quinta-feira, 19 de julho de 2018

ENTREVISTAS (29) - CARLOS CARCASSA

Carlos Carcassa

Damos hoje a conhecer aos nossos leitores um autor português (essencialmente de tiras e cartunes), cujo trabalho descobrimos, por acaso, enquanto navegávamos pela net, mas que nos chamou a atenção pela irreverência do seu humor.
Trata-se de Carlos Carcassa, cartunista conimbricense, de quem já aqui apresentámos a sua página de Facebook "Cabeça de Atum Comix", na rubrica "Séries de Tiras BD". 
Vamos, então, à entrevista que nos concedeu, onde a sua irreverência também está bem vincada em quase todas as respostas.

BDBD




BDBD - Pode dizer-nos, em breves palavras, quem é o autor Carlos Carcassa: percurso como autor, projectos que desenvolve (na área da BD e do Cartune), álbuns publicados (se os tiver), prémios que ganhou, exposições, etc... 
Carlos Carcassa (CC) - O Carlos Carcassa é um jovem na casa dos trinta anos, mas com mentalidade de quinze, nascido em Coimbra. Desenha tiras desde os 14/15 anos, embora só há pouco tempo tenha começado a publicar as suas imbecilidades em forma de tiras e cartunes, nas redes sociais. O seu percurso como autor é quase nulo, pois quase sempre desenhou só para si, e por prazer. Nunca ganhou nenhum prémio e nem acha que mereça. 

BDBD - Bem, é a sua opinião, com a qual não estamos obviamente de acordo, caso contrário não estaríamos aqui a entrevista-lo... :) Porquê essa visão tão negativa sobre si próprio e sobre aquilo que faz? Não acredita, verdadeiramente, que haja leitores que gostem do seu trabalho?
CC - Falando um pouco mais a sério, o meu trabalho é, em si, um pouco a visão que tenho de mim e do mundo (o mundo que me desculpe), e é essa visão que me inspira. Já tentei fazer coisas um pouco mais ''limpas'', mas nunca senti que estava a ser honesto comigo mesmo, e isso é algo que me desmotiva. A minha mente é um pouco poluída e revoltada, e não posso fugir a esse facto.
Sim, há algumas pessoas que seguem o meu trabalho, o que me deixa bastante feliz e até me dá alguma motivação. Porém, eu continuaria a desenhar mesmo que ninguém me demonstrasse algum tipo de feedback, como aconteceu durante anos em que deixava as coisas na gaveta. Faço isto por prazer, e é também uma maneira de desabafar e limpar a cabeça.

BDBD - Como e quando surgiu o "Cabeça de Atum Comix"?
CC - A página de Facebook ''Cabeça de Atum Comix'' surgiu no início de 2017, com a intenção de lá publicar tiras, cartunes e desenhos que vou fazendo. ''Cabeça de atum'' era um nome que por vezes a minha mãe me chamava em desespero, quando eu era adolescente, devido à minha indolência em relação a quase tudo o que ela achava importante para mim. Mais tarde, descobri da pior maneira que ela tinha razão em chamar-me isso.
O cabeçalho da página "Cabeça de Atum Comix".

BDBD - Onde foi publicado? Apenas na net ou também em papel?
CC - As minhas tiras são publicadas por mim, com alguma regularidade, nas redes sociais (Facebook- Cabeça de Atum Comix) e (Instagram- @carcassa_carlos). No papel, há uns meses recebi um convite de uma nova revista colaborativa de arte e banda desenhada independente brasileira, chamada ''Pé-de-Cabra'', para enviar algo para eles, o que me deixou muito feliz. Mais feliz fiquei ao saber que uma tira minha tinha sido mesmo publicada na revista, ao lado de trabalhos de mais de cinquenta artistas fabulosos, alguns que até já conhecia e admirava (e admiro) imenso. Aconselho a quem gosta de arte underground e de contracultura a dar uma vista de olhos nessa revista, não pelo meu trabalho, mas pelo trabalho dos outros artistas a sério que lá estão. Também publiquei mais recentemente, num fanzine português muito bonito, que circula no meio metaleiro, cujo nome não vou pronunciar, porque isto é um blogue de respeito - o editor que me desculpe. (risos)

