terça-feira, 29 de setembro de 2015

ENTREVISTAS (20) - JOSÉ PIRES (1.ª parte)

Tal como Luís Afonso, que entrevistámos há pouco tempo aqui no BDBD, José Pires é um autor que deita por terra a malfadada fama de preguiçoso que têm os alentejanos, trabalhando entusiástica e continuamente todos os dias, provando assim que uma coisa nada tem que ver com a outra. 
A energia deste homem é um caso notável no meio bedéfilo, pois nunca está parado. Como ele próprio diz: "Parado, só depois de morto".
Antes de passarmos à entrevista propriamente dita, vejamos um pouco do que José Pires tem feito ao longo de uma carreira com mais de cinquenta anos, recheada de actividade, quer em Portugal quer na Bélgica, sendo um dos poucos desenhadores portugueses que se podem ufanar de ter brilhado no estrangeiro.
José Pires, um dos "grandes"
da BD portuguesa
Nasceu em Elvas, em 1935.
Estreou-se no "Cavaleiro Andante" com "O Último Prato de Tenton Gant".
É autor da primeira capa da revista "Zorro" (1962).
Publicou no "Mundo de Aventuras", nos anos 80. Pouco depois, iniciou colaboração com a "Tintin" belga e com a "Hello BD" (1993) fazendo parceria com os argumentistas Jean Dufaux e Benoît Despas.
Como faneditor, tem títulos publicados (de parceria com Jorge Magalhães e Catherine Labey, ou a solo) como Fandaventuras (1989), Fandwestern (1995) e A Máquina do Tempo (1996).
Nos últimos anos tem-se dedicado, com assinalável sucesso, a restaurar e a editar em formato fanzine grandes clássicos ingleses como "Rob the Rover", "Capitão Meia-Noite" ou "Matt Marriott".
Editou vários álbuns, tanto em Portugal ("Homens do Oeste", "Gil Eanes e o Bojador: As Portas do Mito", "A Viagem de Pedro Álvares Cabral: Ventos de Glória Marés de Infortúnio", "História de Gouveia, a Princesa da Serra", "A Batalha do Bussaco", etc) como na Bélgica ("Les Templiers: Le Sang et la Gloire"; "Alexandre Dumas: Le Diable Noir").
Fez, também, ilustração, colecções de cromos e trabalhou, durante muitos anos, numa agência de publicidade.
Foi homenageado pelo conjunto da sua obra nos Festivais BD da Sobreda (1996), Moura (1998) e Amadora (2011).
Tem vários projectos "na gaveta", entre eles três álbuns já prontos a editar (um em parceria com João Amaral) que aguardam apenas patrocinador.
Aqui está, então, a entrevista que nos concedeu há poucos dias e que, devido à sua extensão, será distribuída por dois posts.


BDBD – O gosto pela banda desenhada julgo que lhe terá surgido precocemente, como em quase todos nós. Ainda se lembra da primeira revista de banda desenhada que folheou? Ou das primeiras vezes que tentou imitar os desenhos que via? Como foi que a chamada 9.ª Arte entrou na sua vida?
"Falsa Acusação", de Vítor Péon,
despertou no autor a vontade de "fazer BD".
José Pires (JP) - No Mosquito, claro. Foi a primeira história do Vitor Péon “Falsa Acusação” (1943). Cativou tanto a minha imaginação que foi daí p’rá frente que desejei também fazer "coisas" daquelas. Fartei-me de desenhar as vinhetas do Vitor Péon e foi assim que descobri que tinha algum jeitinho. Daí em diante nunca mais parei de desenhar

BDBD – E como surgiu a hipótese de publicar banda desenhada pela primeira vez?
JP - Estava eu com 27 anos e trabalhava nas oficinas do Anuário Comercial (1962) onde era impresso o Cavaleiro Andante. O Artur Correia descobriu nos arquivos uma história que eu tinha entregue na redação, uns quatro anos antes, e apanhou-me de surpresa ao resolver publicá-la: era  “O Último Prato de Tenton Gant”, tirada de um conto publicado no Mosquito. Nessa altura eu procurava imitar o estilo do José Luis Salinas, autor do Cisco Kid, que eu admirava imenso. Ainda publiquei mais uma história, "Fumo de Pólvora em Gallows Crossing", como Burt Lancaster. Ainda tentei uma versão do “Eurico, o Presbítero”, como Charlton Heston, mas o preço que o Simões Muller pagava por página (150 paus!) levou-me a desistir. Mesmo assim ainda fiz a capa do n.º 1 da revista Zorro e mais três para o Cavaleiro Andante.
Fiz também uma coleção de cromos "Trajos de Todos os Tempos" para o Mário de Aguiar (APR, 1964), e outra "Os Cavaleiros do Céu", que também foi publicada em Portugal e na então Jugoslávia.
"O último prato de Tenton Gant" e "Fumo de pólvora em Gallows Crossing", 
dois dos primeiros trabalhos de José Pires publicados no "Cavaleiro Andante"

BDBD - Foi só nessa altura que teve a noção que queria, de facto, ser banda desenhista “a sério”, ou já antes tinha consciência de que era esse o caminho que pretendia seguir?
JP- Sempre desejei fazer “Histórias em Quadradinhos” e toda a vida procurei tornar-me um autor. Foi por causa disso mesmo que logrei um lugar de designer gráfico na CIESA-NCK (1964), agência de publicidade, onde eu desenhava os story-boards dos filmes publicitários (uma espécie de BD’s para mostrar a ideia nuclear aos clientes e cineastas.)

