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sexta-feira, 15 de março de 2019

OS "WESTERNS" DE FERNANDO BENTO

É verdade, mas muito e muito bedéfilo já se esqueceu, ou nunca teve conhecimento, destas aventuras desenhadas pelo nosso sempre vivo, o genial Fernando Bento (1910-1996), pois não só adaptou à BD clássicos da Literatura e outros temas encantadores como ele próprio se aventurou, embora por curtas vezes, ao popular tema do "western"... dos tais Estados Unidos(?!) da América do Norte.
Fernando Bento (1910-1996)
O nosso Bento lá cedeu, porém e apenas, até certo ponto. ainda bem, pois isto de "cowboys e índios"... haja tino!
Acontece que, ainda bem jovem, Fernando Bento fez as suas primeiras abordagens às "coboiadas", em 1938, para o extinto periódico "A República", segundo apurámos num trabalho do falecido (2018) Dr. António Dias de Deus.
Então, aí vai:
Em "República", consegui descobrir apenas dois exemplos da série cómica "As Inacreditáveis Façanhas do Cow-boy Fred Sully-Panta", com argumentos do Tio Luiz, aliás Luiz  da Silva Ferreira (1898-1959).
"As Inacreditáveis Façanhas do Cow-boy Fred Sully-Panta",
por Luiz da Silva Ferreira (texto) e Fernando Bento (desenhos), in "República" (secção infantil) (08.01.1938)
"As Inacreditáveis Façanhas do Cowboy Fred Sully-Panta",
por Luiz da Silva Ferreira (texto) e Fernando Bento (desenhos), in "República" (secção infantil) (04.03.1938)
Anos mais tarde, com o seu sempre evoluído e invejável traço, na revista "Cavaleiro Andante", Bento arrojou-se a três histórias curtas:
"Perigo no Desfiladeiro" (no n.º 458)...
"Perigo no Desfiladeiro", por Fernando Bento, in "Cavaleiro Andante" #458 (1960)

"O Cavaleiro Escarlate" (no n.º 482)...
"O Cavaleiro Escarlate", por Fernando Bento, in "Cavaleiro Andante" #482 (1960)

...e "Terras Malditas(no n.º 556).
"Terras Malditas", por Fernando Bento, in "Cavaleiro Andante" #556 (1962)

Pronto! Creio que ele se ficou por aqui ante este tema de pistoladas e muita poeira das lendárias pradarias, cheias de vaqueiros suadíssimos, pele-vermelhas infelizes, bisontes estafados… Quase nada todo este ambiente tem a ver com a nossa Europa!
A finalizar: maravilhosamente, Bento, desenhou muitos outros e diversos temas e, uma vez, chegou a desabafar-me que só se lamentava nunca ter desenhado ficção científica! Opinião que não é bem correcta pois o assunto existe em diversos romances de Jules Verne que ele também desenhou.
LB

quarta-feira, 8 de março de 2017

BREVES (40)

COIMBRA BD ARRANCA COM NOVA EDIÇÃO
É já amanhã, dia 9, que arranca a "Coimbra BD - 2.ª Mostra Nacional de Banda Desenhada", uma iniciativa que pretende colocar a "Cidade do Conhecimento" no mapa da BD nacional.
Até domingo, 12 de Março, a Casa Municipal da Cultura de Coimbra recebe exposições, workshops, tertúlias, desfile de Cosplay, sessões de autógrafos e desenho ao vivo, ciclos de cinema de animação, jogos de tabuleiro, bem como venda de BD, ilustração e merchandising.
A 2.ª Mostra Nacional de Banda Desenhada é uma organização da Câmara Municipal de Coimbra, que conta com a parceria da Livraria Dr. Kartoon e com a colaboração do Projecto Videolab, dos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra (SASUC) e da Rádio Universidade de Coimbra (RUC).
Mais informações podem ser consultadas aqui.



CPBD INAUGURA TRÊS EXPOSIÇÕES DE UMA ASSENTADA!
No sábado, dia 18, o Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) inaugura um novo ciclo de exposições, dando, assim, continuidade ao seu plano de actividades para 2017.
Desta feita, o CPBD começa por inaugurar na sua sede (sita na Avenida do Brasil, 52 A - Falagueira - Amadora), pelas 17:00 horas, uma exposição dedicada aos "65 Anos da revista Cavaleiro Andante".

