terça-feira, 19 de novembro de 2019

AS HISTÓRIAS QUE RESIDEM NA GAVETA (16) por José Ruy

O termo de conservarmos histórias na «gaveta» é simbólico; eu por exemplo
tenho-as arquivadas em pastas e em diversas estantes, conforme os assuntos.
Mas é um facto que numa gaveta ou numa pasta, elas estão encalhadas.
A que tirei agora para mostra, é a «História da Cruz Vermelha Internacional».
Também neste caso só uma parte da obra não foi publicada.
Tudo começou em 1978, quando dois jornalistas e um ator criaram um programa na RTP para auxiliar a «Cruz Vermelha Portuguesa». Foram o Carlos Cruz, o Fialho Gouveia e o Raul Solnado; deram-lhe o título de «PIRÂMIDE».
Consistia em reunir dádivas de todo o género, desde dinheiro, roupas mesmo usadas, objetos e até livros.
Pensei em ajudar, mas sem ter a possibilidade de dar uma quantia justificativa nem objetos pessoais ou vestuário que valessem a pena, decidi fazer uma história em quadrinhos com a vida de Henry Dunant, o fundador da Cruz Vermelha, que não estava ainda feita, e oferecer.
Ofereci os direitos de publicação à Cruz Vermelha Portuguesa, e foi publicada na revista «Tin-Tin» por intermédio do Dinis Machado e no «Mundo de Aventuras», pela mão do Jorge Magalhães. Os originais entreguei-os à instituição. Contei a história em seis pranchas, com os elementos que consegui colher. 
Nessa altura havia ainda no mundo quatro símbolos representando esta instituição.
A Cruz Vermelha (o negativo da bandeira suíça) no Ocidente, o Crescente Vermelho no mundo
islâmico, estes dois juntos na União Soviética e o Leão Vermelho na Pérsia.
Israel estava em negociações para conseguir adotar como tal a Estrela de David.
Acontece que as instituições nacionais da «Cruz Vermelha» em cada país, editam revistas para divulgar as suas atividades, que são enviadas para Genève. A de Portugal chamava-se «Humanidade».
No Comité da Cruz Vermelha Internacional viram a história e ficaram interessados; enviaram um telegrama ao Capitão Costa Pereira, o coordenador da publicação e que fora meu condiscípulo na Escola António Arroio, a propor que eu fosse a Genève com brevidade. Convidavam-me a fazer essa história, mas com mais documentação que me forneceriam na Suiça. 
Estive duas semanas no CICR, Comité International de la Croix-Rouge, a receber informações precisas do funcionamento da instituição, com depoimentos de vários delegados especializados nos três continentes, europeu, africano e asiático, para poder criar um argumento. A ideia do jurista que me recebeu e acompanhou em todo o tempo, Jean-Jacques Surbeck, era fazer um livro com cerca de 50 páginas mostrando as competências da Cruz Vermelha Internacional e da Liga das Cruzes vermelhas Nacionais para ser editado em 10 línguas.
Regressei com duas malas cheias de documentação e mesmo lá elaborei um esboço que foi aprovado.
Em breve comecei a enviar para o CICR os esquiços pelos CTT, pois na altura não tínhamos a net. 
Eu escrevia em português sobre os esboços a lápis e o Jean Jack Surbeck passava para a língua francesa. 
Mas eu precisava ter presente a tradução de todas as línguas envolvidas para calcular com precisão o tamanho dos balões, de modo a que os diversos textos coubessem nos mesmos espaços. 
E aí surgiu um problema... 

No próximo artigo: de novo convidado a voltar a Genève.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

NOVIDADES EDITORIAIS (184)

CHAPLIN -Edição Dupuis. Autores: argumento de Bernard Swysen ​e arte de Bruno Bazile. E prefácio (emocionante) do cineasta Claude Lelouch.
​Um álbum, bem especial, que relata a vida e obra do genial Charles Chaplin (homónimo de seu pai), conhecido em Portugal e nos países francófonos (por exemplo) como "Charlot". Esta biografia em Banda Desenhada é extraordinária, revelando aspectos inéditos da vida do pluri-artista gigantesco que ele foi. Magnífico!
Filho de Hannah e Charles Chaplin, Charles (Charlie) Sidney Chaplin, nasceu em Londres a 16 de Abril de 1889, havendo já da parte de seus progenitores, um outro filho, Sydney. O pai, normalmente sempre ébrio e artista medíocre, duvidava que um destes dois rebentos fosse dele!... A mãe, garantia que sim… Hannah cantava num cabaré e cedo veio a perder a voz, o que complicou mais a vida doméstica.
Foi depois, uma saga de amarguras, onde a grande força residia na estima fraterna de Sydney e Charles. Sobreviviam, mais a mãe sempre doente e que veio a perder o tino, num mundo de aflições e pobreza.
Ainda garoto, ele terá dito: "Detesto a escola! A História é só violência, a Geografia apenas mapas, a Poesia é uma ginástica para a memória e a ​Aritmética é enjoativa..."

