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terça-feira, 11 de janeiro de 2022

AS HISTÓRIAS QUE RESIDEM NA GAVETA (21) por José Ruy

Recordo aos leitores deste Blogue uma série de artigos que escrevi sobre histórias em HQ que «residiam» na minha gaveta dos «encalhados».
E digo RESIDIAM, porque algumas vão deixando o limbo onde se encontravam.
Precisamente, tinha nessas condições uma história sobre os Templários.

Um professor meu amigo, André Chico, aquando de uma sessão em que mostrei o meu método de trabalho, numa escola onde ele era docente em 2012, sugeriu que me debruçasse nesse tema que é do seu agrado, porque é natural de Tomar, onde vive.
Como o tema há muito me fascinava, entusiasmei-me a criar uma história em Quadrinhos, mas que na altura não teve oportunidade de edição.
Pois bem, 9 anos depois do «purgatório» desta história, um corajoso editor propôs-se presentemente publicar esse original. Trata-se do Rui Brito, que dirige a editora POLVO há muitos anos.
Eu tinha o argumento completo e toda a história já esquiçada a lápis e estruturada para 30 pranchas de desenho, o que daria um livro com 32 páginas.
Este esquema surgiu-me nos anos 1980 quando trabalhava na editora ASA e o seu responsável, Américo Augusto Areal, me pediu uma opinião técnica sobre uma situação crítica: a matéria prima subira em flecha e ele seria forçado a aumentar o preço de capa dos livros de Quadrinhos. Mas achava que as venda se iriam ressentir, pois a crise na altura afetava todos.
Foi quando lhe sugeri reduzir os custos da edição para poder manter os preços de capa, sem prejuízo do conteúdo.
Usávamos o esquema franco-belga, 48 páginas de papel, 44 de desenho e assim alargávamo-nos fazendo grandes desenhos a contar a história. Ora se condensássemos a narrativa em 30 páginas, contaríamos o mesmo, mas em desenhos mais reduzidos e poupava-se no papel, nos fotólitos das seleções fotográficas, que ainda se usavam na altura, e na impressão.
O caso é que o esquema resultou e pegou; os meus colegas na ASA passaram a usa-lo, e eu continuei a mante-lo até hoje.
Mas o editor Rui Brito achou agora que esta história dos Templários merecia ser contada em 44 páginas.


Portanto, mantendo o argumento, alterei o guião para o reajustar para esse número de páginas, o que permitiu dar mais ênfase a certas cenas e desenvolver alguns pormenores dando-lhe até mais visibilidade.
Foi como sair de um espartilho.
Neste momento a história está toda desenhada em definitivo, a tinta da china, e estou na fase da cor, que faço agora pelo Photoshop.

A edição está prevista para o corrente ano de 2022, em capa dura.
Apresento uma visão diferente sobre o destino dos misteriosos tesouros dos Templários, e do que constavam. É uma história com uma grande base histórica «temperada» com ficção quanto baste.

E aqui está, em traços largos, como precisamos de ter paciência e esperar por uma ocasião que mais tarde ou mais cedo sempre chega. Mesmo que se tenha de esperar 9 anos.
A minha filosofia baseia-se em que se tivermos tudo pronto, ao surgir uma oportunidade rapidamente pode fazer-se a edição.
Desejo-vos boa leitura.
José Ruy

