segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

AS HISTÓRIAS QUE RESIDEM NA GAVETA (17) por José Ruy

Continuamos a contar as peripécias de uma das histórias encalhadas da «Gaveta», «A História da Cruz Vermelha Internacional» em Quadrinhos. 
No artigo anterior expliquei como fui convidado a realizar em Quadrinhos o funcionamento dessa Instituição Humanitária.
Regressado de Genève passei a enviar pelo Correio os esboços com o texto em português, e na Suiça o Jean Jacques Surbeck traduzia para a língua francesa.
Como eu precisava de ter as traduções das 10 línguas para calcular com precisão o espaço a deixar em cada «balão» no desenho definitivo, criou-se um impasse, pois essas traduções estavam a ser feitas pelos delegados do CICR (Comité International de la Croix Rouge) em ação na Europa, África e Ásia. Mas só quando cada um voltava à Suiça para entregar relatórios, podia dedicar-se a fazer as traduções, o que demorava e começou a ser difícil reunir todas as línguas para poder avançar com os desenhos definitivos da história.
Jean-Jacques Surbeck que tinha urgência no trabalho, mas compreendia que não podíamos avançar de outra maneira, impacientava-se e resolveu convidar-me para voltar ao CICR para reajustar o nosso projeto.
Para abreviar a iniciativa, combinámos fazer de imediato uma quadrinização mais curta para mais rapidamente ser editada, e cumprir o objetivo. 
Propôs-me o Surbeck que permanecesse 4 semanas no CICR, num gabinete contíguo ao dele, para assim podermos completar essa história. 
Assim o livro grande podia ir seguindo noutra cadência, conforme a disponibilidade dos delegados envolvidos. 
Comecei a esboçar com minúcia esse resumo, sobre o CICR e a Liga. 
Na primeira prancha coloquei Henry Dunant horrorizado ao presenciar a batalha de Solferino, mas no Comité acharam que ficaria melhor fazer o retrato dele de uma maneira mais digna, como acabei por fazer na imagem ao lado.
 
Também nesta página onde mostro as instalações do CICR e da Liga, resolvemos alterar e criar uma projeção da CRUZ.

Programei fazer seis das línguas com a minha letra, português, espanhol, italiano, francês, inglês e alemão.
O chinês, o russo, o hebraico e o árabe seriam fornecidas legendas pelos próprios paízes.
Ao fim das quatro semanas…

No próximo artigo: uma surpresa inesperada.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

VARIANDO COM JEAN GRATON

Jean Graton
O famoso francês Jean Graton nasceu em Nantes a 10 de Agosto de 1923.
É sobejamente conhecido e popular pela sua longa série com as aventuras do piloto automobilista, Michel Vaillant. Este autor visitou várias vezes Portugal, onde localizou algumas aventuras do seu herói por excelência.
Mas Jean Graton tem no seu vasto currículo muitas histórias curtas onde varia (e bem) das BD's barulhentas e motorizadas.
Nestas variações, abordou os mais diversos temas, desde o policial, aventuras exóticas e por sedutores mares, os duelos de capa-e-espada, o western, biografias, etc.
Dada a extensão destas variações da arte "gratoneana", salientam-se apenas uns quantos exemplos notáveis, dos quais alguns foram também publicados no "Cavaleiro Andante". Ora aqui vão eles, só para vos espevitar o apetite:

LE BOUCLIER NOIRE, publicado na revista "Tintin", em 1955, e inédito em português. É a adaptação do filme, estreado nesse ano no Cine-Teatro S. Luís de Lisboa, realizado um ano antes por Rudolph Maté e com Tony Curtis e Janet Leight nos principais papéis.

DUELO AO LUAR, localiza-se na romântica e misteriosa Veneza, no século XVIII. Uma história bem cativante, publicada no "Cavaleiro Andante" n.º 178.

