terça-feira, 16 de agosto de 2022

ILUSTRAÇÕES E HISTÓRIAS EM QUADRINHOS por José Ruy (15)


E vamos ao desfecho da aventura de «Fabrício, o Espadachim» de Peter Tenerife, aliás José Padiña, que foi publicada no jornal «O Mosquito», mas sem ilustrações. Continuemos com as palavras de Padiña, embora resumidas:

Vamos entretanto saber o que acontecera a Daniel e a Miguel na manhã daquele dia, na mesma hora em que Fabrício travara a sua «batalha» na casa do Governador e andava nas suas aventuras na praia.
Vodagui era uma terra muito pequena e de gente pobre. Índios das castas mais baixas, alguns muçulmanos famintos, e uns pobres imigrantes chineses. A casa dos Padres da Missão tornara-se o centro da aldeia, onde todos iam buscar comida e onde se reuniam para ouvir os Padres ou para conversarem. Daniel e Miguel tinham lá aparecido na véspera, ao anoitecer. Conseguiram arranjar um homem que partisse em procura de notícias do que sucedera a Fabrício. Quando voltou contou uma história muito confusa. Na sua versão, Fabrício tentara fugir, mas os soldados tinham-no levado para uma masmorra mais o Padre Superior. Daniel estava ainda muito enfraquecido, mas depois de escutar a narrativa do homenzinho, transformou-se, ganhou forças novas, e declarou:
— Tenho que ir para junto de Fabrício!
Daniel partiu mal acabou o sol de nascer e Miguel, evidentemente, partiu com ele. Entraram na cidade à mesma hora em que Fabrício procurava o pai de Miguel e pararam à porta do Forte quando Florinda os traia denunciando-os a Balsemão Geraldes.
O Governador, colérico, passeava no salão de sua casa, avistou-os pela janela e gritou aos soldados:
— Prendam esses cavaleiros!
Daniel e Miguel é que não deixaram sequer que lhes tocassem. Desembainharam as espadas, abriram caminho até à porta da casa do Governador, subiram as escadas e entraram no salão, fechando a porta no fecho.
Ficaram frente a frente, e a sós com o inimigo.

— Venho pedir-vos noticias de D. Fabrício Cecílio e exigir-vos que cessem as vossas violências, os vossos cobardes abusos! — dizia Daniel, avançando direito ao Governador. Este olhava esgazeado o bico de espada que Daniel lhe apontava, mas não desenfiava a sua da bainha. E foi recuando tentando aproximar-se duma janela. E assim que lá chegou, gritou para que o fossem salvar.Daniel avançou mais uns passos e encostou a espada ao peito do Governador e elevando a voz para que todos o ouvissem, falou assim:
— Que ninguém se aproxime! Logo que o primeiro homem entrar nesta sala, carrego na minha espada e furo o Governador lado a lado! Tragam o Sr. D. Fabrício e o Padre Superior aí para o pátio. Enquanto eles não aparecerem o Governador fica sob ameaça!
Toda a soldadesca se imobilizou. Lá do pátio viam a cara pálida do Governador, quase morrendo de medo, e viam as espadas de Daniel e Miguel, reluzentes, prontas a se enterrarem.
Fabrício não precisou de ir até Vodagui saber notícias. Encontrou Balsemão Geraldes e a sua escolta a meio do caminho, já de regresso. Reconheceram-no, e isso bastava para os intimidar. Fabrício galopou direito a eles, e ordenou:
— Parai e escutai! Em nome D’el-rei, por Deus e pela Justiça!...

Balsemão Geraldes e os seus amiguinhos, escapuliram-se para detrás dos soldados. Fabrício verificou logo que que não traziam nem Daniel nem Miguel como prisioneiros.
«Esconderam-se a tempo!», pensou. Mas não pôde deixar de exclamar para os soldados:
— Vós não tendes vergonha de vos sujeitardes a uns chefes tão cobardes?!
Olhai como eles se esconderam! Então, D. Balsemão, hoje não gritais “S. Sebastian y amor»?!
Alguns soldados riram à socapa.
Fabrício continuou:
— Soldados, vós sabeis que o vosso Governador não está servindo os interesses D’el-Rei, mas sim os interesses de Bonifácio Geraldes. Mandei recado ao Vice-Rei da Índia. Antes dum mês virão barcos com tropas. E todos aqueles que estiverem do lado do Governador, serão julgados e condenados como cúmplices dele. Vinde comigo ao Forte!
Os soldados hesitaram apenas uns momentos. Um deles, mais decidido, deu o sinal. Tirou o chapéu, e gritou:
— Tendes razão, senhor Don Fabrício! Viva El-Rei! Viva o Sr. Don Fabrício!

