sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A ILHA DO CORVO QUE VENCEU OS PIRATAS (1)

Nota prévia: 
Depois de "A Vida Interior das Redações dos Jornais Infanto-Juvenis", iniciamos hoje uma nova rubrica da responsabilidade do nosso querido amigo José Ruy.
Trata-se de uma espécie de "diário de campo", onde José Ruy nos manterá ao corrente de um trabalho que, neste momento, está a desenvolver sobre a Ilha do Corvo (Açores), situação sem dúvida invulgar na nossa blogosfera, pelo menos no que concerne a um autor tão consagrado.
Ao longo destes artigos, José Ruy mostrar-nos-á pranchas ainda em esboço, esquiços, apontamentos, notas e muitas curiosidades que recolheu na Ilha, até chegar ao resultado final, isto é, ao álbum pronto para ser lido pelo público.
Não duvidamos que esta será mais uma rubrica de sucesso no nosso blogue, em especial entre os corvinos (assim se chamam os habitantes da Ilha do Corvo) que, por certo, seguirão estes artigos com redobrado interesse.
Sem mais delongas, vamos, então, começar.
BDBD 




A Ilha do Corvo que venceu os Piratas

O cocoordenador do Ecomuseu do Corvo, Dr. Eduardo Guimarães, conhecedor e colecionador da minha obra, contactou-me para um desafio: desenvolver em Banda Desenhada um episódio histórico que celebrizou a Ilha do Corvo em 1632.
Explanou-me então o que é um Ecomuseu, por meio de um gráfico simples e claro que partilho convosco.

Palavras suas:
"O Ecomuseu do Corvo é um projeto de intervenção museológica que visa garantir a salvaguarda e a afirmação do património natural, histórico, paisagístico e cultural da ilha do Corvo, nas suas dimensões tangível e intangível, e, concomitantemente, promover o desenvolvimento local e a qualidade de vida da população. Quer
Eduardo Guimarães, numa das muitas
visitas guiadas que me fez aos locais
importantes para a banda desenhada a realizar.
dizer, não se trata de preservar de forma cristalizada e inerte o património mas sim de o mobilizar na construção de um presente e de um futuro melhor para a ilha do Corvo. O desenvolvimento local é um processo voluntário de domínio da mudança cultural, social e económica, enraizado num património vivenciado, nutrindo-se deste e gerando património.
O Ecomuseu do Corvo estrutura-se como um sistema de redes multirrelacionais que articula pólos, recursos e complexos de valor patrimonial, geridos nos respetivos contextos ecológicos e numa perspetiva de desenvolvimento social e local. A Banda Desenhada que José Ruy tem em curso insere-se neste plano".

O Arquipélago dos Açores era habitualmente assolado por piratas argelinos que faziam escravos e roubavam bens.
Numa dessas investidas, os corvinos resolveram fazer frente aos atacantes defendendo-se unicamente com pedras e rudimentares alfaias agrícolas. E de tal sorte que as dez naus pejadas de piratas foram literalmente derrotadas atribuindo-se o feito a milagre da Santa Padroeira.
Este episódio foi escrito pelo padre que testemunhou o sucedido e passado depois a letra de imprensa. O documento chegou aos nossos dias.
Empolgado com mais este desafio criei um argumento, não me circunscrevendo ao episódio histórico, mas aproveitando para descrever a maneira sub-humana como os corvinos no século XVII viviam. O Dr. Eduardo Guimarães forneceu-me vastíssima documentação e delineou deslocar-me à Ilha, que não conhecia, para colher elementos indispensáveis para a obra, o que aconteceu neste janeiro de 2016.
E como um Ecomuseu funciona envolvendo a população, tive a grata oportunidade de interagir com os simpáticos corvinos e corvinas, não só beneficiando do seu generoso contributo para o conhecimento de práticas laborais, como na escolha dos nomes para as personagens, e até nas decisões destas no decorrer do argumento. Também, pacientemente, deixaram-se desenhar, servindo de modelo para as figuras, embora as cenas se passem no século XVII. E foram muitos os preciosos depoimentos que registei.
Faço aqui a comparação do esboço de uma prancha desenhada antes de ir ao Corvo, e a mesma depois do conhecimento adquirido com a visita. Uma coisa é a ideia formada através de fotografias e outra a vivência nos locais da ação. Só desta maneira podemos dar autenticidade ao que pretendemos.
Eis a mesma página ainda em esboço, em duplicado, mas a do lado direito tem já o enquadramento real da paisagem conforme a observei no local.
Percorri os trilhos que as personagens que criei fazem na história, reconstituindo a vila como era no século XVII, com a ajuda preciosa do Coordenador do Ecomuseu e dos especialistas contactados por ele.
Por exemplo, na parte final da página da esquerda há o enterro da personagem que morre; fiz uma alteração na página da direita, pois disseram-me que na época, o caixão era levado em ombros e não por meio de um carro de bois, como mais tarde acontecia.
Irei mostrando aos  nossos leitores do BDBD como este trabalho vai decorrendo, e a participação da população da Ilha.
José Ruy
27 janeiro 2016

4 comentários:

  1. Para quem julga que fazer BD é só desenhar "bonecos", aqui está um exemplo do trabalho por detrás de uma obra!...

    ASantos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro A. Santos, obrigado por dar uma opinião sobre o meu trabalho, o que mostra que viu com atenção esta preparação para a obra.
      Tem razão, sob o que fica visível na arte final, há um «iceberg» de muito suor.
      Só quem faz, como é o seu caso, dá valor.
      Mais uma vez, grato pela atenção.
      Abraço
      José Ruy

      Eliminar
  2. Caro José Ruy
    É possível saber quando será publicada a obra?
    obrigado,
    Mário Lisboa

    ResponderEliminar
  3. Meu caro Mário Lisboa, este livro sobre o Corvo está previsto sair ainda este ano de 2016, por volta de setembro ou outubro. Da minha parte terminarei em agosto.
    Estamos a prever uma distribuição inédita simultaneamente por todo o Arquipélago, além do continente.
    Poderá entretanto ir acompanhando a eVolução da produção neste BDBD Blogue.
    FOrte abraço
    José Ruy

    ResponderEliminar