Um quarto de hora mais tarde, está prevista a inauguração de outra exposição, esta dedicada a Willy Vandersteen, numa parceria entre o CPBD e a Câmara Municipal de Moura e o Gicav (co-produtores da mostra). 
Trata-se de uma exposição comissariada por Luiz Beira e produzida em 2013, aquando do centenário do nascimento deste desenhador belga, criador da famosa dupla Bob e Bobette (de quem falámos há bem pouco tempo aqui no BDBD).

Por fim, às 17:30 horas, inaugurará a exposição dedicada ao "Centenário de Jijé", outro nome grande da BD belga.
Esta é, também, uma co-produção entre a Câmara Municipal de Moura e o Gicav (Viseu), comissariada, em 2014, igualmente por Luiz Beira.
A encerrar a sessão, haverá um colóquio com a participação de Romain Gillain, neto de Jijé, residente no nosso país há já alguns anos.




VAMPIROS À SOLTA NA ERICEIRA!
Por último, e para rematar esta onda de oferta expositiva, ali ao lado, o Ericeira BD, numa parceria com a Comic Heart, inaugura nesse mesmo dia, a 18 de Março, pelas 17:00 horas, uma exposição de pranchas e ilustrações originais de Juan Cavia com textos de Filipe Melo, intitulada "Os Vampiros".

domingo, 28 de fevereiro de 2016

UMA OBRA... VÁRIOS ESTILOS (6) - ATRAVÉS DO DESERTO

Henryk Sienkiewicz (de nome completo Henryk Adam Aleksander Pius Oszyk-Sienkiewcz), é dos grandes escritores polacos do século XIX.
Nasceu em Wola Okrzejska (Polónia) a 5 de Maio de 1846 e faleceu em Vevey (Suíça) a 15 de Novembro de 1916.
Foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1905.
Várias obras suas foram adaptadas ao Cinema, sendo a mais famosa, “Quo Vadis?”, também com versões em Banda Desenhada.
Mas é com “Através do Deserto” (no original, W Pustyni i w Puszczy), que aqui nos focamos, tanto mais que daqui nos consta algo muito interessante: esta obra parece que  foi adaptada à 9.ª Arte, em Portugal e em EspanhaSerá que não há mais nenhuma versão, nem mesmo na sua natal Polónia?!...
A história narra as aventuras por uma África agitada pelos anos de 1881 e 1899, durante a rebelião político-religiosa mahadista no Sudão, do adolescente polaco Stás e da adolescente inglesa Nell.
Em Portugal, “Através do Deserto” teve uma brilhante adaptação à Banda Desenhada por José Garcês e foi então publicada na revista “Cavaleiro Andante”, do #340 ao #394 (1958-1959). Em 1993 foi publicada em álbum pelas edições Asa.


Em Espanha, “A Traves del Desierto”, esta aventura foi publicada em 1971, sendo o #22 da colecção “Joyas Literarias Juveniles” da Editorial Bruguera.
O guião foi elaborado por Armonía Rodriguez e a arte gráfica coube a José Grau e Antonio Bernal.



RODAPÉ: Esta narrativa foi adaptada em 2002 para uma série televisiva sob a direcção de Gavin Hood e teve como principais actores, Karolina Sawka (Nell) e Adam Fidusiewicz (Stás). Sériado televisivo este, que teve exteriores rodados na Namíbia, República Sul-Africana e Tunísia.

Nota: Agradecemos o apoio prestado por Juan Espallardo.
LB

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS, na memória de José Ruy (11)


11) O PORQUÊ E COMO FOI CRIADO O "CAVALEIRO ANDANTE"

Pois o «Cavaleiro Andante» foi realmente criado para escoar uma quantidade enorme de papel que se acumulava nos armazéns da «Empresa Nacional de Publicidade» a que o Diário de Notícias pertencia. Este importava da Finlândia o papel em bobinas mas o seu tamanho na largura excedia a medida da rotativa e o formato do jornal. As bobinas eram serradas no excedente produzindo pequenas frações que se iam acumulando. Numa tiragem diária de 100 mil exemplares pode-se calcular a velocidade a que os armazéns ficavam lotados.
Que fazer a tanto papel? Era um desperdício mandá-lo para a reciclagem. Foi aí que o inventivo José Gonçalves pensou num pequeno jornal infanto-juvenil onde aplicasse esse papel dando assim vasão às bobinas. Encomendou uma rotativa Offset com esse formato e foi assim que o «Cavaleiro Andante» surgiu sujeito àquela medida, e substituindo o «Diabrete».