— Viva! Vivaaaa!
Balsemão experimentou arrastar os amigos com o seu apelo de guerra. A resposta foi uma gargalhada geral.
Balsemão olhava meio aparvalhado e fugiu. Os «amiguinhos» aproveitaram-se e trotaram atrás de Balsemão.
Depois os soldados contaram a Fabrício as notícias de Vodagui, a partida de Daniel e Miguel para o Forte, a fim de libertarem Fabrício e o Padre Superior, que eles julgavam prisioneiros.
— Para o Forte! A galope!
Contudo, apesar do galope, os cavalos não lograram manter-se a par do de Fabrício e o nosso herói chegou ao Forte sozinho, com o avanço de mais de meia milha.
O aparecimento de Fabrício teve o efeito duma bomba quando se ouviu uma voz anunciar:
— É o D. Fabrício, o Espadachim! Fujam!

Daniel e Miguel logo deixaram o Governador em paz, e largaram pela escada abaixo. Fabrício esperava-os. Mas pouco tempo tiveram para se regozijarem com o encontro.
Bonifácio Geraldes recebera o pedido de socorro, e ali vinha com mais de cem homens a cavalo, ainda melhor armados e equipados que os soldados D’el-rei.
Fabrício pulou imediatamente para a sela da sua montada, desfechou uma cutilada sobre o adversário que primeiro se aproximou e atirou-o por terra, gritando:
— Já tens cavalo para ti, Daniel! Monta depressa!
Depois derrubou um segundo inimigo para arranjar cavalo para Miguel.
Os três desviavam a chuva de lâminas, e, incansáveis, golpeavam impiedosamente os inimigos.

Entretanto o Governador desceu do salão, mas aconteceu uma coisa inesperada: a chegada dos soldados da escolta de Balsemão, que Fabrício conquistara para o seu partido.
Os soldados atacaram, e então aquilo deixou de ser um combate para se transformar no mais confuso e desencontrado baralhar de gente que ainda houve.
Por fim os adversários ficaram reduzidos a um número tão diminuto, que Fabrício não lhe deu mais atenção, e pôs-se em busca do Governador. Levantou-o em peso e deitou-o atravessado sobre o cavalo:
— Por hoje acabaram-se as lutas, amigos! Vamo-nos embora! Já aqui temos o nosso prémio!
E apontava para o Governador. Dirigiram-se para casa de D. Domingos.

Fabrício sabia que a vitória não seria completa senão depois da chegada do auxílio que ele pedira ao Vice-Rei. Avisou que Geraldes havia de atacar a casa para libertar o Governador. Esse ataque deu-se no dia seguinte. Geraldes pôs cerco a casa, desta vez com perto de quinhentos homens. A chefia da defesa foi entregue a Fabrício. Não eram nem sequer duzentos os homens com que este contava, entre fidalgos, soldados e criados.
Contudo, como não podia deixar de ser, ganhou o combate, e ganhou-o utilizando as suas armas de sempre: a coragem e a audácia.

Acompanhado por vinte homens rompeu o cerco, e foi atacar os visitantes pelas costas, escolhendo o sítio onde estavam Balsemão e os seus amiguinhos. Concentrou todas as forças sobre ele e fê-lo prisioneiro.
O resto foi uma brincadeira de crianças. Os sitiantes não tardaram a debandar, ficando Bonifácio e o Governador prisioneiros.
Ao chegar a nau que o Vice-Rei mandou com um regimento, o Governador foi demitido e regressou, com Geraldes e toda a camarilha, a Portugal onde prestaram contas das suas faltas e erros.
Fabrício ainda se demorou mais algum tempo naquelas terras. Mas por fim todos os restos de conflitos se apagaram
e a vida tornou-se monótona e cansativa para o seu temperamento aguerrido.
Ofereceram-lhe uma festa de despedida, e a certa altura Fabrício teve ocasião de se encontrar a sós
com Florinda. A mocinha mudara muito. Quebrara-se o seu noivado com Daniel, e ela entristecera, e ganhara tanto mais encanto quanto mais modesta e discreta se mostrava. Fabrício perguntou-lhe:
— É verdade que não deixareis de fazer as pazes comigo antes de partir?
— Sim, eu tenho pensado muito naqueles dias das nossas questões... E agora desejo fazer as pazes convosco e com
muitas pessoas para quem fui injusta...
Fabrício compreendeu.
— É a Daniel que quereis referir-vos? Descansai, pois ele tem visto como vós estais modificada e já me disse que pensava procurar-vos... e reatar o noivado.
E assim foi, e Fabrício partiu para a China, para novas venturas.

FIM


No próximo artigo mostrarei mais uma série de ilustrações, também inéditas, que fiz com todo o gosto para uns escritos do meu saudoso amigo José Antunes, e que igualmente esperam editor para serem publicados.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

​NOVIDADES EDITORIAIS (240)

DOUTOR MENGEL - Edição Asa. Autor: Jean-Yves Delitte. Tradução de Pedro Vidal e coordenação de Carlos Pessoa. "Doutor Mengel" é o primeiro tomo (de quatro) da intrigante e bem inquietante série "U-Boot".
A narrativa saltita por épocas diferentes: 1945, 1951, 2059... Um submarino alemão (da Alemanha nazi) navega pelo Oceano Atlântico rumo às zonas antilhanas. Transporta uma enigmática "encomenda" que é apenas do conhecimento do respectivo comandante. Uma violenta tempestade força o submarino a entrar no rio Amazonas, com a tripulação em pânico pois, entretanto, um jovem marinheiro é encontrado morto e dilacerado: acidente, assassinato ou sabe-se lá o quê?!... Porém, no futuro, em 2059, a italiana Veneza está quase que completamente seca!...
Que pavorosos e misteriosos factos envolvem sem piedade toda esta narrativa?