GROCK, publicada no "Cavaleiro Andante" n.º 188, relata a vida de Grock (aliás, Adrien Wettack), um dos maiores e mais talentosos palhaços de todos os tempos.

RABINTHRA, é uma aventura exótica localizada na Índia.

VIVA A LEGIÃO!, publicada no "Cavaleiro Andante" n.º 142, narra as aventuras da heróica Legião Estrangeira nos seus sacrificados desempenhos no norte de África. Magnífico relato!

A DILIGÊNCIA DE FAVERSTONE (no "CA" n.º 153)...

... e AJUSTE DE CONTAS EM SILVER CITY (no "CA" n.º 163) são as únicas (que conheçamos) de Graton a apostar no western.

O ALEGRE ESPADACHIM, publicada no "CA" n.º 119, regista, mais uma vez, o talento de Graton pelas aventuras de capa-e-espada.

Em SHERLOCK HOLMES, publicada no "CA" n.º 180, é o clima policial que vigora, com especial relato sobre a vida (e o fim?) do famosíssimo detective imaginado por Arthur Conan Doyle.

LOUIS BLÉRIOT (1872-1936), francês, engenheiro e destemido aviador para a época. Voando, fez a sua aventura de França para Inglaterra. História publicada no "CA" n.º 150.

JACK LONDON (aliás, John Griffith Chaney, 1876-1916), um norte-americano jornalista e romancista, procurando quase sempre viver primeiro sobre o que queria escrever. Bravo!

ALAIN GERBAULT (1893-1941). Exemplar e corajoso autor francês, mas sobretudo navegador solitário, atreveu-se a amar e a contradizer os caprichos dos mares. Faleceu em Dili (capital do então Timor Português) a 16 de Dezembro de 1941.

​Com estes doze exemplos, quase ao acaso, por aqui se termina o variar na arte de Jean Graton.
LB

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

NOVIDADES EDITORIAIS (187)

BLACK PROGRAM - ​Edição Lombard. Autores, segundo Louis Albert (dito, ​Greg; 1931-1999) e William Vance (1935-2018): ​Laurent-Frédéric Bollée (argumento), Phillipe Aymond (traço) e Didier Ray (cores).
É o regresso tão esperado de ​Bruno Brazil, agora em novas aventuras com este primeiro ​tomo, "Black Program". Aos originais criadores belgas, ​sucedem agora os franceses.
​Numa certa época passada, e não muito distante, pela ​"escola franco-belga" surgiu uma bela fornada de heróis ​que entusiasmou uma imensidão de bedéfilos: Bob ​Morane, Jean Valhardi, Bernard Prince, Bruno Brazil, Luc ​Orient e, até certo ponto, o "italiano" Corto Maltese.
Com ​continuadores, prosseguem as aventuras de Morane e de ​Maltese. Hermann ainda agarrou para um álbum, o seu Prince… 
Brazil, Orient e Valhardi, ficaram "arrumados".
​Ficaram mesmo?!…
​Em relação a Bruno Brazil e o seu famoso "Comando Caimão", houve uma constante avalanche de pedidos ​para que a série não terminasse.

Pois ela aí está, bem ​reaparecida e em tempos mais recentes.
​Do "Comando Caimão", três elementos faleceram em álbuns anteriores: Big Boy Lafayette, Billy Brazil e Texas Bronco (pois, os heróis também morrem…). Dois ​estão agora seriamente acidentados: Whip Rafale ​(paraplégica) e Tony Nomade (neozelandês, com uma ​prótese numa das pernas e que, numa vida de estranha ​ladroagem, adoptou pinturas e trajos do povo maori). Por ​sua vez, o garoto órfão tailandês, Maí, adoptado pelo casal Gina-Bruno, é agora um adolescente com as suas ​incómodas modernices… Intactos da equipa famosa, apenas Bruno Brazil e Gaúcho Morales. Por insistência ​do Coronel L., Brazil recupera os acidentados Whip ​Rafale e Tony Nomade, para uma "ressureição" do "Comando Caimão"...
​A situação está violenta e inquietante, num enredo ​agitado através da espionagem, do policial e da ​ficção-científica. Tudo bem, excepto no traço de ​Aymond que, se bem que aceitável, está longe do ​belo estilo de Vance.
​Recorde-se que da série "Bruno Brazil", William Vance ​desenhou dez grandes narrativas (só três com álbuns ​em português!...) e cinco curtas, tendo deixado uma ​história inacabada, "La Chaine Rouge".
​Vamos aplaudir o regresso de Bruno Brazil? Claro!