BDBD - Tem consciência de que, quer a linguagem (escrita ou gráfica), quer os temas que escolhe, podem ser interpretados como irreverentes (para não dizer de outra forma) por alguns (ou muitos) leitores. Tendo em conta que o "politicamente correcto" é algo que está na moda, o que o leva a remar no sentido contrário?
CC - Tenho plena consciência de que alguns temas que escolho podem ser considerados politicamente incorretos por muitas pessoas. Com os meus desenhos, tento apenas fazer um tipo humor (chamem-lhe irreverente, sarcástico, deprimente, idiota, sem graça nenhuma, o que quiserem), que, se tiver que passar pelo que é considerado politicamente incorreto, então que passe. Não pretendo desenhar aquilo que as pessoas querem ver, mas sim o que me apetece desenhar, e se houver alguém que goste, então, perfeito. Posso ser só eu, mas acho fascinante a maneira como as pessoas ficam ofendidas com um simples desenho tosco e idiota. E também acho sinceramente que quando algum tipo de arte consegue ofender alguém é porque teve também, de certa maneira, o mérito de pôr a cabeça dessas pessoas a raciocinar, e isso é a principal função da arte, quanto a mim. 
BDBD - Ainda no seguimento do ponto anterior, o seu trabalho já sofreu algum tipo de censura por culpa disso (por exemplo no próprio Facebook)?
CC – Surpreendentemente, ainda nenhuma tira ou desenho meus foram apagados pelo próprio Facebook, o que também pode ser sinal da irrelevância que têm para as pessoas. Mas já fui bastante maltratado em comentários e até banido de alguns grupos de Facebook, devido ao conteúdo de algumas tiras que lá publiquei, o que me deixou muito feliz. 

BDBD - Dentro dessa linha underground que prefere, há algum autor português que também admire?
CC - Os meus autores favoritos são, na sua maioria, brasileiros e norte-americanos, mas tenho admiração por alguns portugueses que têm algumas coisas nessa linha, como são os casos do João Fazenda, do Luís Louro e do Nuno Saraiva, dos quais tenho alguns álbuns, embora sejam autores que já não sigo há algum tempo.

BDBD - O seu personagem mais conhecido (não sei se é ele que se chama Cabeça de Atum Comix, ou se é a série - ou até se são ambos) é inspirado em si. Porquê?
CC - ''Cabeça de Atum Comix'' é o nome da minha página de Facebook. Carcassa é o nome do personagem da maior parte das minhas tiras, (embora refira o nome dele em poucas) que sim, é um personagem um pouco inspirado em mim, e também é o nome com que eu assino, e daí a sua confusão. Acho que é mais fácil atribuir uma personalidade a um boneco que seja baseado em nós, do que criar-lhe uma personalidade a partir do zero. Claro que já criei outros bonecos com personalidades diferentes, mas que não desenvolvi tanto porque, a certo ponto, falta-me assunto para atribuir ao personagem. Quando o personagem é baseado em nós, acho que se torna mais fácil encontrar assunto para desenhar, sem desvirtuar o personagem.
À procura do "Ponto G"...

BDBD - Que projectos tem entre mãos neste momento? 
CC - Não sou de fazer grandes projetos. A única coisa que pretendo é ir publicando as minhas tiras na internet, e se houver quem goste, então já é muito bom para mim. Claro que fico sempre muito feliz quando alguém demonstra interesse em publicar o meu trabalho nos seus fanzines ou revistas, como já aconteceu. Ver o seu trabalho publicado no papel, acho que é o sonho de qualquer autor. 

BDBD - Como antevê o futuro da banda desenhada?    
CC - Acho que o futuro da BD está assegurado, em termos de qualidade e quantidade, pois hoje em dia é muito mais fácil para os novos autores divulgarem o seu trabalho, o que permite ao público ter muitas coisas por onde escolher. O que não acho que esteja assegurado é o futuro dos próprios autores, pois, devido ao surgimento de tantas coisas novas, nem todos irão conseguir viver da sua arte, e muitos serão esquecidos (justamente ou injustamente, depende do ponto de vista). Quanto a mim, o futuro irá passar cada vez mais pelas edições independentes, porque felizmente, hoje em dia, existem diversas plataformas de financiamento coletivo, o que permite aos autores saberem em tempo real se o seu trabalho tem aceitação ou não, e assim irem publicando, pelo menos sem terem prejuízo.

BDBD - Muito obrigado, Carlos Carcassa, por esta entrevista.
CR

Hungry Birds no papel de terroristas...

O Super-Juiz, Carlos Alexandre
Schroeder a brincar com o Euro(?)

sábado, 14 de julho de 2018

NOVIDADES EDITORIAIS (150)

COMMENT RÉUSSIR UN ASSASSINAT - Edição Lombard. Autores: argumento de Zidrou e grafismo de Simon Van Liemt, depois de Duchâteau e Tibet.
É o tomo mais recente da série “Ric Hochet”.
Mas que grande trapalhada, com alguma paródia mal camuflada! Além disso, esta aventura é... chata!
O famoso romancista e argumentista Henri Vernes (“Bob Morane”), é aqui personagem e suspeito!... Há uma “guerra” implacável  entre editoras... Há um casal que já não se suporta, em que, um e outro, procura matar a outra parte num “crime perfeito”...
E, para além de outras confusões, uma pertinência: ante um suicida, é ele o assassino dele próprio?...