terça-feira, 10 de março de 2020

AS HISTÓRIAS QUE RESIDEM NA GAVETA (20) por José Ruy

Este é o último artigo de uma série que se alongou, em que tenho vindo a contar as peripécias que envolvem as histórias projetadas, algumas bastante adiantadas na sua execução, e que nunca chegaram, até agora, à «estampa».
Mas nesse limbo onde estacionam esses projetos, por vezes durante bastante tempo, lembro o livro «A Ilha do Futuro», que esteve durante seis anos nessa situação, e de repente foi publicada por dois editores, em 2004.
A história que deixei para o fim, também a última a ser guardada na «gaveta», tem uma curiosidade, embora negativa, por ser inusitado o motivo que a levou a ficar durante três anos nessa situação.
Em 2016, numa das minhas deslocações pelo país, a Festivais e eventos ligados a esta arte, fui abordado por uma Entidade para fazer em Quadrinhos a história dessa região. Precisava de ficar pronto em 2017, por se comemorar nessa altura uma efeméride.
Falei de imediato com o editor, que aceitou publicar, comprometendo-se essa Entidade em adquirir exemplares para as bibliotecas da zona.
O editor forneceu esses dados e ficou à espera de resposta.
Comecei a criar um argumento, introduzindo um pouco de ficção à História, tornando mais aliciante a leitura. De resto, como sempre faço.
Em quatro meses fiz a planificação, e forneci esboços de umas páginas, para mostrar o aspecto dos Quadrinhos, embora rudimentares.

A narrativa começa no século XV, com uma cena passada debaixo de chuva intensa, quando acontece um acidente na estrada.
Claro, que é o começo de uma narrativa cheia de ação, descrevendo a vida de pessoas reais e importantes para o país. 
A Entidade gostou do que apresentei, e delegou em alguém a tarefa de me acompanhar no decorrer do trabalho, como é hábito acontecer em iniciativas deste género. Há sempre um consultor histórico que verifica o que apresento, e com quem entro em diálogo nesse sentido. 
Agradeço sempre no próprio livro, essas ajudas. 
Mas essa pessoa nunca respondeu ao que eu ia enviando, nem deu andamento ao processo. Com esse silêncio, fiquei manietado, a ver o tempo escoar-se.
Avisei as pessoas que me haviam convidado, e dei-lhes conta do inóspito. Disseram que iam ver, mas o facto é que nada conseguiram. Fiquei a pensar tratar-se de alguém a nível muito superior à tal Entidade máxima, mas não cheguei a perceber o que se passava, pois nem uma única resposta me era dada.
A certa altura decidi enviar uma última missiva, dizendo que se não obtivesse resposta dentro de uma semana, considerava o acordo quebrado, mostrando assim que o entusiasmo com que me tinham feito o desafio, tinha esfriado, ou fora boicotado, o que tudo leva a crer.
Como, mais uma vez, não obtive qualquer resposta, enfiei a história na gaveta e não pensei mais nisso.
Passados três anos, a mesma Entidade voltou a desafiar-me.
Possivelmente, a misteriosa personagem que atirou o projeto para o cesto dos papéis, ou de outro lixo não classificado, já não estaria ativo, e agora sim, estariam reunidas as condições para avançar.
Eu acredito nas pessoas e na sua honestidade, por isso aceitei, mais uma vez, esta tarefa. Mas ainda não foi desta.
Pelo que me parece, esse ser «invisível», mas com bastante força virulenta, atacou de novo, e o silêncio caiu, mais uma vez, sobre o assunto. O que me espanta é quem parece ser a Entidade máxima, de repente é manietado por algum subalterno. Mas é o que temos. Felizmente que não são todos assim.
Como é compreensível, não divulgo nomes, pelo respeito que dedico às pessoas que demonstram tanto carinho pelo meu trabalho.
Fica aqui demonstrado que estou sempre aberto a desafios deste género, e que, mesmo com os tropeções sofridos, posso admitir recomeçar.
Porque a vida continua, e quem faz destas maquinações são seres desprezíveis, que não têm coragem de dizer «não gosto», «não estou de acordo». Escondem-se na inércia, atrás do biombo, demonstrando o maior desprezo pelo próximo.
Mas agradeço do coração todo o apoio que as tais Entidades máximas me têm dado, e que não podem ultrapassar o «querer» de quem tem, aparentemente, mais força.

Agradeço ao BDBDBlogue a oportunidade de apresentar estes desabafos, e a paciência de quem me lê aqui, e nos livros que vou fazendo.


Forte abraço
José Ruy

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

AS HISTÓRIAS QUE RESIDEM NA GAVETA (19) por José Ruy

Continuamos a contar as peripécias de mais um projeto meu que não chegou à edição. Trata-se da biografia do escritor Alexandre Herculano. 