O Destino leva Charles a ingressar ​no Teatro. Um dia, na Companhia onde estava, parte para ​os Estados Unidos… Nessa viagem, trava amizade com o ​colega Stan Laurel (o futuro e famoso "Estica"). Depois, ​tudo vai funcionando, com alegrias e triunfos, mas também ​com marcantes amarguras.
​Charles (Charlie) Chaplin acaba por se firmar e afirmar, e cada vez mais, pelo futuro adiante, como um diverso e ​genial artista. Foi, inclusive, perseguido pela política ​fascistóide de um tal McCarthy norte-americano. Dos seus ​diversos amores, só foi verdadeiramente feliz e até ao ​fim da vida, com Oona O'Neil.
Vivendo vários anos na ​Suíça, ali faleceu no Dia de Natal, a 25 de Dezembro ​de 1977.
​Fez e continuará a fazer rir (e a puxar também a uma certa lágrima) pelos seus filmes eternos.
Foi agraciado com o  ​título de "Sir" em 1975, pela rainha de Inglaterra (Elizabeth II), e apesar ​de banido no "país" norte-americano, em 1972, recebeu o ​famoso "Oscar" pela sua carreira.
No final deste justo e belo álbum, está toda a cronológica filmografia de Chaplin (com especiais fotos intercaladas).
Esta é uma obra-BD tão preciosa como útil ​a ​qualquer um. Topam onde quero chegar?... É obrigatório ler ​esta obra-BD!
​Acréscimos de mera rotina conveniente: o nosso José Ruy também ​forjou em BD a biografia de "Charlot", que após publicar em revistas, ​teve esta sua "A Vida Maravilhosa de Charlie Chaplin", editada em ​álbum em 1988, pela Editorial Notícias. Outro pertinente exemplo: o ​saudoso belga François Craenhals, em 1953, criou uma "curta" (em ​quatro pranchas, mais capa), editada na célebre revista "Tintin"...
Estas e outras versões podem ser consultadas no post que lhe dedicámos, aqui no BDBD. 
​Viva Charles (Charlie-Charlot) Chaplin!


A FILHA DE VERCINGETORIX - ​Edição Asa. Autores: segundo René Goscinny e ​Albert Uderzo, tem argumento de Jean-Yves ​Ferry, traço de Didier Conrad e cores de Thierry Mébarki. A tradução para a edição portuguesa é de ​Maria José Pereira e Paula Caetano.
​A feitura deste 38.º álbum da série "Astérix" muito ​deve ter divertido os seus responsáveis, tanto como ​nos diverte a nós, leitores.
Em "A Filha de Vercingétorix" ​há uma certa reviravolta no tradicional desenrolar dos ​enredos… Adrenalina é uma pressuposta filha do ​grande e bravo líder gaulês Vercingétorix. Júlio César ​quer capturá-la para a "romanizar" mas ela, escoltada ​por uns outros fiéis gauleses (que falam com um ​bizarro sotaque, assim a modos que o mesmo idioma, ​mas tipo "o português" e "o galego"), é entregue ​à protecção da famosa aldeia irredutível que todos conhecemos. O tema cedo salta para o confronto de gerações e é um ver se te avias na balbúrdia de acertadas ironias que se vão desenrolando.
​Adrenalina é rebelde, corajosa e frontal. Enfrenta tudo e todos e o seu ego de "nariz arrebitado" a todos confunde. Seus mais directos parceiros são dois adolescentes da aldeia, o Blinix e o seu irmão mais petiz, Surimix, e o ​Selfix. Astérix, Obélix e o cachorrito Ideiafix, são quase secundários… De resto, Adrenalina, pensa escapar-se para bem longe desse mundo "antigo, estagnado e ​acabado"... Escapa-se dos Romanos (que, volta não ​volta, levam uns bons sopapos da parte de quem ​sabemos), enfrenta um certo gaulês (bruto e espião ​de César) e, pela sua firmeza, quase "domestica" os ​sempre infelizes piratas…
Ilesa de "todos os perigos", ​apaixona-se por um ecologista bretão, um tal Letitbix ​(nome inspirado na canção "Let It Be" dos Beatles), e ​ambos navegando e abordando pelas mais diversas ​geografias, adoptando crianças desvalidas pelo caminho ​(tipo gesto de Josephine Baker ou do breve casal Angeline ​Jolie/ Brad Pitt)...
​Indica-se, numa certa conveniência de "marketing, que é a obra da série onde uma figura feminina se demarca. É ​uma meia-verdade apenas, pois há pelo menos três ​mulheres que são frequentes: Bonemine (a "primeira dama" ​da famosa aldeia), a boazona da Sra. Agecanomix e a bela ​Falbala (por quem Obélix chegou a estar apaixonado) que ​veio a casar com Tragicomix. Outros personagens ​femininos existem na série, mas são, na verdade, de menor ​relevo.
​Um belo e conveniente álbum, com múltiplas alusões, da série que todos amamos, mesmo aqueles de fígados amargos… Bravo!