PERDITION - Edição Glénat. Autores: Denis-Pierre Filippi (argumento ), Vicenzo Cucca (traço) e Fabio Marinacci (cores).
“Perdition” é o segundo tomo da série de ficção-científica “Colonisation”.
Milla Aygon e a sua equipa, estão prisioneiros de uns sinistros sobreviventes terrestres num planeta ensopado de toda a casta de perigos. Sobreviventes estes, a quem nada repugna o canibalismo!...
Como escapar destas (e de outras) sufocantes perigosidades?


À L’HEURE OÙ LES HYÈNES VONT BOIRE - Edição Lombard. Autores: Emmanuel Herzet (argumento), Alain Queireix (traço) e Didier Ray (cores). Este é o 5.º  tomo da série “Alpha-Premières Armes”.
O destemido e astuto Dwight Tyler, que mais tarde será conhecido pelo nome de código “Alpha”, resiste a ser elemento da famosa CIA, pois gosta de actuar a solo. Em vão!... Mais ou menos “sequestrado” pela força secreta norte-americana, é forçado a colaborar para destruir a organização internacional “Hiena”, potentado do crime, sobretudo no que toca ao terrorismo. Desta, quatro polos estão a funcionar em força em Hong Kong, na Argentina, em Portugal e na Tanzânia, para além das actuações de russos, israelitas, italianos, etc. O desafio é de arrojo, onde os fins justificam os meios. É mesmo a fazer doer!
De notar, neste álbum, as pranchas 8 e 9, onde Lisboa é, de certo modo, vedeta.
A reparar...
LB

quarta-feira, 11 de julho de 2018

A ILHA DO CORVO QUE VENCEU OS PIRATAS (17)

Temos vindo a acompanhar como está a ser impresso o livro «A Ilha do Corvo que Venceu os Piratas», na «Nova Gráfica» de Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel, Açores.
As imagens que temos estado a mostrar desde o artigo anterior, são gentileza do Senhor Pedro Dias, chefe do Departamento de Pré-Impressão, que a nosso pedido fez a cobertura fotográfica de todo o ciclo a que a obra é submetida desde que entra na Gráfica.
Desta maneira os leitores do BDBD poderão observar esta fase final da história, que têm vindo a acompanhar do início, desde a ideia e dos primeiros esboços.
Temos então a obra já impressa...


...e a fase seguinte vai ser a dobra das folhas que se transformam assim em cadernos. Também esta operação é automática, numa máquina própria.

Agora os cadernos vão ser cosidos com linha, também numa máquina, o que dá um maior conforto ao leitor quando abrir o livro. Esta operação também pode ser feita por meio de cola na lombada, mas o livro dessa maneira não abre tão bem e, com o uso, por vezes, escarcha e as folhas podem desprender-se. 

É a altura de fazer as chapas para as capas. Podemos ver a chapa do magenta...

...e a do preto, prontas a entrarem na máquina.

As capas foram repetidas na folha da rotativa, para aproveitar o formato, e assim com a quarta parte da tiragem consegue-se a totalidade da impressão.
Vão ser cortadas e submetidas a uma plastificação que garante a sua impermeabilização, que as vai proteger de algum pingo de água ou mesmo de sujidade. 

Na imagem seguinte, a capa foi já colada ao «miolo», ou seja ao interior do livro, que segue em grupos para a guilhotina de modo a ser aparado e ficar com o aspeto que o leitor o encontra nas livrarias.
Observe-se que os maços mais perto da guilhotina ainda não foram cortados e mostram a margem de papel e cartolina excedentes. O grupo mais perto da nossa vista, foi já aparado.

Agora vão ser empacotados para serem enviados ao Editor que, por sua vez, os irá distribuir por todos os postos de venda do país.

No próximo artigo - a ser publicado depois do dia 13 de julho, quando na Ilha do Corvo faremos o lançamento deste livro - darei, então, conta de como decorreu o evento e encerraremos esta longa série de apontamentos.
Até lá, um forte abraço

José Ruy

sexta-feira, 6 de julho de 2018

A ILHA DO CORVO QUE VENCEU OS PIRATAS (16)

Caros leitores do BDBD, reatamos a evolução da execução da história «A Ilha do Corvo que Venceu os Piratas», em Banda Desenhada.
Neste momento, em fim de junho de 2018, a obra está impressa e vai ser lançada na Ilha do Corvo entre os dias 13, 14, 15 e 16 de julho.
Por deferência da «Nova Gráfica» instalada na Ilha de São Miguel, em Ponta Delgada, podemos mostrar todo o processo de impressão.