Quando colaborava no jornal «Cavaleiro Andante», fiz a adaptação para Quadrinhos do romance histórico de Alexandre Herculano «O Bobo», após ter terminado a «Peregrinação» de Fernão Mendes Pinto. 
Publiquei muito mais tarde, em 1986, essa história em livro, mas totalmente redesenhada, em coedição pela Editorial Notícias e a Meribéica/Liber. Desde aí, embora totalmente esgotada, não teve segunda edição, ao contrário de muitos outros livros de minha autoria.

Em 2006, após a «Meribérica» ter sido desativada devido à falência da distribuidora que a servia e que a arrastou, com outras, para esse precipício, dois filhos do Telmo Protásio, entretanto falecido, fundaram uma editora, a «Marginália».
Como estou sempre disponível para ajudar quem começa e precisa, publiquei nessa jovem editora a história do «Peter Café Sport», da ilha do Faial, Açores.
Entretanto o Colégio Alexandre Herculano, na Amadora, o primeiro a ser fundado nessa então Vila, precisamente em 1910 quando foi implantada a República em Portugal, adquirira umas instalações de maior dimensão, as da antiga oficina do jornal O Diário, e convidaram-me a fazer uma exposição de originais na sua nova galeria.
Daí surgiu a proposta da minha parte e da «Marginália» em fazer-se uma edição de «O Bobo» de parceria com o Colégio, que adquiriria exemplares para oferta a alunos que terminassem o curso ou funcionando como prémios.
Para haver uma ligação do Colégio com a obra em questão, lembrei-me de fazer uma biografia do Alexandre Herculano como introito do romance histórico.
Ficaria um livro com um total de 50 páginas.
Mostro a seguir as pranchas em esboço dessa biografia, que já foram expostas em Moura pela iniciativa do meu amigo Carlos Rico, coautor deste Blogue.


Como podem ver a última página da biografia faz a ligação com a obra «O Bobo» que seria contada a seguir no volume.
O Colégio contactou umas empresas, que existiam na altura na Amadora, para uma parceria no projeto, e quando parecia estar tudo bem encaminhado, não chegaram a acordo quanto ao número de exemplares que eram precisos adquirir para defender os custos de produção da edição, e o projeto ficou nesta gaveta que os leitores já conhecem.

No próximo e último artigo desta série mostrarei um projeto em que empenhei todo o meu entusiasmo, mas inexplicavelmente (para mim) foi vítima de um boicote, ainda hoje por compreender.

sábado, 18 de janeiro de 2020

AS HISTÓRIAS QUE RESIDEM NA GAVETA (18) por José Ruy

Continuamos a contar as peripécias de parte de um projeto que não chegou a ver a luz da edição, a História da Cruz Vermelha Internacional, numa edição mais completa, com meia centena de páginas. 