LITTLE TULIP - ​Edição Ala dos Livros. Autores: J. Charyn (argumento) e François Boucq (arte).
O pesadelo arrastado de um jovem no clima, em todos os sentidos, num "gulag" soviético. É um constante e dramático sufoco pela sobrevivência... e o jovem Pavel virá a ser um implacável lutador...
Há aqui, também, a admirável arte do famoso Boucq.
Uma leitura desafiadora a bedéfilos com os nervos seguros.


ESCUTA, FORMOSA MÁRCIA - ​Edição Polvo. Autor: Marcello Quintanilha.
Numa zona pouco recomendável do Rio de Janeiro, vive a lutadora Márcia, enfermeira e mãe solteira, que, com todos os sacrifícios, tenta educar exemplarmente a sua filha Jaqueline.
Esta, é rebelde e caprichosa e só faz o que bem lhe apetece, o que vai complicar a existência, pois envolve-se com o crime organizado.
E, então, Márcia, arroja-se destemidamente a tudo fazer para salvar a filha da embrulhada em que se atolou...
Marcello Quintanilha é um notável jovem autor brasileiro que reside em Barcelona. Tem sido editado em Portugal, que já visitou várias vezes.


A CICATRIZ - ​Edição Escorpião Azul. Autores: Renato Chiocca e Andrea Ferraris. Tradução de Jorge Deodato.
Um dramático relato (reportagem?), seco e sombrio, localizado na fronteira do México e dos Estados Unidos da América do Norte.
Muita amargura e terríveis consequências, mas onde também se encontram espaços de luz e de ocasional humanismo.
Vale bem a pena apostar na leitura deste álbum.


NESTE BAIRRO, LATINO NÃO ENTRA - ​Edição Asa. Autores: vários, consoante as três narrativas que compõem o álbum, com tradução de Helena Guimarães.
São as seguintes: "A Bola da Borrasca" (texto de Yves Coulon e arte de Philippe Fenech), "Fluctuat N-Hic! Margitur!" (texto de Mathieu Choquet e arte de Jean Bastide) e "Labieno, Não Passarás!" (texto de Jerome Erbin e arte de Philippe Fenech).
Rebuscada na popular série "Astérix" de Goscinny e Uderzo, desta vez e a divertir-nos bem, o herói central é o ousado cachorrinho de Obélix, o Ideiafix.
Os gauleses mal aparecem, mas os romanos bem desejam livrar-se das diabruras de Ideiafix e seus aliados e amigos: a elegante cadela Turbina, o possante buldogue Glutonix, a doce gatinha Ladina, o mocho espertalhão Noturnix e o passarito traquina Bronquitix.
Em boa hora, nesta dose de Novidades Editoriais, um álbum sem violências sanguinárias nem pesadelos sufocantes, mas sim, com muita diversão e salutar humor.
LB

sábado, 6 de agosto de 2022

​TALENTOS DA NOSSA EUROPA (51) - JOANN SFAR (França)

Pois bem: este "jovem" francês, o Joann Sfar, é um dos mais admiráveis valores da actual Banda Desenhada do país dos "irredutíveis gauleses".
Nasceu em Nice a 28 de Agosto de 1971. Talentoso, atrevido e satírico na arte diversa que executa e nos argumentos que corajosamente escreve, está sempre capaz nas ideias em que muito bem aposta.
Estreou-se em 1994 com "Les Aventures d'Orsour Hvrsidoux". Foi apenas uma mera estreia, pois logo aconteceu uma imparável e invejável carreira, que o arrastou pela BD e pelo Cinema.
Na sua obra BD, firmam-se apelativos títulos, como "Aspirine", "Tokyo", "Papier", "Troil", "Les Doissiers du Professeur Bell", "Les Olivers Noirs", "Chagall en Russie", etc. Há que registar também, as séries "Donjon", "Sardines de l'Espace", "Le Grand Vampire", "Le Minuscule Mousquetaire" e, como seu grande triunfo, a notável e impagável série "Le Chat du Rabbin" (O Gato do Rabino).
Infelizmente e até agora, quase nada da obra de Sfar foi publicado no nosso Portugal!... Mas temos editores conscientes e certamente vão reparar como deve ser na diversa e bela obra do incontornável Joann Sfar.
Oxala!...
LB







domingo, 31 de julho de 2022

BREVES (108)