HOMO INVENTOR - ​Edição Escorpião Azul. Autor: Lança Guerreiro.
​Finalmente, o primeiro álbum da autoria de António ​Lança Guerreiro!... Já não era sem tempo! Em "formato italiano", o "Homo Inventor, Quando o ​Homem se Pôs a Inventar", agradou-nos plenamente.
​Com a ironia característica de Lança Guerreiro, narra as aventuras de uma família troglodita (um casal e três filhos, mais o avô que tudo confunde, sobretudo com os ursos) e que, ante situações drásticas, vai inventando o progresso: a pesca, a roda, a aplicação do fogo, o vestuário, a jangada para navegar, o domar dos cavalos, os primórdios da medicina, etc.
Para além de divertir, o álbum tem também uma positiva linha didáctica, em especial para os mais novos.
Este álbum foi lançado no Festival "Amadora-BD/2019".
​Parabéns, Lança Guerreiro!

LB

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

BREVES (76)

OLRIK, ​POIS!




A revista "Casemate" de Novembro, para além de todas as habituais notícias, comporta em destaque, uma importante reportagem sobre Olrik, o eterno inimigo de estimação de Blake e Mortimer, da autoria de Herbert Védrine e Laurent Védrine (pai e filho).
Isto, ao mesmo tempo que se anuncia o livro de que são autores, "Olrik, la Biographie Non Autorisée", pelas edições Fayard.
É um curioso desmantelar das opiniões precipitadas sobre este sinistro personagem que E.P. Jacobs inventou...
Olrik, pois!



UM LUÍS LOURO NECESSÁRIO
Sendo um dos mais significativos e actuais valores da Banda Desenhada nacional, Luís Louro, tem muitas obras suas esgotadas. A pedir uma necessária reedição? Por que não?
Por outro lado, tem uma boa dose de histórias curtas espalhadas por publicações soltas que pedem uma edição compilada em álbum: "Nelsinho", "O Souvenir", "O Pesadelo", "Sonho na Praia", "Fuhrer 1985", "Game Over", "Estupiditia.2" e "Os Fugitivos".
Alguma editora nossa pensará nelas para um merecido álbum?
Estamos só a lembrar...



OUTRAS BANDAS #1
O fanzine Outras Bandas, do colectivo informal de banda desenhada Tágide, regressa com uma nova edição antológica após o número de estreia (#0), apresentado no XV Festival BD de Beja.
Ao contrário da edição anterior, composta maioritariamente por obras curtas feitas para concursos de BD, este #1 inclui contos originais, alguns destes assinados por outros autores da margem sul que começaram a frequentar os encontros Tágide, os quais continuam a decorrer quinzenalmente no Montijo.
O Outras Bandas desafia os talentos locais (e não só) a criar novas obras auto-conclusivas em BD, em tira e prancha humorística, conto ilustrado ou a partilhar uma selecção de desenhos em galeria temática, assim promovendo os autores e respectivos criações, mostrando no processo o que de melhor se faz em arte sequencial por estas bandas...
As edições podem ser solicitadas aqui.


EXPO "BOULE ET BILL"
Decorre até 31 de Dezembro no Musée de la Bande Dessinée, em Bruxelas, uma sedutora exposição dedicada à
série "Boule et Bill", a propósito dos 60 anos do nascimento desta terna e divertida série criada pelo belga Jean Roba (1930-2006).
Uma exposição a visitar por aqueles que puderem ir até à capital da Bélgica.