Portanto o «CICR» resolveu fazer, à frente da história mais desenvolvida, uma obra com menos páginas explicando as ações da Instituição, e que fosse de realização mais rápida, pelo problema da Instituição de me entregar atempadamente as traduções feitas pelos delegados da Cruz Vermelha Internacional. 
Esse livro maior seria realizado com mais calma, conforme a disponibilidade desses delegados em me fornecerem as traduções. 
A sua distribuição está a ser gratuita. 
Ao fim das quatro semanas que Jean-Jacques Surbeck combinara que eu ficasse a trabalhar no CICR, faltava poucochinho para acabarmos esta fase da história, e pediu-me para prolongar a estadia por mais uma semana. Concertei com a editora onde trabalhava em Portugal e consegui terminar a história.
Para simplificar, mostro um apanhado com algumas das línguas editadas. A Itália não esperou pela publicação impressa pelo CICR e editou na sua própria língua, com legendas feitas em computador. 
Mas, entretanto, tive uma surpresa: em dada altura, o diretor dos Festivais de BD na Roménia contactou o Luiz Beira, um dos coordenadores deste blogue, a dizer que havia um autor português pioneiro a publicar uma história em quadrinhos no seu país. E indicou o meu nome. Fiquei espantado, pois embora tivesse já nessa altura alguns títulos editados no estrangeiro, como a História de Macau em cantonense, não tinha conhecimento dessa publicação, que por certo seria uma edição «pirata». 
O Dodo Nitá enviou, então, um recorte comprovativo e verifiquei ser esta história da Cruz Vermelha, que na Roménia tinham traduzido e publicado por sua conta, sem intervenção do CICR.
Neste caso as legendas foram também escritas em computador. 
O Comité International de la Croix-Rouge fez uma tiragem de mais de meio milhão de cópias nas diversas línguas. Os ingleses pediram mais de uma remessa, pois essa língua abrange um público vasto. 
Entretanto, regressado a Portugal continuei a história mais desenvolvida. 
Fui realizando os esboços com muito acabamento, para não deixar dúvidas na apreciação do Comité, do CICR. 
Jean Jacques Surbeck continuava a fazer a tradução para francês, com base na versão em português que lhe enviava, e era a partir daí que as outras traduções iam sendo feitas. 
Só passaria a nankin depois dos espaços dos balões estarem devidamente preparados para as 10 línguas. Tenho toda a história esboçada, como mostro em baixo, incluindo as legendas.
Por essa altura houve o golpe de Estado na Pérsia, e o Aiatola Khomeini resolveu adoptar o Crescente Vermelho em vez do Leão Vermelho antes usado. Isso foi resolver a questão dos símbolos. Por exemplo, em tempo de guerra, as convenções entre os países proíbe bombardearem as barragens e os hospitais. Estes serão assinalados com visibilidade com uma Cruz Vermelha ou um Crescente Vermelho. Se esses símbolos se confundissem com os nacionais de cada país, deixava de servir de aviso aos aviadores beligerantes. 
As marcas visíveis nas páginas são de fita gomada que oxidou com os anos. 

O tempo foi passando, e a dificuldade em me enviarem as traduções foi-se agravando. O Jean-Jacques Surbeck foi colocado em Nova Iorque e deixou um colega a substitui-lo no acompanhamento do projeto, Charles Pierrat. 
Mas o verdadeiro entusiasta era o Surbeck e a partir de certa altura os envios começaram a ser muito espaçados até que se interromperam. 

Como a edição reduzida estava a ser um êxito, confirmado pelos frequentes pedidos de mais exemplares dos diversos países, ficou-se por aí.
Todo este trabalho foi-me pago, pois fizéramos um contrato escrito.
As Edições Europa-América chegaram a interessar-se na publicação em português mas, entretanto, essa possibilidade gorou-se.
Desde aí muita coisa mudou nas guerras no mundo e também na própria Instituição; se hoje tivesse de voltar a abordar o assunto, precisava de começar tudo do princípio.

No próximo artigo falarei de outra história que tenho nas mesmas condições, à espera de ser editada...

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

AS HISTÓRIAS QUE RESIDEM NA GAVETA (17) por José Ruy

Continuamos a contar as peripécias de uma das histórias encalhadas da «Gaveta», «A História da Cruz Vermelha Internacional» em Quadrinhos. 
No artigo anterior expliquei como fui convidado a realizar em Quadrinhos o funcionamento dessa Instituição Humanitária.
Regressado de Genève passei a enviar pelo Correio os esboços com o texto em português, e na Suiça o Jean Jacques Surbeck traduzia para a língua francesa.
Como eu precisava de ter as traduções das 10 línguas para calcular com precisão o espaço a deixar em cada «balão» no desenho definitivo, criou-se um impasse, pois essas traduções estavam a ser feitas pelos delegados do CICR (Comité International de la Croix Rouge) em ação na Europa, África e Ásia. Mas só quando cada um voltava à Suiça para entregar relatórios, podia dedicar-se a fazer as traduções, o que demorava e começou a ser difícil reunir todas as línguas para poder avançar com os desenhos definitivos da história.
Jean-Jacques Surbeck que tinha urgência no trabalho, mas compreendia que não podíamos avançar de outra maneira, impacientava-se e resolveu convidar-me para voltar ao CICR para reajustar o nosso projeto.
Para abreviar a iniciativa, combinámos fazer de imediato uma quadrinização mais curta para mais rapidamente ser editada, e cumprir o objetivo. 
Propôs-me o Surbeck que permanecesse 4 semanas no CICR, num gabinete contíguo ao dele, para assim podermos completar essa história. 
Assim o livro grande podia ir seguindo noutra cadência, conforme a disponibilidade dos delegados envolvidos. 
Comecei a esboçar com minúcia esse resumo, sobre o CICR e a Liga. 
Na primeira prancha coloquei Henry Dunant horrorizado ao presenciar a batalha de Solferino, mas no Comité acharam que ficaria melhor fazer o retrato dele de uma maneira mais digna, como acabei por fazer na imagem ao lado.
 
