vez em quando, também é saudável!

BDBD - Arriscaste-te a um álbum de autor, "Livro Sagrado"... Com que ideia para tal?

RS - O "Livro Sagrado" foi um daqueles projectos que parecia que não ia acabar nunca. A ideia inicial era fazer uma adaptação tout court de alguns contos de cariz fantástico e etnográfico da literatura portuguesa. Mas depois de umas quantas falsas partidas e ideias abandonadas, veio a tornar-se uma coisa com um cunho um bocado autoral. É uma coletânea em que algumas histórias são adaptações de contos e outras são originais meus, embora habitando o mesmo universo e partilhando algumas características estruturais e temáticas, assim como um fio condutor narrativo que as une umas às outras como se fossem uma história só. De uma forma geral, anda muito à volta da temática das superstições, mitos, convenções e preconceitos que ainda alimentam um certo tipo de conservadorismo crónico e às vezes, um bocado ridículo, de que muitos de nós, portugueses, infelizmente ainda padecemos. O que eu costumo chamar a herança mental do Estado Novo. Que ​é um bocadinho diferente da herança mental da Guerra Civil de que os espanhóis também ainda padecem.

Capa de "Planeta Psicose"
BDBD - Com o recente "Planeta Psicose", isso resultou num verdadeiro estoiro de merecidos aplausos para ti. Contente com este triunfo?
RS - Contente com os aplausos, sim. É sempre gratificante sentirmo-nos validados. Principalmente, se for por parte de alguém que respeitamos. Não tenho é ainda noção se isso se traduziu em vendas, porque a pandemia veio sabotar um bocado as coisas!

BDBD - Neste álbum, és terrivelmente acutilante e quiçá, um "anarquista" pessimista... Assim pensas a vida?
RS - Não sei! Talvez tenha alguma tendência para esperar sempre o pior das situações... Ou pelo menos, gosto de ter sempre presente a ideia de que, por muito mal que as coisas estejam, podem sempre piorar! Também padeço de algum cinismo e de uma certa tendência para dizer o que não devo. E como normalmente não consigo evitá-lo, a maior parte das vezes prefiro estar calado, antes que me fuja a boca para a verdade. Também tenho o péssimo hábito de questionar demasiado as ordens e as convenções, principalmente, se não lhes entendo a lógica. Nunca me ocorreu definir-me como anarquista! Mas, vendo bem as coisas, sou capaz de ser um bocadinho... Gosto de estar aberto a mudar de direcção em qualquer altura!

Pranchas de "Planeta Psicose"

BDBD - E para o futuro, o que tens projectado para a Banda Desenhada na Catalunha e/ou em Portugal?
RS - Tenho um outro projecto de BD já terminado há bastante tempo, que espero finalmente poder editar este ano. Mas ainda não ponho as mãos no fogo. É uma coisa completamente diferente do "Planeta Psicose". Através de outra editora. Uma história real. Uma coisa que me desafiei a mim próprio fazer, principalmente, porque já não podia mais ouvir as pessoas que me dizem constantemente que só sei fazer o mesmo tipo de coisas. E que não acham graça nenhuma! É uma história em que meto a ironia na gaveta e abordo temas que realmente me preocupam. E coisas nas quais acredito. Apesar de falar em desgraças, é talvez a história mais optimista que escrevi! Mas, de momento, os meus planos não passam por editar em Espanha. Curiosamente e apesar da amabilidade de alguns editores a quem mostrei o meu trabalho, ainda encontrei menos abertura do que em Portugal por parte das editoras. Espanha é um país de artistas visuais extraordinários. E eu, para eles, ainda não deixei de ser um estrangeiro que aqui caiu de para-quedas.

Capa para o #4 do fanzine
Efeméride (Tintim no Séc. XXI)
BDBD - Eras capaz de vir ao teu País para um salão-BD?
RS - Capaz, serei sempre. Dependendo do tempo disponível e do preço do bilhete de avião. Agora estão mais baratos!

BDBD - Acompanhas a BD de Portugal?
RS - Sim. Acompanho a BD portuguesa, tanto como a espanhola. Embora a carteira e a estante não cheguem para comprar tudo. Estou pelo menos a par do que se vai fazendo.

BDBD - ​Em breves palavras, deixa aqui uma mensagem aos leitores portugueses que te estimam e admiram...
RS - Só agradecer e dizer que o sentimento é mútuo. Ter alguém que se interessa por aquilo que nós fazemos, principalmente no meio do cada vez maior turbilhão de coisas que se vão fazendo, é fundamental para continuarmos a fazê-lo. Não sou nada o tipo de pessoa que se esteja marimbando para o que os outros acham. Ou que faço as coisas só para mim. Posso não querer perverter-me às ditaduras da maioria, mas o que faço, é fundamentalmente para os outros. É uma busca de diálogo e de pontos de contacto com outras pessoas, para não sentir que estou sozinho. Quando ninguém me quiser ouvir, paro. Não tenho vontade nenhuma de ser o maluquinho que anda a pregar para as paredes!

BDBD - Muito obrigado, Ricardo, por teres acedido a esta entrevista!
L.B.

Pranchas de "Velha Glória", in revista "Gerador" #8 (Abril/Junho 2016)


Pranchas de "Contacto", homenagem póstuma a Geraldes Lino

Estudo para a contracapa de "Planeta Psicose"