Era uma rotativa deste género que
imprimia o "Cavaleiro Andante"
Capas do "Diabrete"

Esta rotativa tinha 60 centímetros de largura e utilizava as tais bobinas excedentes. Portanto este jornal nasceu com papel já pago e reunia todas as condições para dar certo.
Nada se desperdiçava naquela empresa. Tudo se transformava num ciclo de reaproveitamento. Um dia poderei contar pormenores de recuperações inimagináveis, de produtos que hoje vejo deitar para o lixo sem a preocupação de os reutilizar.
Durante o período da colaboração que mantive durante alguns anos n’O Cavaleiro Andante, criei várias histórias.
"A Mensagem", "Ubirajara" do escritor brasileiro José de Alencar, e "O Bobo", de Alexandre Herculano
Quando estava a terminar a publicação de «O Bobo», o Simões Müller perguntou-me o que pensava fazer a seguir. Tinha entretanto descoberto a «Peregrinação» através do Teixeira Coelho, que até já a havia iniciado em HQ com apenas três tiras de propósito para a primeira exposição de Histórias em Quadrinhos, no Palácio da Independência em Lisboa, em 1952.
A "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto
O Coelho antes de partir para França sugeriu-me que fizesse essa história, pois ele não a ia continuar nem planeava fazê-lo mais tarde. Em França dedicar-se-ia a outro tipo de temas, como aconteceu. Depois de ler esse original fiquei apaixonado, por isso disse ao Müller que era essa a história seguinte.
Ele torceu o nariz, Fernão Mendes Pinto confessava nos seus escritos ter sido pirata… porque não fazia eu antes os «Fumos da Índia»? Mas encontrava-me bastante determinado, e durante umas semanas fui argumentando com o Müller, que se tratava de uma história com empolgantes aventuras, que tinha episódios históricos e até de heroísmo em locais exóticos. Anuiu por fim, depois de lhe mostrar algumas pranchas que havia já adiantado.
Essa adaptação estendeu-se por 75 semanas, e as reações que chegaram à redação foram todas positivas.
Claro que tive o cuidado de construir a personagem sem barba, para se afastar o mais possível do aspeto do «pirata padrão, barbudo e com pala no olho», que o cinema da altura nos mostrava e através das séries inglesas em quadrinhos.
Talvez por isso a censura não me tenha incomodado, embora o Fernão Mendes Pinto fosse considerado pelos mentores dos bons costumes na época, um escritor maldito.
Vinte e dois anos depois viria a reformular essas pranchas para publicação em livro, inserindo balões nas vinhetas, conseguindo assim um maior dinamismo na narrativa.
Uma prancha original, acervo do CNBDI, e uma página impressa da versão em livro. 
O José Gonçalves era um grande admirador do Teixeira Coelho e por várias vezes me deu a conhecer. Um dia, sabendo da minha ligação de amizade com o Coelho, perguntou-me se ele aceitaria trabalhar para o «Cavaleiro Andante». Disponibilizei-me para o contacto pois nessa altura encontrava-se já em França. Começou por fazer capas para os números especiais e a sua história «Harpa de Ouro» foi mesmo publicada no «Cavaleiro Andante». Mas por vontade do José Gonçalves.
Duas das várias capas que Teixeira Coelho desenhou
para números especiais de "O Cavaleiro Andante"
Também a série "Falcão Negro", novela criada por Raúl Correia n' "O Mosquito" e depois passada a banda desenhada com argumentos de Eduardo Teixeira Coelho foi publicada neste jornal. Esta capa foi feita de propósito para o "Cavaleiro Andante"
Conto um episódio inusitado acontecido ainda em tempo do «Diabrete», que mostra como funcionava a redação deste jornal.
«O Mosquito» fazia permuta dos desenhos do Teixeira Coelho com o jornal «Chicos» de Espanha, recebendo os de Jesus Blasco, Emílio Freixas e outros autores. O Tiotónio tirava provas de prelo em papel cristal das ilustrações do Coelho, que serviam de fotólitos para a impressão no jornal «Chicos», e enviava-as pelo correio. A Consuelo Gil, diretora desse jornal, utilizava esses desenhos soltos para ilustrar novelas escritas de propósito pelos seus colaboradores, inspiradas nas cenas explícitas nessas ilustrações.
Do jornal "Chicos"
Exemplo de como em Espanha aproveitavam os desenhos do Teixeira Coelho publicados n'O Mosquito para ilustrar contos e novelas, muitas feitas a partir das imagens, inventando argumentos a condizer com as cenas criadas, nada tendo a ver com as histórias portuguesas originais.
Por sua vez o jornal «Chicos» vendia para Portugal, para o Simões Müller, desenhos da Pili Blasco, irmã do Jesus Blasco e de outros autores espanhóis que eram publicados no «Diabrete».
Certa vez num desses lotes, por distração, vieram juntos desenhos do Teixeira Coelho, já publicados n’«O Mosquito» e no «Chicos». Na redação do «Diabrete» não se aperceberam que esses desenhos não eram espanhóis, e publicaram-nos. Claro que o Raul Correia e o Tiotónio reclamaram de imediato. Espantado, o Müller pediu imensa desculpa, pois não tinha reparado que eram desenhos do Teixeira Coelho.
Era evidente que não lia «O Mosquito» e não o observava, como os diretores deste jornal faziam com todas as publicações concorrentes existentes na altura. Era preciso estar atento ao que se publicava à volta. Fazia parte da ética.