BDBD – O uso do computador mudou quase radicalmente a sua forma de desenhar ou de “fazer BD”. Que razões o levaram a ir por esse caminho e a deixar de lado as técnicas tradicionais, onde fez trabalhos a preto e branco que muita gente, ainda hoje, recorda com saudade?
JP - O uso do computador só apareceu nos anos 90 (95) pois o problema da cor era o que mais preocupava os autores de BD da época. Comecei apenas com a cor mas depressa engendrei técnicas próprias para aproveitar as potencialidades da máquina na resolução das deficiências que os processos ditos tradicionais enfrentavam. Desenhar o rodado de uma diligência, por exemplo. Mas o desenho tradicional continua a ser indispensável. Agora já não desenho as páginas mas apenas as vinhetas. Digitalizo as linhas para o computador (Photoshop), faço a montagem e meto a cor, vinheta por vinheta. E não tenho saudades nenhumas dos velhos processos. Longe disso. E o José Ruy, por mim influenciado, também já não quer outra vida.

BDBD – Não pensa, então, regressar à velha técnica do pincel, godé e tintas?!... Vê alguma hipótese de, um dia, voltar a desenhar uma história unicamente a preto e branco, com a célebre técnica do tracejado (que alguns confundem com o pontilhado de Franco Caprioli)?
JP -­ Ni hablar! Nunca me considerei um artista mas apenas um "fazedor de bonecos". Fiz alguns retratos a pastel ou a carvão e por aí me fiquei. O meu pontilhado, erradamente confundido com o do Caprioli (que era aleatório e o meu regular) foi retirado do Jean Giraud (Moebius) imitando as tramas fotográficas que então usava na Publicidade. Os belgas da Lombard (Tintin) até me chamavam o “Manara português”. Outra visão mais "avançada" das coisas…
Prancha de "Homens do Oeste", in "Mundo de Aventuras" (1980)

BDBD - O José Pires é, também, um dos poucos autores portugueses que publicaram com regularidade “lá fora”. Como foi essa aventura, como começou e porque acabou?
JP - Começou com o 25 de Abril. Os esquerdistas ameaçavam acabar com a Publicidade (a ponta de lança do capitalismo e da “sociedade de consumo”). Vendo o meu posto de trabalho em risco, decidi enviar os meus desenhos para as editoras belgas e francesas, pois aquilo era “a segunda coisa que eu melhor sabia fazer”. Respondeu afimativamente a Editions du Lombard. Emigrei assim sem sair de Portugal, enviando os originais pelo correio e eles mandando os francos por transferência bancária. Durou sete anos a brincadeira, publicando cerca de 200 páginas no Tintin e no Hello BD e um álbum, “La Sangre et la Gloire - a odisseia dos Templários, com guião do Benoit Despas, que teve edição bilingue em francês e flamengo. Foi na semana de lançamento o álbum mais vendido por terras francófonas. Belos tempos, esses... 
Tudo terminou porque o magazine Tintin acabou, por exigência dos herdeiros do Hergé (o título Tintin do magazine). O Hello BD demorou um ano a aparecer e esse ano de interrupção foi fatal - o magazine durou mais dois anos apenas. Agora a Lombard apenas publica álbuns.
"Irigo", uma BD que foi capa na Tintin belga, nos anos 80

BDBD - Gostava de voltar a publicar nesse ou em outros países europeus?
JP - Voltei a publicar em 2010 um álbum para as Éditions Orphie (“Alexandre Dumas - Le Diable Noir”). Estive em Angoulême (2010) mas não logrei vender coisa nenhuma - um contundente fracasso...
Capa e prancha de "Alexandre Dumas, le Diable Noir", Editions Ophie (2010),
com texto de Benoit Despas

BDBD – No seu trabalho, é nítida a utilização de rostos de actores famosos como John Wayne, Gary Cooper ou Leonardo DiCaprio na concepção dos personagens. O Cinema é, para si, outra paixão ou usa, simplesmente os rostos desses actores como modelos?
JP - Manter a similitude de uma personagem em imagem realista é muito difícil. Não fui nem o último nem o primeiro a usar rostos de actores nos meus trabalhos. O Milo Manara usou e abusou do Alan Delon para o seu Giuseppe Bergman e o Jean Giraud, o Belmondo para o seu Lieutenant Blueberry. O Hernandez Palácios, o Robert Redford para o seu MacCoy. Este muito antes de eu usar o Gary Cooper no Will Shannon. E, claro, quem é que não gosta de cinema?...
"Will Shannon", personagem que José Pires "vestiu" com o rosto de Gary Cooper

BDBD – O “western” é, julgo saber, o seu género favorito. Sei que tem uma colecção fascinante de objectos e livros relacionados com este tema, que certamente lhe servirão de modelo para as suas histórias. É muito importante a preocupação com todos os pormenores (armas, selas, edifícios, vestuário…) que giram à volta das histórias, sejam elas “western” ou não…
JP - Quem como eu, começou com o Vítor Péon e a “Falsa Acusação” só podia preferir o western. Isso mais as "coboiadas" que eu via nas matinés do cinema de bairro, claro. A preocupação com os detalhes não é uma preocupação apenas minha. O Tony Weare (Matt Marriott) por exemplo, viajou durante mais de um ano pelos States, desenhando ao mesmo tempo as suas tiras e enviando os originais para Inglaterra, para melhor se integrar no ambiente da sua personagem. Mas um autor que se preze preocupa-se sempre com a autenticidade e rigor daquilo que desenha. Possuir um bom banco de imagens é indispensável.
CR
(conclusão da entrevista no próximo post)

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