ANIVERSÁRIOS EM DEZEMBRO




Dia 01 - Joe Quesada (estado-unidense)
Dia 06 - Rafael Sales
Dia 13 - Leo (brasileiro) e José Carlos Francisco
Dia 15 - Carlos Zíngaro, Zep (suiço) e
P. Trust Truscinski (polaco)
Dia 17 - Fabrice Néaud (francês)
Dia 24 - Mark Millar (escocês)
​Dia 20 - Ruben Pellejero (catalão)
​Dia 25 - Irene Trigo
LB/CR

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

NOVIDADES EDITORIAIS (183)

ÉDIPO -Edição Gradiva. Autores: segundo a orientação (e ​não só) do historiador Luc Ferry, tem guião de ​Clotilde Bruneau, arte de Diego Oddi, côr de Ruby, ​capa de Fred Vignaux e tradução de Maria de Fátima ​Carmo. É um álbum da preciosíssima série "A Sabedoria ​dos Deuses".
​Fundamentalmente e pela "lenda de Édipo", este tomo ​é baseado nas tragédias de Sófocles, "Édipo-Rei" e "Édipo ​em Colona", famosíssimas e muito representadas no mundo ​e por todos os tempos. Em 1718, o francês Voltaire, estreou-se na dramaturgia escrevendo uma tragédia homónima, e em 1960, ​o nosso saudoso Bernardo Santareno, glosou à sua maneira este ​tema, com "António Marinheiro ou
O Édipo de Alfama", que ​foi alto êxito num palco lisboeta.
​No Cinema, destacam-se dois filmes "Édipo-Rei": em 1967, com ​realização de Pier Paolo Pasolini, com Franco Citti (Édipo), Silvana ​Mangano (Jocasta) e Julian Beck (Tirésias); e em 1968, ​realizado por Philip Saville, com Christopher Plummer ​(Édipo), Lili Palmer (Jocasta) e Orson Welles (Tirésias).
Mas afinal quem é este Édipo, personagem central e ​tão marcante numa sinistra e tremenda crueldade programada pelo Destino?!…
​Pelo Ensino (em vários tipos) conta-se de raspão e resumidamente, que ele "matou o pai, casou com a mãe e teve um fim trágico"!!… Não é bem assim que se devem ​​citar estes bizarros e repulsivos factos… Entra aqui a eterna confusão, sempre discutível, das forças do Destino com o seu fatalismo a cumprir e o ingénuo Livre Arbítrio do homem. No dossiê final deste álbum, há que ter em conta o texto bem pertinente de Luc Ferry, onde tudo isto é posto em causa. Atenção, pois!
​Édipo foi sempre um inocente perseguido e martirizado. A origem da "maldição" recai em seu pai biológico, o rei ​Laio de Tebas, casado com Jocasta.
O Oráculo de Delfos ​dedicado ao deus Apolo, tinha indicado que Tebas seria ​sacrificada e que o filho mataria o pai e casaria com a mãe.
​Mal ele nasce Laio manda que um servidor o abandone no monte Citerião, onde ele morreria ou seria devorado pela feras. Não foi! Um pastor recolhe a criança e entrega-o a uns homens do reino de Corinto, onde os monarcas (Pólibo ​e Mérope), que desejavam e não podiam ter filhos, logo o adoptaram e o criam e educam como príncipe herdeiro.
​Todavia, nunca as situações foram resolvidas pelas certezas humanas, mas sim pelos incompreensíveis caprichos do ​Destino… Édipo, vindo a saber deste amargo Oráculo, ​escapa-se para evitar tais crimes… Dirige-se a Tebas e, ​pelo caminho, trava um duelo com uma pequena comitiva, matando quase todos, entre eles o rei Laio (que ele não ​sabia que era o seu verdadeiro pai). Prossegue e vence e ​extermina a terrível, mortal e enigmática Esfinge.
Aclamado ​herói e rei, cedo acaba por casar com a viúva Jocasta, donde ​resultam quatro filhos: Antígona, Isménia, Esteócles e ​Polínices. Porém, Tebas não tinha chegado ao fim do que ​estava divinamente decidido. O Oráculo é-lhe repetido.
O ​pastor que o recolhera e o rescapado da escaramuça que ​matou Laio, tudo confirmam, mais as palavras sabedoras do adivinho cego, Tirésias: Édipo é o verdadeiro filho de Laio e de Jocasta!... É a hecatombe de todo um horror!
Jocasta enforca-se. Édipo, cega-se e, no seu exílio deambulante e implacável, decretado por seu tio Creonte (irmão de Jocasta), agora rei de Tebas, parte um tanto à deriva, apenas acompanhado e guiado por seu filha Antígona, que jamais o abandona, vindo a morrer em Colona, sob a aquiescência benévola do rei de Atenas, Teseu.
Édipo, sem qualquer culpa, sofreu de um modo bem caro, a maldição fatal que fora proclamada sobre Laio. É aqui que está o início de toda a tragédia, não explicada nem por Sófocles nem por Luc Ferry. Aí vai: Laio, quando jovem nobre e por certas circunstâncias, foi protegido por Pélope (rei de Pisa). Porém, Laio, sem pensar e ultrapassando-se, apaixonou-se perdidamente pelo ​adolescente Crísipo (filho do seu protector), que o repudia. Então, rapta-o e viola-o (o que consta numa certa tragédia de Eurípides). Crísipo suicida-se e Laio foge para Tebas, onde… ​onde a tragédia vai prosseguir…
​Para quem não sabe, pederastia e pedofilia, são coisas bem diferentes, pois a pedofilia era sempre condenável, enquanto ​a pederastia era aquela ligação conveniente e oficialmente ​apoiada, onde o "erastes, o adolescente, TUDO ia aprender com ​o adulto ou "eromenos". Mas sempre com um acordo mútuo.
​Laio não aceitou a recusa de Crísipo... e do que aconteceu, o ​deus Apolo largou