Mas tudo tem os dias contados e o «Cavaleiro Andante» terminou a sua «cavalgada». No entanto para escoar o muito material que o Simões Müller havia adquirido aos franco-belgas, criaram a «Nau Catrineta» como suplemento integrado no «Diário de Notícias».
Embora já a trabalhar em outra empresa, continuei a colaborar com desenhos para essa publicação.

(continua)



No próximo artigo: O "TINTIN" PORTUGUÊS

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS, na memória de José Ruy (10)

No artigo anterior contei dos recursos às técnicas dos processos gráficos para resolver problemas surgidos na alteração do sistema de impressão do jornal, agora suplemento de revista.

10) A REDAÇÃO DE O "CAVALEIRO ANDANTE"

O meu primeiro contacto com esta redação foi um pouco estranha. Estava a elaborar uma história que destinava para "O Mosquito", uma aventura passada em África, sobre um caçador em situações de perigo com tribos aguerridas, quando o Diário de Notícias lançou o "Cavaleiro Andante". 
Adolfo Simões Muller
Após alguns números publicados, o seu diretor, Adolfo Simões Müller, dirigiu no jornal um apelo aos jovens que tivessem alguma habilidade para o desenho que enviassem as suas histórias pois teriam a possibilidade de serem aceites como colaboradores.
O Teixeira Coelho com quem nessa altura partilhava um dos vários ateliês que tivemos em conjunto, alvitrou-me que fosse ao novo jornal mostrar o trabalho, que ele achava já com nível. Além disso ali poderiam pagar melhor a colaboração do que n’O Mosquito, e teria mais projeção. Como tinha meia dúzia de pranchas prontas, fiz um rolo e fui ao Diário de Notícias procurar a redação do "Cavaleiro Andante". Subi ao segundo andar conforme me indicaram e deparei com uma pequena sala onde uma senhora se encontrava a uma secretária. Soube depois que era a Dr.ª Maria Amélia Bárcia, secretária do Dr. Simões Müller.
A capa de Fernando Bento
no primeiro número do jornal
Disse ao que ia, esbocei desenrolar os originais, mas ela, sem se levantar disse para os deixar assim mesmo acondicionados sobre um maple, o segundo móvel existente no gabinete, pois o Dr. Müller quando chegasse mais tarde, logo os veria e me contactava.
Despedi-me e aguardei uma resposta. Passou uma semana sem qualquer sinal, se sim se não. Deixei passar mais outra semana e comentei com o Teixeira Coelho o estranho da situação. Pensei que tinham perdido o meu contacto e resolvi ir até lá.
Quando entrei no gabinete onde se encontrava à secretária a secretária do diretor, vi o rolo dos originais, no mesmo sítio, repousando no maple conforme o havia deixado.
Apercebi-me de que o apelo feito para angariar colaboração era uma coisa muito vaga, e passadas duas semanas nem sequer haviam desembrulhado o meu material para terem uma opinião. No contacto que deixara figurava o meu nome, que por certo conheceriam como colaborador d’O Papagaio e da "Flama" durante alguns anos. Um jornal precisa estar atento ao que se faz na concorrência, e antes de o "Cavaleiro Andante" já tinham editado o "Diabrete" e durante muito tempo. Não eram novos no ofício.
A Dr.ª Maria Amélia Bárcia disse então que o Dr. Müller ainda não tinha tido vagar…
Achei o facto inusitado, pelo menos deviam ter guardado os originais e espreitar o pacote para ver se valia a pena. Delicadamente, disse que precisava de fazer umas alterações, se podia levá-los de volta. Ela disse logo que sim, parecendo-me até aliviada. Seria menos uma tarefa que tinha para resolver.
O Coelho também achou o procedimento muito estranho e ficou resolvido publicar a história n’O Mosquito: chamei-lhe «O Reino Proibido».
Prancha de "O Reino Proibido"