JOSÉ RUY EXPÕE ADAPTAÇÕES LITERÁRIAS EM VISEU
No próximo dia 4 de Agosto (quinta-feira), às 22:00 horas, inaugura em Viseu, no Pavilhão Multiusos da Feira de São Mateus, a exposição "José Ruy: Literatura e Banda Desenhada". 
Trata-se de uma produção conjunta entre o Gicav - Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu, a Viseu Marca e a Câmara Municipal de Moura.
A exposição é composta por dezasseis painéis, com pranchas de algumas das muitas obras literárias que José Ruy adaptou à BD como "Ubirajara", "Os Lusíadas", "A Peregrinação", "Auto da Barca do Inferno" ou "O Bobo", entre outras.
Uma mostra definitivamente a não perder, que estará patente ao público até 21 de Setembro.


O 33.º AMADORA BD JÁ MEXE!
A três meses da abertura oficial, o Amadora BD já tem imagem gráfica(!), uma nota que nos apraz registar pois foi, durante anos, uma lacuna apontada à organização deste evento.
De 20 a 30 de outubro, o maior Festival Internacional de Banda Desenhada em Portugal volta à cidade da Amadora, com o núcleo central com uma área alargada, com uma zona de GAMING e uma nova área de street food.
A relação Portugal-França é o tema da edição 2022 do Amadora BD, e é também a inspiração para a cenografia do evento que este ano e a convite da direção do Amadora BD, conta com uma ilustração original de Juan Cavia, vencedor (a par com Filipe Melo) do prémio de Melhor Obra de BD de Autor Português nos PBDA em 2021.
Voltaremos a este assunto.


ACHADO ENFIM, O TAL MEXICANO!
Diz o povo que "não há mal que não acabe, nem bem que sempre dure". Talvez...
A 18 de Junho de 2013, o BDBD iniciou a rubrica "BD e História de Portugal", começando com "O Assalto ao Santa Maria", a heróica "loucura" do destemido capitão Henrique Galvão e seus companheiros portugueses e espanhóis, em 1961. 
O mundo inteiro parou ante este tão impensável gesto... Em pleno Oceano Atlântico, o paquete português "Santa Maria" (que até foi crismado de "Santa Liberdade") navegava sem grandes decisões: a ida para Angola foi posta de parte, a aposta na Argentina era ambígua, o Brasil (então aliado de Salazar) recusou dar apoio e a Venezuela foi, então, o melhor ponto de acolhimento...
Deste espantoso facto da nossa História surgiram, pelo menos, duas versões em Banda Desenhada: uma, curta em quatro pranchas, pela parceria francófona de Lux (aliás, Nicolas Lux) e Fédor (aliás, Fernand Vandenwouwer), "O Fantástico Cruzeiro do Santa Maria", que até deu origem a uma longa-metragem portuguesa e a devida edição-BD na revista "Mundo de Aventuras". Ça va!...
Mas o México, sempre entusiasmado com a Banda Desenhada, editou então "El Buque Rebelde"... Porém, ninguém achava o nome do respectivo desenhista: nem nós no BDBD, nem o saudoso Jorge Magalhães, nem o digno pessoal atento do Clube Português de Banda Desenhada... Nada! Nem mesmo o belo exemplar do seu "Boletim" #153, a este tema dedicado, nos esclarece...
Quem foi afinal o desenhista mexicano que elaborou "El Buque Rebelde"?
Teimámos em singrar por este mistério e lá descobrimos, para bom alívio, que é (ou era) o famoso (pelo menos no seu país) Alfonso Tirado (1910-1991), um dos maiores valores da BD mexicana, que aqui teve também a habitual parceria com Maria Isabel Camberos e Eduardo Martinez. Aleluia, pois!
Falta, porém, conhecermos no nosso idioma este atrevido e espectacular episódio da nossa História não muito distante. A ver vamos...
Obrigado, Alfonso Tirado!



ANIVERSÁRIOS EM AGOSTO
Dia 01 - Andrei Ariniuchkine (bielorrusso)
Dia 03 - Miguel Montenegro
Dia 06 - Manuel Caldas
Dia 08 - Derib (suíço), Lu Ming (mongol) e 
Ralf König (alemão)
Dia 10 - João Neves e Chistophe Blain (francês)
Dia 13 - Enrico Marini (italiano)
Dia 15 - Tozé Simões e Pedro Massano
Dia 17 - Álvaro
Dia 18 - Xabel Areces (espanhol)
Dia 27 - Nuno Saraiva
Dia 28 - Joann Sfar (francês)
LB/CR

quarta-feira, 27 de julho de 2022

JOSÉ PIRES (1935-2022): MEMÓRIAS DE MOURA

Faleceu, no passado dia 15 de Julho, José Pires, nome grande da BD portuguesa, mas sobretudo um amigo de quem guardo muitas e gratas recordações. É sobre estas que aqui vos venho falar.