A gráfica ao receber os ficheiros digitalizados com as páginas e a capa do livro, faz a paginação em «deitados», para serem impressos nas máquinas Offset. Essa operação é realizada em computadores.
Pode ver-se um grupo de páginas arrumadas de modo a serem gravadas nas chapas de alumínio (antes era usado o zinco)...

...e a capa na versão em inglês. Repare-se que o desenho desta capa tem mais assunto para além do formato, em cima, em baixo e do lado direito, para que o papel depois de impresso se ajuste ao cartão e dobre para a parte de trás. Isto para a capa cartonada ou «capa dura», como é designado na «gíria gráfica». 

Agora o desenho já está gravado na chapa...

...que vai ser montada na rotativa a 4 cores que se vê na imagem seguinte.
As cores são impressas separadamente e por esta ordem, o amarelo, o azul, o magenta e o preto, por isso esta máquina Offset tem os 4 corpos ligados para que as cores sejam impressas em sequência.

Cada chapa é inserida no corpo respetivo, ajustada a um cilindro de aço, e vai transportar o desenho a um outro cilindro de borracha, que por sua vez imprime no papel. Offset quer dizer isso, «impressão indireta».

O operador controla na mesa digital, colocada junto ao extremo da máquina de Offset, o acerto de todas as cores e as forças da tinta, transmitindo a suas ordens para a rotativa, por via informática.
Todas estas operações que antes eram feitas manualmente, passaram atualmente a ser computorizadas.

Durante a impressão vão sendo retiradas provas, de espaço a espaço, na cadência da máquina, para ser comparada a fidelidade do que está a sair, em relação à primeira folha aprovada. A velocidade da impressão ronda as 7 e 8 mil provas por hora.

No outro ponto da rotativa entra o papel em banco...

...que depois de passar pelos 4 corpos...

...é depositado no tabuleiro do terminal da máquina já pronto. 

No próximo artigo: A dobra das folhas em cadernos, a cosedura com fio e a impressão das capas.

José Ruy 
30-VI-2018

segunda-feira, 2 de julho de 2018

NOVIDADES EDITORIAIS (149)

KOÏOS - Edição Glénat. Autores: argumento de Éric Stalner e Cédric Simon; grafismo de Éric Stalner.
Na linha da Ficção-Científica, “Koïos” é o primeiro tomo da série “Exilium”.
Imagine-se que se está em 2189... O Glory, jóia da frota espacial humana, apronta-se para efectuar a sua viagem interestelar para a estação balneária Paradis Lunella. Para o comandante Sonntag, tudo se resume a uma simples viagem de rotina, com vinte e sete dias a sonhar na sua cabine... Mas, ao acordar, nota que nada se passou como estava previsto: o Glory derivou durante 179 anos para finalmente se despenhar num outro destino! Estão todos prisioneiros no planeta Kayenn (inspirado na colónia penal de Caiena, na Guiana Francesa?)...
Um inferno verde, bem vivo e mortal, onde os sobreviventes tentam aguentar-se numa cidade de acaso, construída em redor dos destroços da nave...
Belos momentos pela arte de Éric Stalner.


AMAZONIE / 3 - Edição Dargaud. Autores: argumento de Rodolphe e Leo, traço de Bertrand Marchal e cores de Sébastien Bouët.
Uma série fantástica e cativante localizada nos confins inóspitos e misteriosos pelas margens do Amazonas.
A agente britânica Kathy Austin e o agente secreto brasileiro Délio descobrem, numa gruta, o cadáver/esqueleto de um conquistador espanhol...  Mas há mais perturbações no enredo: ameríndios impiedosos, uns sinistros nazis em busca de um hipotético tesoiro e agentes ingleses que tudo querem saber sobre um ser misterioso que, consta, vive e protege os índios (e tambem, Kathy Dálio)... É mesmo um extraterrestre?


999, A L’AUBE DE RIEN DU TOUT / 2 - Edição Glénat. Autores, segundo o romance de Claude Daubercies: argumento de Denis-Pierre Filippi e arte de Marco Blanchini.
Na véspera do ano 1000, três garotos órfãos deambulam pelo mundo, buscando um lugar de paz para viver... É o tempo da Idade Média obscura, recheada de loucura religiosa e da bestialidade sórdida, onde o destino de um homem não vale grande coisa. Mas, Séretta, Sylvain Titène não estão sós. Acompanha-os (e à sua maneira protege-os) o gato filósofo Turolde, na verdade, o encantador personagem desta fábula truculenta e poética, onde os três pequenos heróis mergulham numa busca iniciática, na descoberta do amor, da beleza do mundo e da loucura dos homens...
No final deste tomo, a saga parece ter chegado ao fim, com as imagens do sábio Turolde, pensativo e melancólico, a afastar-se só, pela neve imensa que cobre as terras... Mas algo faz crer que os garotos e o gato, lá mais para diante, voltarão a encontrar-se...
LB