HUMANUS - ​Edição Escorpião Azul. Autores: é um colectivo que ​engloba trinta e sete autores.
Um álbum terrível na ​corajosa aposta da editora em questão.
Um notável ​panorama da nova Banda Desenhada nacional (e não só).
Uma força exemplar na divulgação da 9.ª Arte!
​Diverso e atento aos mais variados estilos, nele figuram, ​entre muitos outros, valores como Rui Lacas, Agonia Sampaio, Rafael Sales, Lança Guerreiro, Paulo Monteiro, João Vasconcelos, Jorge Deodato (ele próprio, que é o coordenador desta editora), Álvaro, Derradé, Mário Teixeira, Sharon Mendes, Patrick Caetano… e por aí adiante.
​Indignações, insólitos, ternuras, ironias e tudo mais, tudo aqui nos deslumbra.
Um álbum a descobrir e a ler!


O PISTOLEIRO DO FUTURO - ​Edição Escorpião Azul. Autor: Pedro Lopes.
​É uma obra surpresa, nossa e na vertente western, num só tomo! Com a sátira bem camuflada, registe-se.
​E está lá toda a poeirada, toda a pistolada e todos os ambientes e situações que normalmente vemos, isoladamente, na BD, no Cinema e na Televisão.
Pedro Lopes (é mesmo nascido nos Açores?...) marca aqui bem a sua interessante "doideira", onde, para quem o entender, se afirma num certo e subentendido ​sarcasmo em todas essas fantasiosas demonstrações de ​"heroísmos" que têm o fedor dos bisontes, quadrúpedes ​tão sacrificados (tal como os tais "índios"), que nada têm ​a ver connosco. As lezírias ribatejanas, seus toiros e seus garbosos campinos, nada têm a ver, com essa aberração de nação convencida que tem a capital na cidade de Washington.





O NOSSO MUNDO ESTÁ A ARDER - ​Edição Oficina do Livro (grupo Leya). Autora: Jeanette Winter.
Seguindo a justa onda de acusações da adolescente sueca (já passou fugazmente por Lisboa) Greta Thunberg, esta não é bem uma publicação de Banda Desenhada, mas está bem perto, daí que, seja seriamente aconselhada a sua atenta leitura.

LB

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

CENTENÁRIO DE UM GIGANTE: ETCOELHO (10)

Por: José Ruy

Como tem acontecido mensalmente, durante todo este ano de 2019, o Clube Português de Banda Desenhada promove mais uma exposição com obras do grande Ilustrador português Eduardo Teixeira Coelho.
Os temas escolhidos para o mês de dezembro são: «As construções de armar», «O histórico», «O infantil», «O religioso», «A fantasia» e a «Mitologia».
Fecha-se assim este ciclo de exposições que o BDBD gentilmente acompanhou de perto desde janeiro de 2019.
A exposição abre amanhã, 7 de dezembro, na sede deste Clube, Avenida do Brasil, 52 - A, na Amadora, a sete minutos a pé da estação de Comboio e Metro, da Reboleira, ás 16 horas. Nesse dia haverá uma palestra neste local pelo Dr. Guilherme d’Oliveira Martins, e outra pelo Eng.º António Mimoso.
No dia 21 de dezembro, serão oradores o Dr. António Martinó e José Ruy.
Podemos também anunciar que, em março de 2020 na Ilha Terceira, berço de ETCoelho, no Instituto Açoriano de Cultura, vai estar patente uma exposição de originais deste artista singular, completada com quadros da sua obra, cedidos pelo CPBD. Será acompanhada de palestras sobre ETCoelho e o seu inovador processo de trabalho.