Sempre tive uma grande empatia pelo José Pires, logo desde que o conheci, nos primeiros salões da Sobreda que visitei, lá pelos inícios dos anos 90.
Lembro-me que, quando cheguei à Sobreda, eu era um “miúdo” algo complexado, 
no meio daqueles craques todos que idolatrava há anos. 
Com o tempo e a convivência, claro, fui percebendo que os autores de BD mais consagrados falavam comigo de igual para igual, sem quaisquer tiques de vedeta.
Era este, também, o caso do Pires, sempre impecavelmente vestido (em vez de gravata, gostava de usar um elegante lenço ao pescoço) e com uma mala ao ombro (onde normalmente  trazia, entre canetas e lápis, o mais recente número do "Fandwestern") e sempre bem falante. 
Sendo ambos alentejanos e gostando do mesmo tipo de banda desenhada (os clássicos ingleses e italianos, entre outros), a amizade foi crescendo, naturalmente, entre nós. 
À direita, eu e José Pires, assistindo à sessão solene da Sobreda / BD 1999,
no Solar dos Zagallos

Por sugestão do Luiz Beira, indiquei o nome de José Pires à Câmara Municipal de Moura como o autor a homenagear no salão Moura BD 98, algo que ele aceitou meio encavacado pois nunca se considerou um desenhador de excelência no mundo da BD. Considerava-se apenas, com modéstia, um simples “fazedor de bonecos”, como, aliás, disse numa entrevista relativamente recente a este blogue.
José Pires, homenageado no Moura BD 1998
Obviamente que José Pires foi um extraordinário autor de banda desenhada e, por isso, foi premiado com o Troféu Balanito, com todo o merecimento. Mas, mais do que troféus e distinções, o que agradava a Pires verdadeiramente era o convívio entre os amantes da BD, e esse ambiente ele encontrou-o em Moura e cativou-o para sempre.
Tanto que, a partir desse ano, passou a ser uma visita assídua ao salão mourense e, com o tempo, acabou mesmo por se tornar num dos mais assíduos de sempre. Exceptuando o Luiz Beira (que terá falhado uns três ou quatro salões apenas) e o Geraldes Lino, José Pires, desde que visitou o salão em 1998 raramente falhou uma edição. Vinha sempre no seu carro, acompanhado por um grupo de amigos. Partiam de manhã, almoçavam em Moura, durante a tarde visitavam as exposições, assistiam à sessão de entrega de prémios e regressavam no final do dia. Sempre o mesmo ritual e quase sempre o mesmo grupo, também: ele, o Dâmaso Afonso, o Nuno Simões Nunes e o Luís Salvado. Por vezes, o lugar que sobrava era preenchido pelo Jorge Magalhães, pelo Zé Manel, pelo João Amaral ou pelo Luiz Beira. Em duas ocasiões diferentes, trouxe também, e para surpresa geral, a mãe - uma senhora já com idade avançada mas cheia de genica e de boa disposição - e a esposa, esta na última edição do Moura BD, em 2013. 
Com o seu grande amigo Jorge Magalhães, observando pranchas no salão Moura BD, dedicado ao western, uma das suas grandes paixões (Novembro de 2000).

Numa foto de grupo, durante o salão Moura BD (Novembro de 2001)

Durante o almoço-convívio, no Moura BD 2007

Com a esposa, durante o almoço-convívio do Moura BD 2013, última edição do salão.

O Pires estava sempre a elogiar o salão e as suas publicações. E sempre que podia, ajudava-nos de alguma forma. Por exemplo, em 2000, o Moura BD deu destaque ao western, um tema muito querido por José Pires (co-criador de personagens como Will Shanon e Irigo, entre outros, e editor do fanzine “Fandwestern”, que manteve durante anos, reeditando histórias dos mais conceituados autores do género).
Entusiasmado, José Pires predispôs-se, desde logo, a emprestar-nos algum material que coleccionava para incluirmos nos cenários que o salão iria produzir.
Lembro-me que, quando fomos buscar a sua casa alguns chapéus, coldres e cartucheiras, assim como réplicas de “colts” e “winchesters”, tinha uma bela colecção de livros sobre o tema, que certamente lhe terão servido de auxílio gráfico para muitas das suas histórias. Cheio de orgulho, abriu alguns desses livros e, enquanto me mostrava fotografias de Sitting Bull, Crazzy Horse ou Gerónimo, explicava detalhes sobre a vida daqueles personagens, as suas lutas, as suas conquistas e os seus trágicos destinos. Uma brevíssima aula de História que, até hoje, recordo com nostalgia.
Uns anos depois, em 2002, o tema escolhido foi “O Terror” e o José Pires também nos emprestou algum material para expor (pranchas de revista Creepie em grande formato).
As armas, coldres e cartucheiras emprestados por José Pires para o salão Moura BD 2000...
...e as pranchas da revista Creepie, expostas no Moura BD 2002