o seu furor.
​Édipo, apanhado neste terrível anátema, acabou por ser um pobre sofredor com horrorosas angústias. Bem procurou fugir ao fatalismo, mas…
Obrigado, Gradiva, por esta obra-BD!
​Creio que pertence à opereta "José do Telhado", mas, não há por aí um bonito fado que canta "ninguém foge ao seu destino"?!... Será?...

LB

domingo, 3 de novembro de 2019

HERÓIS INESQUECÍVEIS (68) - TOM VITOÍN

Divertidíssimo, Tom Vitoín, é um herói motard (o ​termo "motoqueiroé desagradável e quase insultuoso ​para os ditos motards).
Foi imaginado e criado por ​Luís Pinto-Coelho, ele mesmo, também um motard​que neste plano, tem um colega, Sergei, que desenha ​outros temas.
​Pois Tom Vitoín e Luís Pinto-Coelho confundem-nos: ​nunca se sabe onde acaba um e começa o outro e vice-versa. Tudo porque o nosso amigo autor se baseia em situações que ele próprio viveu, ou de seus companheiros de estrada.
Sempre, claro, com um pândego toque de salutar humor.
Luís Pinto-Coelho
​Luís Pinto-Coelho (não confundir com o seu parente homónimo, que é pintor de renome e, cremos, reside ​em Espanha), nasceu em Lisboa a 21 de Fevereiro de 1959. É convictamente monárquico. Cursou Engenharia no ​Brasil, onde viveu de 1975 a 1979.
Por cá, cursou Fotografia. ​Nesta arte foi trabalhando, como também no design gráfico, ilustração, cartune e, enfim, banda desenhada.
​Colaborou para diversas publicações, como "Moto-Jornal" e "Motociclismo", bem como para "Só Clássicos" e para o ​sítio "Andar de Moto".
Foi um dos convidados especiais de ​uma das edições dos salões "Sobreda-BD" e teve uma exposição individual patente no salão Moura BD, em 2001.
Luís Pinto-Coelho numa foto de grupo tirada no salão Moura BD, em 2001
​No seu currículo mais notável, registam-se seis álbuns da série "Tom Vitoín" e dois, em parceria com Elisabete Jacinto, "Os Portugas no Dakar".