O CPBD apresenta os seus melhores agradecimentos ao BDBDBlogue pela divulgação que tem vindo a fazer, destes eventos.




terça-feira, 3 de dezembro de 2019

NOVIDADES EDITORIAIS (186)

LES HELVÈTES - ​Edição Casterman. Autores, segundo Jacques Martin: ​argumento de Mathieu Breda e arte de Marc Jailloux.
​Em vida, mestre Jacques Martin, já tinha uma sinopse para esta narrativa, mas não a desenvolveu. Coube agora aos autores deste 38.º tomo da série ​"Alix", o resultado de "Les Helvètes" (Os Helvécios, ​ou Os Suíços). Uma aventura bem conseguida em ​todos os planos.
​Alix e o seu inseparável Enak, são enviados por Júlio ​César, até aos Helvécios, a fim de juntar esses povos ​à causa romana. Na comitiva, seguem também Audania, filha de um druída favorável aos Romanos, e o jovem Lucius, que não suporta ​Alix, uma vez que este é gaulês e não romano...
​No entanto, da antiga Guerra das Gálias, os velhos ​rancores e os fantasmas do passado, não estão, de ​modo algum, esquecidos e as novas alianças são ​postas em perigo.


JOSÉ DA SILVA CARVALHO: UM LÍDER NO LIBERALISMO - ​Edição: Município de Santa Comba Dão. Autores: ​António Neves (argumento) e Santos Costa (arte).
​"José da Silva Carvalho, um Líder no Liberalismo" relata com plena força didáctica a vida heróica, sofrida e patriótica deste grande português, natural da região beirã de Santa Comba Dão.
Viveu os pânicos das Invasões Francesas, depois a prepotência dos Ingleses que iam transformando Portugal numa colónia britânica e, depois, os abusos ferozes do absolutismo de D. Miguel I... E muito e muito mais.
Exaustivamente documentada, esta obra merece o nosso aplauso, sobretudo pela sua força instrutiva. E é uma salutar mensagem para que os Portugueses não esqueçam a figura e obra deste nosso grande compatriota.


DOMINOS - ​Edição Lombard. Autores: Emmanuel Herzet (argumento), Alain Queireix (traço) e Didier Ray (cores).
Da série "Alpha", criada orginalmente por Renard e Jigunov, este é o 14.º tomo, o quarto e último da "segunda temporada" desta mesma série (a terceira, já se anuncia).
De aventura em aventura, a vida de Dwight Delano Tyler, aliás Alfa, tem-se degradado perigosamente.
Mais do que nunca, ele tem de justiciar sozinho, pois todas as frentes estão contra ele, armadilhando-lhe a existência sem qualquer condescendência.
Alfa, tudo e todos terá de enfrentar, mesmo com algumas atitudes e/ou acções um tanto obscuras, para salvar a sua vida e limpar o seu nome e a sua honra, conspurcados pela veleidade sinistra da política... Mas ele é corajoso e destemido.



O FILHO DO FÜHRER - ​Edição Escorpião Azul. Autor: João Gordinho.
Este jovem lisboeta é um talento já marcante da novíssima geração da Banda Desenhada Portuguesa. Ousado e talvez controverso, está num muito bom caminho.
Neste álbum, "O Filho do Führer", num correcto preto-e-branco, ele vai para um tema inquietante, mas também muito interessante: à paranóia das ambições de Adolfo Hitler (de péssima memória), ele junta uma certa ficção-cientìfica com uns perigosos extraterrestres... Como?... Ora façam o favor de ler este álbum, que foi lançado no Festival AmadoraBD 2019.
Parabéns, João Gordinho! Parabéns, editora Escorpião Azul!

LB