Também nesta página onde mostro as instalações do CICR e da Liga, resolvemos alterar e criar uma projeção da CRUZ.

Programei fazer seis das línguas com a minha letra, português, espanhol, italiano, francês, inglês e alemão.
O chinês, o russo, o hebraico e o árabe seriam fornecidas legendas pelos próprios paízes.
Ao fim das quatro semanas…

No próximo artigo: uma surpresa inesperada.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

AS HISTÓRIAS QUE RESIDEM NA GAVETA (16) por José Ruy

O termo de conservarmos histórias na «gaveta» é simbólico; eu por exemplo
tenho-as arquivadas em pastas e em diversas estantes, conforme os assuntos.
Mas é um facto que numa gaveta ou numa pasta, elas estão encalhadas.
A que tirei agora para mostra, é a «História da Cruz Vermelha Internacional».
Também neste caso só uma parte da obra não foi publicada.
Tudo começou em 1978, quando dois jornalistas e um ator criaram um programa na RTP para auxiliar a «Cruz Vermelha Portuguesa». Foram o Carlos Cruz, o Fialho Gouveia e o Raul Solnado; deram-lhe o título de «PIRÂMIDE».
Consistia em reunir dádivas de todo o género, desde dinheiro, roupas mesmo usadas, objetos e até livros.
Pensei em ajudar, mas sem ter a possibilidade de dar uma quantia justificativa nem objetos pessoais ou vestuário que valessem a pena, decidi fazer uma história em quadrinhos com a vida de Henry Dunant, o fundador da Cruz Vermelha, que não estava ainda feita, e oferecer.
Ofereci os direitos de publicação à Cruz Vermelha Portuguesa, e foi publicada na revista «Tin-Tin» por intermédio do Dinis Machado e no «Mundo de Aventuras», pela mão do Jorge Magalhães. Os originais entreguei-os à instituição. Contei a história em seis pranchas, com os elementos que consegui colher. 
Nessa altura havia ainda no mundo quatro símbolos representando esta instituição.
A Cruz Vermelha (o negativo da bandeira suíça) no Ocidente, o Crescente Vermelho no mundo
islâmico, estes dois juntos na União Soviética e o Leão Vermelho na Pérsia.
Israel estava em negociações para conseguir adotar como tal a Estrela de David.
Acontece que as instituições nacionais da «Cruz Vermelha» em cada país, editam revistas para divulgar as suas atividades, que são enviadas para Genève. A de Portugal chamava-se «Humanidade».
No Comité da Cruz Vermelha Internacional viram a história e ficaram interessados; enviaram um telegrama ao Capitão Costa Pereira, o coordenador da publicação e que fora meu condiscípulo na Escola António Arroio, a propor que eu fosse a Genève com brevidade. Convidavam-me a fazer essa história, mas com mais documentação que me forneceriam na Suiça. 
Estive duas semanas no CICR, Comité International de la Croix-Rouge, a receber informações precisas do funcionamento da instituição, com depoimentos de vários delegados especializados nos três continentes, europeu, africano e asiático, para poder criar um argumento. A ideia do jurista que me recebeu e acompanhou em todo o tempo, Jean-Jacques Surbeck, era fazer um livro com cerca de 50 páginas mostrando as competências da Cruz Vermelha Internacional e da Liga das Cruzes vermelhas Nacionais para ser editado em 10 línguas.
Regressei com duas malas cheias de documentação e mesmo lá elaborei um esboço que foi aprovado.
Em breve comecei a enviar para o CICR os esquiços pelos CTT, pois na altura não tínhamos a net. 
Eu escrevia em português sobre os esboços a lápis e o Jean Jack Surbeck passava para a língua francesa. 
Mas eu precisava ter presente a tradução de todas as línguas envolvidas para calcular com precisão o tamanho dos balões, de modo a que os diversos textos coubessem nos mesmos espaços. 
E aí surgiu um problema... 