Cerca de um ano volvido fui convidado a fazer parte da equipa de uma revista semanal de atualidades e notícias, ainda em preparação, «A Esfera» edição do Diário de Notícias. Pretendia ser um contraponto ao «Século Ilustrado». A minha função seria desenhar cabeçalhos, ilustrações e arranjos gráficos. O Teixeira Coelho foi convidado como grande desenhador de fundo. O seu diretor era o Dr. Leitão de Barros. Foi assim que ingressei na empresa e entretanto me especializei em Rotogravura.
Exercia já funções nesse departamento gráfico enquanto a revista não saía, quando numa manhã entrou na secção o Dr. José Gonçalves, dono principal do jornal e grande entusiasta das Histórias em Quadrinhos, impulsionador das publicações infanto-juvenis da empresa, principalmente de o "Cavaleiro Andante". Nessa altura encontrava-me a fazer histórias ilustradas nas edições «Fomento de Publicações L.da» e o José Gonçalves quando me viu perguntou-me à queima-roupa por que razão estava a fazer desenhos para a concorrência e não para o "Cavaleiro Andante", sendo funcionário da casa.
Numa fração de segundo raciocinei que não podia dizer que a minha colaboração não tinha tido interesse da parte da direção do jornal, e ocorreu-me uma maneira airosa de sair da situação: o "Fomento de Publicações" pagava por prancha 250 Escudos enquanto o "Cavaleiro Andante" pagava 200 Escudos. Apresentei essa questão como motivo. O José Gonçalves retorquiu se era só por isso e me pagassem o mesmo, estaria disponível para colaborar no jornal. Retorqui que sim, e então respondeu-me que mais tarde passasse pela redação d’O Cavaleiro Andante.
Esperei a minha saída do serviço para então me dirigir à redação que era no mesmo edifício, na Avenida da Liberdade em Lisboa, quando pouco depois recebi uma chamada do Müller, se podia ir ao seu gabinete. Lá fui, com a bata branca que todos usávamos no departamento gráfico e recebeu-me com sorriso rasgado e mão estendida. O José Gonçalves havia-lhe falado de mim por isso queria convidar-me a fazer uma história para um número especial do "Cavaleiro Andante" a sair em breve.
A redação tinha mudado de gabinete para uma sala maior, onde além da Maria Amélia Bárcia trabalhavam o Fernando Passos que escrevia contos e fazia traduções, e o Artur Correia que desenhava para o suplemento «Pajem». Era primo do chefe da sala de desenho do Diário de Notícias e fora este que o colocara na empresa. Em boa altura.
Logo nessa noite comecei a pensar num argumento e resolvi fazer a história de «Gutenberg» que foi aceite com agrado. Mas à cautela não entreguei os originais enrolados…
A história foi impressa alternando as páginas com duas cores e só uma. Ao lado, esse número especial com a capa desenhada por Fernando Bento.
Já agora explicarei como a história foi reproduzida. Este número especial de outono d’O Cavaleiro Andante tinha uma parte impressa em Rotogravura e outra em Offset. A minha história «Gutenberg» calhou ser destinada ao caderno impresso em Rotogravura, secção onde eu trabalhava e fazia já algumas experiências nessa técnica. Este processo consegue a singularidade de com uma única impressão produzir o efeito de duas cores. E com duas cores, o resultado de três.
O verde na sua máxima intensidade (o desenho a traço) funciona como um preto, mas nas meias-tintas que lhe sobrepusermos abre a cor, como se pode ver na imagem do meio.
Na da esquerda, o verde/preto junto com o vermelho e quando as duas meias-tintas se sobrepõem consegue-se um acastanhado; assim com duas cores temos um resultado igual ao do Offset com três cores, o «preto», o vermelho e o verde com castanho obtido pelas sobreposições.
Como consegui esses meios-tons? «Aguarelando» com uma tinta especial, «Neococcina» sobre a película do fotólito onde estava reproduzido o desenho só a traço. Noutra película branca fiz os meios-tons equivalentes ao vermelho, manualmente sem intervenção fotográfica, e a cor forte, com «fotopak», um produto muito opaco próprio para pintar sobre a película. Depois foi tudo gravado no cilindro de cobre.