Vamos lá então ao tão bem concebido herói:
​Foi em 1992, para a revista "Motociclismo", que houve o parto da série "As Odisseias de um Motard - Aventuras e Desventuras de um Motociclista Português".
​Tom Vitoín, era e é o apreciado herói, às vezes um tanto desastrado, mas que sempre se desenrasca. O grande registo, é que Tom Vitoín, desde o início, logo conquistou uma bem larga margem de bedéfilos entusiastas.
​Sob traço fino e cativante na aventura e no humor, é um herói-BD português, como português é o seu criador.
​E agora, Luís Pinto-Coelho?... Vamos continuar com este ​já estimado Tom Vitoín?
LB

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

HERÓIS INESQUECÍVEIS (67) - TÓNIUS

Também conhecido como Tónius, o Lusitano, este ​herói da BD Portuguesa, tão divertido como ​atrevido guerreiro, teve vida quase efémera.
E ​curta foi também a vida do seu sempre inspirado desenhista, André (aliás, José Maria Ferreira ​André, 1939-1993).
Infelizmente, até ao momento, ​não conseguimos obter uma foto de André!... Mas ​conhecêmo-lo pessoalmente numa das primeiríssimas edições das "Sobreda-BD".
Gemadinha, da época da Pré-História, é outro herói ​divertido também desenhado por André, para a ​saudosa revista-BD "Visão". Mas foi Tónius que o​ celebrizou.
​É em 1979, no início da 2.ª fase da edição portuguesa ​da revista "Spirou", que nasce Tónius, com argumento ​de Fernando Tito e arte de André. Foi então (e é) o ​episódio "A Truta de Ouro", também reeditado no "Jornal ​da BD". Nunca foi editado em álbum, excepto em países ​além-Pirinéus!
Capas das revistas "Spirou" #1 (2ª fase) (10.04.79) e "Jornal da BD" #115 (16.10.84)...
...e duas pranchas da primeira aventura de Tónius.

 Capas de edições estrangeiras (Holanda e Finlândia) com a aventura de Tónius, "A Truta de Ouro".

​Em 1985, o segundo episódio: "Uma Aventura nas Astúrias" ​no "Jornal da BD"...
Capa da revista "Jornal da BD" #159 (20.08.85)

...e, pelas Edições Publica, em álbum, aliás ​o único que existe entre nós (e, cremos, que esgotado).
Capa de "Uma Aventura nas Astúrias", por André (desenhos) e Tito (argumento)
Editorial Publica (1981)

Depois veio o terceiro episódio (em que ano?...), "A Invas​ão ​dos Alfa", que permanece inédito (incrível!!!...) em Portugal, ​mas que foi publicado na Bélgica.
​André e Fernando Tito programaram mais dois episódios: "A ​Pedra do Norte", que ante o argumento todo feito, só teve ​seis pranchas desenhadas; e "Tónius e as Sete Maravilhas do ​Mundo", que se ficou apenas por… uma ideia!
​Nestas desaventuras do próprio Tónius, os seus criadores ​traíram-no, pois abandonaram esta série por estranhos ​"desaguisados" (entre ambos ou com a editora prevista?)... Que mágoa esta inesperada desistência!
No entanto, Tónius, ​foi editado em Espanha, Bélgica, Holanda e Finlândia. Parabéns, Tónius!
​Pormenores pertinentes:
​1 - Tónius vive com todos os seus na aldeia Pedróbiga. Seus grandes companheiros: Chicolindus e Tigágus; seu "chefe" da ​aldeia, Herminius, e ainda, o vidente Videntius. Como rival ​directo, o manhoso árabe Mohamed Ali Vou Já.
​2 - A bravura de Tónius inspira-se noutro (mas real) honroso ​lusitano, Viriato. Agora, a "guerra" não é contra os Romanos ​(a época já fora!), mas sim, contra os Moiros (até hoje, sempre ​ávidos de tudo).
​3 - Um erro venenosamente propagado pelos imbecis: há uma tendência fácil e impensada de se comparar a série "Tónius" de ​André / F.Tito à de "Astérix" de Goscinny /Uderzo!... Que ​precipitação tão pouco pensada!... Na verdade, há um certo paralelismo e alguma inspiração entre Tónius e Astérix, mas são mais paralelos do que convergentes:
a) ​Ambos vivem com todos os seus, em aldeias resistentes e isoladas: os Gauleses contra os Romanos, os Lusitanos (já na Idade Média) contra os Árabes/Moiros.
b) Astérix e companhia (excepto o Obélix), para terem força, ​têm de beber a fantasiosa "poção mágica", enquanto que ​Tónius se serve apenas na sua perícia de usar a funda (tipo ​fisga) e da astuta valentia dele próprio e dos seus.