No próximo artigo: de novo convidado a voltar a Genève.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

AS HISTÓRIAS QUE RESIDEM NA GAVETA (15) por José Ruy

Ao abrir a gaveta onde repousam algumas histórias que não viram o brilho da publicação, surgiu-me uma que idealizei fazer por volta de 1980, «O Andarilho das Sete Partidas». 
Trata-se de uma peça de teatro de autoria do escritor Romeu Correia, e publicada em livro, mas curiosamente nunca levada à cena. 
Nessa altura colaborava muito com a Câmara de Almada em eventos culturais, e fiz alguns com o Romeu Correia, principalmente sobre a «Peregrinação de Fernão Mendes Pinto», que realizara em Quadrinhos.
Na foto acima, uma das sessões em que estamos a palestrar. O Romeu Correia era um orador exímio e contava histórias com muita graça e interesse. 
Estamos num antigo mercado da fruta e do peixe, transformado em «Oficina da Cultura», em Almada. 
Falamos de Fernão Mendes Pinto, por isso a decoração com barris e cordame. 
Nesse espaço fiz em outra altura, com o Fausto Bordalo Dias, um evento em que desenhei uma figura do herói da Peregrinação enquanto ele tocava um dos quadros de «Por Este Rio Acima». 
Mas isso é outra história.
A peça de teatro de Romeu Correia é sobre a vida de Fernão Mendes Pinto em Almada, depois do seu regresso da longa peregrinação pelo Oriente.
Com base em dados históricos, o dramaturgo descreveu em detalhe a época em que o marinheiro passou a escrito a sua vivência no Oriente durante 21 anos, numa crónica que é hoje uma obra prima da nossa literatura.
Como, entretanto, criara laços de amizade com ele, combinámos transformar em Quadrinhos esse texto. Comecei a esboçar os desenhos e a adaptar a escrita. 

Os esboços foram lançados muito rudimentarmente, apenas para implantar em cada vinheta a atitude das personagens e alguma presença de elementos para criar o ambiente da época.
Apresento duas páginas, o suficiente para poderem avaliar o texto, muito bom, do Romeu Correia.

Esta história iria completar a «Peregrinação» em BD que a Meribérica acabara de publicar, e tinha interesse precisamente por isso. Mas meteram-se outros trabalhos na minha agenda, o Romeu Correia faleceu, e ainda em vida da viúva com quem me dava bem, pensámos realizar o projeto. O tempo foi passando, a própria Meribérica desativou-se e os esboços ficaram por isso mesmo, na gaveta. 
Ainda hoje, quando trago à luz do dia este assunto, sinto algum entusiasmo em continuar o projeto. Daria uma boa história. 

No próximo artigo mostrarei mais um argumento «encalhado» e a história que o rodeia.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

AS HISTÓRIAS QUE RESIDEM NA GAVETA (14) por José Ruy

Passemos agora a outra Banda Desenhada que se tem mantido na minha gaveta à espera de ser publicada.
Tal como as anteriores, possuí uma história na sua origem que passo a contar.
No âmbito das minhas habituais idas às escolas e bibliotecas para mostrar como faço este trabalho, a pedido de professores e bibliotecários, fui convidado para fazer uma sessão na Escola Superior de Educação de Santarém. Acompanhou-me a «Tia Nita», que fora diretora do suplemento de «O Mosquito», «A Formiga».