A partir desta história fiquei também colaborador residente do próprio jornal semanário.
A base da colaboração era de origem franco belga e da parte portuguesa havia o Fernando Bento, o José Garcês, o José Manuel Soares, o Artur Correia e eu. Mas foram aparecendo outros desenhadores. Esta redação afigurava-se-me fria, tudo era tratado à distância, não havia reunião com os autores para debate dos temas a fazer nem uma estratégia de planificação, no entanto a força do material importado mantinha o jornal em equilíbrio estável. A alma daquilo tudo era o José Gonçalves, dele vinham as ideias que o Simões Müller punha em prática. Este era um poeta, sonhador, delicado mas frio no sentido do entusiasmo e entrega ao jornal, se compararmos com a redação de "O Mosquito".
A ideia de criar aquele jornal foi do José Gonçalves, para escoar excedente de papel…
(Continua)

No próximo artigo: PORQUÊ E COMO FOI CRIADO O "CAVALEIRO ANDANTE" 

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O MISTÉRIO FERNANDES SILVA

Fernandes Silva
Este é, talvez, um caso inédito (pelo menos, é o primeiro) do BDBD: que é feito de Fernandes Silva?... Quem nos ajuda a saber, o que quer quer seja, deste altíssimo valor da nossa BD? Deixamos aqui o nosso apelo, tão fraterno quão bedéfilo!
Ora agora vamos lá à vida, personalidade e invejável obra de Fernandes Silva.
De seu nome completo António Fernandes da Silva, nasceu em Lisboa a 18 de Agosto de 1931.
Frequentou a famosa escola-forja de desenhistas ilustres, Escola António Arroios.  
Há pouco mais de três anos, data em que terei (eu, LB) tido o último contacto pessoal com este mestre, vivia ele na Brandoa.
Como opção pessoal da sua personalidade, evitou (ou evita) de todo os "altos" convívios. Em encontros pessoais - mais duas ou três pessoas (ainda vá...) - era de uma afabilidade exemplar. Cuidado: digo "foi, era, é..." porque nada sei do mestre!
Eu telefonava-lhe sempre a 18 de Agosto, pelo seu aniversário, mas esse telefone já não existe!... Sabe-se, nos meios da BD, que tem um filho... de quem ninguém tem um qualquer contacto!...
Consegui-lhe duas entrevistas (que redundaram numa mútua amizade de encontros de ocasião), uma para o extinto semanário lisboeta "Branco e Negro" e outra para o "Almada BD Fanzine" n.º 6. 
Foi homenageado pelo conjunto da obra no Salão "SobredaBD/2000". Óbvio, não esteve presente, mas recebeu o respectivo "Troféu Sobredão" em sua casa, via correio postal, que agradeceu.
Até há pouco tempo, era normal encontrarmos Fernandes Silva, aos sábados de manhã, na FNAC (Chiado) ou na feira semanal de livros e postais, na  Rua Anchieta. Depois..."desapareceu". Ninguém sabe dele!... Nem eu, nem o seu amigo A.J.Ferreira, nem o Leonardo De Sá, nem o José Manuel Vilela, nem o Geraldes Lino... Que mistério!
Mestre José Ruy (mais ou menos seu vizinho), a meu pedido, incomodou-se a ir procurá-lo... Foi um incómodo amigo que deu no zero ou, como versejou o grande poeta Reinaldo Ferreira (filho), "um voo cego a nada". E agora?
Fernandes Silva pertence e pertencerá a um lugar de extrema honra de quatro grandes da Banda Desenhada Portuguesa de alto coturno: Eduardo Teixeira Coelho, Fernando Bento e, na linha explicitamente humorística, além dele próprio, também o extraordinário Artur Correia.
Ilustrador e desenhista (BD), Fernandes Silva estreou-se em 1950 no suplemento "República dos Miúdos" (do extinto jornal lisboeta "República"). 
Depois, demarcou-se bem nas publicações "Diabrete", "Cavaleiro Andante", "Flecha", "Pisca-Pisca" e "Camarada" (2.ª fase), sempre agarrando qualquer atento leitor bedéfilo tanto pelo seu traço fino e cativante como pela sua genial loucura do non sense da maioria da sua obra. Formidável!
Um dos seus primeiros heróis foi o traquina garoto "Cuca".
Aventura de "Cuca" publicada no "Cavaleiro Andante" (n.º 283)
Aventura de "Cuca" publicada no "Camarada" (n.º 10)