​Obrigado André e obrigado Fernando Tito, por este tão ​divertido, encorajador e inesquecível herói da Banda Desenhada Portuguesa, o Tónius!
Fica a nossa pergunta, qual libelo acusatório: para quando as três aventuras deste herói, em álbum?!...
LB

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

AS HISTÓRIAS QUE RESIDEM NA GAVETA (15) por José Ruy

Ao abrir a gaveta onde repousam algumas histórias que não viram o brilho da publicação, surgiu-me uma que idealizei fazer por volta de 1980, «O Andarilho das Sete Partidas». 
Trata-se de uma peça de teatro de autoria do escritor Romeu Correia, e publicada em livro, mas curiosamente nunca levada à cena. 
Nessa altura colaborava muito com a Câmara de Almada em eventos culturais, e fiz alguns com o Romeu Correia, principalmente sobre a «Peregrinação de Fernão Mendes Pinto», que realizara em Quadrinhos.
Na foto acima, uma das sessões em que estamos a palestrar. O Romeu Correia era um orador exímio e contava histórias com muita graça e interesse. 
Estamos num antigo mercado da fruta e do peixe, transformado em «Oficina da Cultura», em Almada. 
Falamos de Fernão Mendes Pinto, por isso a decoração com barris e cordame. 
Nesse espaço fiz em outra altura, com o Fausto Bordalo Dias, um evento em que desenhei uma figura do herói da Peregrinação enquanto ele tocava um dos quadros de «Por Este Rio Acima». 
Mas isso é outra história.
A peça de teatro de Romeu Correia é sobre a vida de Fernão Mendes Pinto em Almada, depois do seu regresso da longa peregrinação pelo Oriente.
Com base em dados históricos, o dramaturgo descreveu em detalhe a época em que o marinheiro passou a escrito a sua vivência no Oriente durante 21 anos, numa crónica que é hoje uma obra prima da nossa literatura.
Como, entretanto, criara laços de amizade com ele, combinámos transformar em Quadrinhos esse texto. Comecei a esboçar os desenhos e a adaptar a escrita. 

Os esboços foram lançados muito rudimentarmente, apenas para implantar em cada vinheta a atitude das personagens e alguma presença de elementos para criar o ambiente da época.
Apresento duas páginas, o suficiente para poderem avaliar o texto, muito bom, do Romeu Correia.

Esta história iria completar a «Peregrinação» em BD que a Meribérica acabara de publicar, e tinha interesse precisamente por isso. Mas meteram-se outros trabalhos na minha agenda, o Romeu Correia faleceu, e ainda em vida da viúva com quem me dava bem, pensámos realizar o projeto. O tempo foi passando, a própria Meribérica desativou-se e os esboços ficaram por isso mesmo, na gaveta. 
Ainda hoje, quando trago à luz do dia este assunto, sinto algum entusiasmo em continuar o projeto. Daria uma boa história. 

No próximo artigo mostrarei mais um argumento «encalhado» e a história que o rodeia.

domingo, 20 de outubro de 2019

NOVIDADES EDITORIAIS (182)

VOLTAIRE - Edição Casterman. Autores: argumento de Philippe Richelle e arte de Jean-Michel Beuriot.
"Os animais têm muitas vantagens sobre os homens: não precisam de teólogos para instrui-los, seus funerais saem de graça e ninguém briga por testamentos".
Ou: "Os reis são para os seus ministros como os cornudos para as esposas: nunca sabem o que se passa".
Ou ainda: "Somos todos malucos. Quem não quer ver malucos, deve quebrar os espelhos".
Estes são três dos imensos Pensamentos de Voltaire, o expoente máximo do Iluminismo (dito Século das Luzes ou dos Filósofos) francês.