A Tia Nita, Mariana Cardoso Lopes Viegas, mãe do ator Mário Viegas, fora professora nessa escola.
Um dos professores que assistiram à sessão fez-me um desafio, de criar uma BD sobre os Avieiros, essa gente sofrida oriunda de Vieira de Leiria, que sazonalmente durante o inverno quando o mar não permitia a pesca na sua zona, vinha até ao Rio Tejo, de águas mais mansas, apanhar o Sável, que conseguiam vender bem.
Aceitei a proposta, falei com o meu editor, já a «Âncora», e comecei a documentar-me e a preparar o argumento. Tinha de me afastar das obras «Avieiros» de Alves Redol e «Esteiros» de Soeiro Pereira Gomes, o que foi difícil.
Mas consegui uma história com enredo aliciante que explicava ao mesmo tempo a vida desses pescadores sazonais, envolvido num romance.
Além de documentação que tinha, adquiri livros sobre a construção das casas desses pescadores, que nas margens do Tejo viviam nos próprios barcos, chegando mais tarde a pouco e pouco a fixarem-se nessa região mais amena, construindo casas «pala fíticas». Fui ao terreno observar e desenhar diretamente do natural.

Gosto de fazer primeiro um esboço de toda a história, como tenho descrito, mas em dada altura organizaram em Santarém uma espécie de congresso sobre a recuperação dos Avieiros e quiseram apresentar o projeto da BD. Precisavam para isso de mostrar qualquer coisa. Então avancei com as primeiras imagens para serem apresentadas nessa ocasião. 
O prazo de entrega estipulei em seis meses, que é o tempo que levo a executar uma história em Banda Desenhada. Entretanto iria primeiro entregar a história toda esboçada, com o texto dos balões, para ter a aprovação da organização, ou discutirmos pormenores, como faço em todos os meus trabalhos.
Ao mesmo tempo iriam verificar os elementos inseridos, e confirmar se estavam todos certos. Só depois disso entrava na fase da arte final, e aí já não podiam fazer qualquer alteração.
É o meu processo de trabalho.
 
Durante uns meses, enquanto esboçava os desenhos, fui organizando a documentação que recebia constantemente por via do professor que se empenhava com dedicação à causa. Em dado momento apercebi-me que alguém até aí na sombra e que não tinha «mexido uma palha», como se costuma dizer, apareceu em destaque aproveitando o trabalho de alicerce conseguido com tanto esforço pelo tal professor, pondo-o de parte e a tomar as rédeas do assunto. Não me pareceu bem, mas o próprio disse que não me preocupasse, pois o que interessava era o projeto ir para diante. Atitude humilde e de muita dignidade.
Mas logo a seguir recebi um «ofício» da organização a pedir-me um prazo curtíssimo para entregar a história, e que iam fazer um concurso para autores e editores para depois apreciarem as propostas executadas, para escolherem a que mostrasse melhores condições.
Fiquei perplexo pois tinham ficado bem definidas, desde a primeira hora, as condições em que trabalho e nunca esteve em equação ser um concurso, pois não entro em competitividades desse género.
Quando lhes chamei a atenção disso começaram por não responder, fazendo «tábua rasa» (como diria Aristóteles a Platão) do assunto.
Enviei uma carta a pedir explicações concretas e dei um curto prazo, e se não tivesse resposta considerassem sem efeito o contrato que eles ainda não tinham assinado com o editor. Para mim, ainda considero que a palavra dada é um ponto de honra. Para quem a tem, claro. 
E avisei que não podiam usar o argumento ou imagens já construídas, pois estavam registadas.
Mas não pedi indemnização pelo trabalho já feito. «Atirei-lhes à cara».
Não responderam, e passados mais de dez anos nada fizeram nesse sentido.
O professor passou por uma doença, mas quando nos cruzamos mostra ainda a esperança de ver concretizado este projeto.
Para mim, ficou a riqueza de conhecer bem toda essa vivencia de gente trabalhadora, tão nobre e sofrida.
Mais uma história que volta à gaveta...


No próximo artigo vou desempoeirar outro caso, o sétimo dos dez que se mantêm na penumbra.