Em 2009, Pires participou com um belo trabalho (texto e desenhos) no álbum colectivo “Salúquia: a Lenda de Moura em Banda Desenhada”.
Lembro-me que o Pires (junto com o José Ruy, o Baptista Mendes e o Augusto Trigo – e talvez mais um ou outro autor que agora não recordo) se mostrou desde logo muito entusiasmado, quando a ideia do álbum surgiu, durante a inauguração do Festival Amadora BD, em 2004, junto ao metro da Falagueira. Uma ideia que surgiu ali e ali teria morrido, certamente, não fora o entusiasmo com que foi acolhida por estes autores.
Durou cinco anos até o álbum ser uma certeza mas, no dia do lançamento e da inauguração da exposição de pranchas originais, fez-se uma grande festa a que muitos dos autores participantes compareceram, tendo o José Pires também marcado presença, onde autografou alguns álbuns. Faltou o meu pois, na confusão do momento, nem me lembrei de tal…
Muito solicitado, autografando o álbum "Salúquia: a Lenda de Moura em Banda Desenhada" (Junho de 2009)

Mantivemos sempre um contacto muito próximo, quer por telefone (o Pires cumprimentava-me sempre de forma efusiva, com a sua característica voz aguda: “Olá, meu querido amigo Carlos Rico!”), quer por e-mail (longos e cheios de conteúdo, como se estivéssemos a conversar cara a cara), quer nos diversos salões e festivais de BD que visitávamos (Amadora, Viseu, Beja… e Moura).
Entretanto, desanimado por não encontrar uma editora que lhe publicasse os álbuns que tinha prontos (creio que eram três!), o José Pires decidiu enveredar pela publicação em fanzine de séries de que gostava desde miúdo, e que ele lia no “Mosquito” e noutras revistas do género.
Restaurou séries emblemáticas como “O Gavião dos Mares”, “O Capitão Meia-Noite”, “Rob the Rover”, “Matt Marriott”, entre outros.
Recentemente optara por publicar trabalhos de Eduardo Teixeira Coelho, não só restaurados como também… coloridos por si, num gesto polémico e pouco consensual entre o meio bedéfilo. Contudo, José Pires defendia-se dizendo que o próprio ETCoelho teria preferido publicar as suas histórias a cores, se na época tivesse tido à disposição os meios que hoje temos. Enfim, nessa parte sempre discordámos. De forma elegante e civilizada, como dois verdadeiros amigos, cada um de nós tentava convencer o outro do seu ponto de vista mas sem efeitos práticos de parte a parte. Em todo o caso, sempre lhe gabei a paciência e o trabalho que tinha para recolher todo o material necessário para reeditar obras como as que referi acima. E – mérito lhe seja dado – por vezes acrescentando material (leia-se pranchas ou vinhetas) que em anteriores publicações tinha sido mutilado ou adulterado.

Algumas das publicações que Pires editou com material por ele restaurado

Em 2019, a Câmara de Moura, a de Viseu e o Gicav co-produziram uma exposição sua intitulada “A Portuguesa: História de um Hino”. A exposição inaugurou em Moura e José Pires veio – pela derradeira vez – até esta cidade alentejana, à boleia com um sobrinho.
Durante a inauguração da exposição "A Portuguesa: História de um Hino",
no Cine-Teatro Caridade, em Moura (Abril de 2019)...

...e observando a mesma exposição. 

A exposição seguiu posteriormente para Viseu, onde voltámos a encontrar-nos, mas, depois disso, creio que nunca mais nos vimos pessoalmente. O Covid e as medidas restritivas não deram tréguas e, durante dois anos, apenas trocámos e-mails e alguns breves telefonemas, mas até estes começaram a deixar de acontecer.
Estranhei não ter notícias do José Pires há algum tempo (ele sempre me enviava, por mail, as novidades que incansavelmente produzia em forma de fanzine…) e resolvi escrever-lhe para saber se estava tudo bem. Como não me respondesse, resolvi telefonar mas também não atendia. Consegui, enfim, um contacto através da amiga em comum, Catherine Labey.
Atendeu a filha, Teresa, enfermeira e cuidadora. Percebi que a situação não era boa. 
Combinei com a Teresa uma visita na semana seguinte mas, lamentavelmente, já não foi possível…

Duas coisas vão fazer-me muita falta quando me recordar do José Pires. Aquela troca mais ou menos regular de e-mails, cheios de conversa, como se estivéssemos cara a cara; e aquela voz fininha e musicada, a cumprimentar-me do outro lado do telefone: “Olá, meu querido Amigo Carlos Rico!”
Até um dia, meu querido Amigo José Pires!
CR

quarta-feira, 13 de julho de 2022

ILUSTRAÇÕES E HISTÓRIAS EM QUADRINHOS por José Ruy (14)

E vamos seguindo a aventura de «Fabrício, o Espadachim» de Peter Tenerife, aliás José Padiña, que foi publicada no jornal «O Mosquito», mas sem ilustrações. Continuemos com as palavras de Padiña, embora resumidas: 