Nasceu em Paris a 21 de Novembro de 1694, onde faleceu a 30 de Maio de 1778. Seu nome completo era François-Marie Arouet, mas foi sob o pseudónimo de Voltaire que se celebrizou mundialmente e para todo o sempre.
Filósofo e incansável escritor (poesia, prosa, teatro, ensaios filosóficos, etc.), foi anticlerical, guiava-se pela Razão e sempre se mostrou acérrimo na defesa das liberdades individuais e no combate aos regimes absolutistas, à censura, ao obscurantismo dos cleros e à hipocrisia da nobreza. Adiante do seu tempo, era mordaz, arguto, libertino (nunca casou nem teve filhos, mas apaixonou-se muitas vezes, tanto lhe servindo solteiras como casadas) e, quando por vezes resvalava num equívoco de qualquer tipo, logo dava a volta e saía por cima.
Esteve duas vezes preso na degradante Bastilha e três anos exilado em Inglaterra, tendo passado também três anos na Prússia, a convite de Frederico II, que muito o admirava.
Ficou muito chocado com a desgraça do terramoto de Lisboa em 1755, facto que ele regista na sua obra mais famosa, "Cândido ou O Optimismo".
Mandou limpar e lavrar as suas terras em Ferney, para assim dar emprego a muito povo que vivia na probreza.
A sua primeira obra de vulto foi a peça "Édipo" em 1718.
Colaborou com Diderot e D'Alambert para a "Enciclopédia", mas detestava o filósofo Jean-Jacques Rosseau. A Igreja ordenou que o seu corpo fosse atirado para a vala comum, mas à noite, seus amigos, recuperaram-no e enterraram-no secretamente na abadia de Sullières e, quando da Revolução Francesa, foi enfim e merecidamente, transferido para o Panteão.
Este álbum-BD, "Voltaire, le Culte de l'Ironie", é encantador e magestoso pelos dados históricos (bem documentados pelo argumentista Richelle) sobre a vida, a filosofia e a obra de Voltaire, que inventa, Richelle, um jovem secretário-biógrafo do notável personagem e que o vai entrevistando ao longo do álbum. Por sua vez, o desenhista Beuriot, nesta obra, experimentou-se (com perfeito resultado) na aplicação de cores directas em aguarela. Magníficos ambos!
Eis um álbum fundamental para se ler em português!...




LES TROIS MOUSQUETAIRES - Edição Glénat. Autores, segundo Alexandre Dumas (Pai): argumento do italiano Fabrizio Lo Bianco, traço do venezuelano Andres José Mossa e capa do francês Chris Reguault.
"Os Três Mosqueteiros", a par de "O Conde de Monte-Cristo", é a obra mais popular de Alexandre Dumas, variadíssimas vezes adaptada ao Cinema, Televisão, Teatro e Banda Desenhada. Foi inicialmente publicada, como folhetim diário, no quotidiano "Le Siècle", de 14 de Março a 14 de Julho de 1844. O triunfo popular foi imediato e ainda hoje, continua a galvanizar leitores e/ou espectadores. Aplausos!
Este álbum encerra com um dossiê versando a vida e a obra de Alexandre Dumas, por Françoise Langrognet.

LB

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

TALENTOS DA NOSSA EUROPA (40) - LUCIEN DE GIETER (Bélgica)

Lucien de Gieter
Nascido em Etterbeck (Bruxelas) a 4 de Setembro de 1932, Lucien De Gieter, é sobretudo famoso pela sua bela série "Papyrus".
Papyrus é um corajoso jovem (do Antigo Egípcio) que, salva a vida da princesinha Théti-Chére, resultando daí uma grande amizade (quiçá o amor no futuro…). Ambos vão viver espantosas aventuras que já abarcam mais de uma trintena de álbuns.
Mas, De Gieter, tem boa obra tanto anterior como posterior, à série "Papyrus". Por exemplo: "Les Déboires d'un Âne"...

"Pony"...
 

"Mission au Nouveau Monde"...

...e "Tôôt et Puit".

Em alguns títulos da sua vasta obra, De Gieter, foi apenas o argumentista, como foram os casos de "Rapataban" (com arte de Francis), "Ali-Bibi (com arte de Kiko) e "Les Barbus de Moslavie" (com arte de Eddy Ryssac).
Verdadeiramente dado à linha humorística, também participou em álbuns colectivos, como "Chansons Paillardes", da série atrevida e picante, "Chansons Cochonnnes " (Canções Porcas).

Lucien De Gieter chegou a colaborar fugazmente para as séries de Peyo, "Les Schtroumpfs" e "Poussy".
Este divertido criador belga, cursou no Institut Saint-Luc de Bruxelas.

Participou como decorador na Exposição Universal de Bruxelas (1958) e, por uns tempos, lançou-se na estética industrial. Desenhou algumas histórias curtas e, devido a um anúncio, em 1961, da revista "Spirou", procurando argumentistas, atreveu-se e venceu. Já no ano seguinte, estreia-se como desenhista, com a série "Pony". 
Em Janeiro de 1974, nasceu a sua série "Papyrus", que logo conquista o gosto e a apreciação total dos bedéfilos. Registou-se como a série-talismã da carreira de De Gieter.
 
 
E o triunfo popular foi tão imenso, que em 1998, passou à versão Cinema de Animação, numa série televisiva dirigida por Michel Gauthier.
LB
O primeiro episódio da série "Papyrus"