Mas o herói que o projectou com plena justiça e entusiasmo para a bela fama e popularidade, foi o incrível e avassalador "O Ponto", um detective de cabeça redonda e sem rosto e (lógico) fumador de cachimbo, tão herói como desastrado, que participou em três aventuras: duas no saudoso "Diabrete", que foram "Loja de Bonecos" e "Por Causa de uma Talhada de Melão" (esta, reeditada no n.º 8 dos "Cadernos Sobreda BD") e, na revista "Flecha", a terceira aventura que ficou tristemente incompleta porque a revista em questão se finou subitamente!...
"Loja de Bonecos"  ("Diabrete" n.º 856)

"Por Causa de uma Talhada de Melão" ("Diabrete" n.º 883)

Uma outra loucura da sua arte, é "O Estranho Caso do Dr. Rapioca", publicada no "Diabrete" (do n.º 867 ao 874) e reeditada no "Almada BD Fanzine", n.º 6.
Prancha publicada no "Diabrete" (n.º 867)

Mas, porém, todavia, contudo... para além da irresistível paixão por "O Ponto", a cereja no topo do bolo da obra belíssima de Fernandes Silva, assenta em pleno na sua espantosa adaptação à BD (considerada, invejável e internacionalmente, como uma das mais belas e conseguidas) do clássico literário de Lewis Carroll, "Alice no País das Maravilhas" (história publicada no "Cavaleiro Andante" do n.º 1 ao n.º 26, com as duas últimas pranchas, a quatro cores, no respectivo suplemento, "O Pagem").
Prancha publicada no "Cavaleiro Andante" (n.º 18)

Criminosamente - é o termo - nenhuma obra deste genial autor-BD existe, até hoje, em álbum!... O único, justo e respeitável carinho, aproximativo, foram os exemplares (esgotados) no "Almada BD Fanzine" e "Cadernos Sobreda BD", acima citados.
Capas das publicações da Sobreda BD dedicadas a Fernandes Silva

Muito, muito e muito aqui fica por se dizer sobre a admirável vida e carreira de Fernandes Silva, assuntos que ficarão para uma provável e futura abordagem. Até lá, e uma vez que os contactos com o detective "O Ponto" não estão a funcionar, perguntamos (em re-apelo de ajuda):
- Que é feito desse grande senhor da BD Portuguesa que assinava como Fernandes Silva? 
LB

N.º Especial do "Cavaleiro Andante" (Junho de 1953)


Ilustração para o "Pisca-Pisca" (n.º 1)

Ilustração para o "Pisca-Pisca" (n.º 3)
Ilustração para o "Pisca-Pisca" (n.º 3)

Agradecemos a Carlos Gonçalves a cedência de algumas imagens para este post.