No dia seguinte, o padre e Fabrício foram ao palácio do Governador que lhes falou de testa franzida, mirando em redor à procura de Daniel. E perguntou:
— Só um? Vós haveis dito que me entregaríeis os dois, Padre...
— Perdão! Eu nunca pensei entregar ninguém. Fazia tenção de me apresentar a mim próprio, acompanhado por outro religioso. Mas o Sr. Don Fabrício quis vir...
O Governador estava fulo. E mais fulo ficou quando Fabrício se lhe dirigiu assim:
— Senhor Governador, peço-vos que escuteis, porque vou contar a verdade do acontecido...
— A verdade sei-a eu em demasia! Não há mais falatório! Dai-me a vossa espada! Estais preso à ordem D’el-Rei de Portugal!
— O quê?! El-Rei não manda nunca prender um cavaleiro sem antes o escutar!
— Dai-me a vossa espada, já vo-lo disse!
— Segurai-a pela ponta, se a quiserdes... — e Fabrício desembainhou a lâmina.
O Governador, branco de cólera, agitou freneticamente a campainha, chamando socorro.
Apareceu um criado à porta da sala...
— Que venha a guarda! Todos os soldados! Depressa!
— Isso é que é valentia, senhor Governador! — comentou Fabrício com sorriso irónico.
Voltou costas ao Governador, e atirou-se contra a chusma de soldados e criados que invadiam a sala.
Estes, espantados pelo inesperado ataque, mal resistiram. Fabrício percorreu os corredores e atravessou o pátio sem encontrar obstáculos. Quando alcançou a porta da rua, e se dispunha a atravessar o espaço que havia até à saída da fortaleza, ouviu um tropel e a voz do Governador ecoou de uma janela:
— Prendam esse homem! Não o deixem sair!
O soldado que estava de sentinela, e mais dois ou três que vagueavam nas proximidades, esforçaram-se por cumprir a ordem. Claro que Fabrício pô-los fora de combate.
O tropel era de três cavaleiros que vinham a toda a brida.
Correu ao encontro dos recém-chegados, atirou-se à cabeça do primeiro cavalo e obrigou-o a parar. O cavaleiro era nem mais nem menos do que Balsemão Geraldes, acompanhado por dois amigos. Vinha saber notícias. Com um pulo, montou, virou o animal, e deparou com os amigos de Balsemão a impedir-lhe o caminho e com o clássico grito: «San Sebastian y amor!» Mas bastou que Fabrício desfechasse dois golpes, um para cada um, e lhes mostrasse a cara: eles não o tinham reconhecido antes.
— Oh! Fabrício, o espadachim...
E a coragem fugiu-lhes pelas pernas abaixo. E Fabrício abalou, livre como um passarinho.
Galopou direito ao porto e teve a sorte de haver uma nau, de partida para o sul. Entregou o cavalo aos cuidados dum marinheiro que trabalhava em terra a fiscalizar o embarque de mantimentos, e foi num batel até bordo da nau.
Dupla sorte a de Fabrício: o capitão era seu amigo, companheiro de pelejas e aventuras.
— Homem! Ainda bem que és tu o capitão! Vais salvar-me! Preciso que mandes recado ao Vice-Rei da Índia, dizendo que Fabrício está em risco de ser preso pelo Governador cá da terra.
Fabrício abraçou o amigo, e tornou ao batel. No cais um grupo de homens lutava encarniçadamente e o cavalo desaparecera. O tal marinheiro gritou:
— Senhor cavaleiro, eles roubaram-lhe o bicho.
O nosso herói desembainhou a espada e pôs os inimigos ao largo. O marinheiro explicou que logo a seguir tinham aparecido uns homens...
— É gente que anda por conta dos Geraldes. O senhor Don Bonifácio julga que é o dono disto tudo! uns fugiram com o animal, e outros ficaram-se a lutar comigo e mais estes amigos que vieram ajudar-me... — concluiu o marinheiro.
Fabrício começou a perceber a atitude do Governador querendo prendê-los, a ele e a Daniel, a todo o custo.
— Oh! Senhor! Se tendes os Geraldes como inimigos acautelai-vos!
Fabrício estabeleceu rapidamente um plano, disse aos seus novos amigos que não conhecia a cidade e precisava dum homem que estivesse disposto a correr os riscos de andar com ele.
— Quero ir à casa de um fidalgo cujo nome não sei. Apenas que tem dois filhos: uma menina chamada Florinda, e um rapaz chamado Miguel.
— Eu conheço e conduzir-vos-ei até lá, -- disse um dos homens.
— Está bem. Então partamos.
— Senhor, acho aconselhável tomarmos um batel, fingindo que vamos para bordo de uma nau. E depois desembarcaremos noutro ponto da praia...
E enquanto o barco ia vogando, Paco contava os atropelos e violências que Balsemão Geraldes, à sombra da impunidade do pai, cometia descaradamente. Desembarcaram depois de ultrapassada uma ponta de rocha e Fabrício deixou umas moedas ao barqueiro.
Internaram-se na vegetação quase bravia que a terra tinha naquele ponto.
— Agora precisamos de arranjar cavalos — disse Fabrício para o seu guia.
— Chiu! — recomendou este, encolhendo-se e puxando Fabrício atrás de si.
— Ali adiante! Olhe...
Amarrados ao tronco duma palmeira estavam quatro cavalos. Sentados no chão, os respetivos donos gozavam as delícias da sombra. Eram soldados.

— Vamos para a frente! Trata de desatar dois animais, montar num e abalar. Eu encarrego-me do resto e depois vou ter contigo!
Os soldados só se aperceberam claramente das intenções dos nossos heróis quando sentiram a pele rasgada pela ponta da espada de Fabrício e quando viram Paco desandar a galope num dos seus cavalos. Em dois minutos estavam três soldados estendidos no chão. O outro fugiu.
Então Fabrício escolheu um cavalo e partiu também, na pista de Paco.
— Ó senhor Don Fabrício! Se o senhor Don Domingos vos visse, não diria mais que Portugal já não tem guerreiros como os antigos...
— Quem é Don Domingos ?!...
— O pai do menino Miguel, o meu amo...
— Ah! Não lhe sabia ainda o nome. Pois vamos a casa do senhor Don Domingos saber novidades.
Don Domingos estava dormindo a sesta, e havia proibição absoluta de o acordarem, de modo que Fabrício viu-se obrigado a esperar e foi passear para o jardim. Ai encontrou Florinda. Saudou-a, e perguntou:
— Podeis dar-me novas de vosso irmão e do senhor Don Daniel?
A rapariga respondeu friamente:
— Nada sei deles, nem me interessa saber...
— Pois então senhora, tristes são os vossos sentimentos...
E dizendo isto, Fabrício voltou-lhe costas e afastou-se. Florinda, ficou vermelha como um pimentão, toda a tremer de nervoso.

A mocinha desatou a andar à toa, e foi parar ao pé do mesmo banco onde estivera com seu irmão na noite em que Fabrício trouxera Daniel. Era um banco próximo da entrada do jardim. Entretanto Balsemão Geraldes chegou e foi falar-lhe. Balsemão vinha acompanhado pelos seus amiguinhos do costume e por novo reforço de soldados do Governador.
— Olá, Florinda! Ainda bem que vos encontro a sós .
— E eu desejo agradecer-vos o modo como me haveis defendido em vossa casa, daquelas grosserias... — disse a moça.
— Nada fiz que tanto mereça... agradeça antes ao Governador que quer meter na ordem aqueles desordeiros e dar-lhes um castigo que impeça a repetição.
— Então pouco mais vos falta andar — interrompeu Florinda, encantada por achar a vingança que buscava. — Entrai e procurai...
— Qual deles está aqui?!
— Fabrício... o tal espadachim...
Balsemão empalideceu e recuou instintivamente uns passos.
— Aqui?! Não pode ser! — disse ele apressadamente, e deitando olhares medrosos em redor.
Florinda esbugalhou os olhos, espantadíssima. A escolta de Balsemão devia ter perto de cinquenta homens.
Balsemão corou, mas não ficou mais corajoso por aquela muda censura. Fabrício ganhara tal fama, que só um regimento se atreveria a atacá-lo de frente.
Para apagar a má impressão Balsemão esboçou mais um «projeto» de valentia, perguntando:
— E o outro? Sabeis onde está?
— Sei, sim. Mas vede que não vos faltem os homens suficientes... — disse, com uma pronta ironia.
— Oh! Para esse basto eu! Dizei-me onde o posso encontrar. Florinda baixou a voz, olhou à volta, e murmurou:
— Na «missão» de Vodagui...
— Obrigado. Eu vos vingarei!
E toda a soldadesca abalou, em grande tropel e grito. Tanto barulho fizeram que Fabrício veio a correr ver o que havia, e Don Domingos acordou da sesta e saiu para o jardim meio estremunhado e rabugento. Florinda tentou esconder-se, mas esbarrou com o pai ao virar uma esquina. Não se atreveu a mentir-lhe e contou-lhe o acontecido. Don Domingos não percebia, custava-lhe a acreditar.
— Então tu foste trair o teu noivo e o teu irmão?! Ahn?! Tu fizeste isso?!...
— Meu Pai, eles ofenderam-me...
— Cala-te ! Vai para o teu quarto, infeliz! E não saias de lá sem ordem minha!
A mocinha ajoelhou em terra, pedindo perdão. Compreendeu de repente a maldade do seu gesto. Mas Don Domingos já não lhe dava atento, porque Fabrício o puxava por um braço, pedindo:
— Arranje-me o melhor cavalo que tiver! Galoparei atrás daqueles bandidos, e não os deixarei chegar a Vodagui!
E antes de passados cinco minutos, Fabrício voava pelos campos fora para salvar o amigo.


No próximo artigo, a conclusão desta aventura.