sábado, 25 de março de 2017

TALENTOS DA NOSSA EUROPA (18) - RALF KÖNIG (Alemanha)

Ralf König
Aqui está um exemplo muito especial: o alemão Ralf König. Este artista é irreverentemente divertido, e nos diverte também. Com um salutar
sarcasmo, empenha-se em ferir positivamente a apagada, entupida e vil tristeza dos retardados mentais que ainda circulam por aí, qual zombies mal nascidos... Como dizia o outro: "estou certo ou estou errado"?
Pois este “implacável” Ralf König tem uma especial inclinação em focar as angústias e as alegrias do mundo homossexual.
E por que não?!...
O seu traço é... digamos, quase “troglodita”. Todavia, as suas “acusações” são ironicamente implacáveis e dignas de aplausos, por muito que a arte de Ralf horrorize os que deambulam vazios por este mundo, com oportunas máscaras e/ou estranhas carapaças... Irra, que dói tanta hipocrisia!...
Com “Iago” e “Lysistrata”, por exemplo, ele atreveu-se (e que bem!) aos clássicos da Literatura.

E até já abordou temas ditos sagrados como da “Bíblia e do Corão”.

Nos assuntos cínicos da actualidade, tem um dos seus mais notáveis álbuns,
“O Preservativo Que Mata” (que só ainda existe em alemão e em francês).

Das outras sempre tão irresistíveis obras, indicam-se alguns títulos das edições em francês: “Marrons Glacés”...

“Étalons de Troie”...

“Les Onze Mille Viergenes”...

“Cornets d'Amour”...

“Pain d’Épice”, etc. Uma deliciosa loucura!

Um dia, um jornalista perguntou atrevidamente a Ralf se ele também era “gay”... E, prontamente, Ralf respondeu:
- Que eu saiba, o Walt Disney fartou-se de desenhar o Pato Donald e ele não era nenhum pato!
Ora toma!...
Besten dank, herr Ralf König! (Muito obrigado, senhor Ralf König!).
Ralf König nasceu a 8 de Agosto de 1960 em Soest, na Alemanha. A sua obra está sobretudo editada na Alemanha e em França. E, em Portugal, quando será? Quando?...
LB

quarta-feira, 22 de março de 2017

OBRAS RARAS (9)

José Garcês
EURICO, O PRESBÍTERO
Com este título, é uma das obras máximas, na via romance, de Alexandre Herculano, o nosso historiador por excelência.
Tema desafiador ao Cinema e à Televisão, por aqui não passou até hoje!... Mas, pela Banda Desenhada, mestre José Garcês, em bom tempo nele pegou e com bela arte, num maravilhoso preto-e-branco.
Com 42 pranchas, esta narrativa, foi inicialmente publicada na já extinta revista “Modas e Bordados”, de Setembro-1955 a Junho-1956. Uma jóia da nossa BD que parecia “perdida”...
Todavia, em 1983, esta honra da nossa Banda Desenhada foi reeditada, agora em álbum, pela Editorial Futura, com uma ou outra prancha redesenhada.
Porém... “já foi!”. Este álbum é difícil de se encontrar, salvo se estiver mafiosamente “escondido”...


Didier Comès (1942-2013)
ERGÜN, O ERRANTE
Que belo espanto!
O já saudoso e admirável criador belga Didier Comès (1942-2013), foi sempre e justamente louvado pela sua impecável arte no preto-e-branco.
Mas, Comès também se arrojou com a côr... precisamente com um herói que criou e do qual apenas elaborou os dois primeiros tomos, Ergün l’Errant: “Le Dieu Vivant” (O Deus Vivo) e “Le Maître des Tenèbres” (O Senhor das Trevas).  Nenhum deles, ainda, em português!...
Mas, lá pelas zonas francófonas, eles foram editados e reeditados.
De qualquer modo, hoje, consta que estão esgotados...



José Ruy
O BOBO
E tornamos (ainda bem!) a mais um texto de Alexandre Herculano.
Desta obra, calha agora a arte de outro grande mestre da nossa 9.ª Arte, José Ruy, que a seu tempo, teve a dignidade e a coragem de adaptar à BD, o romance histórico “O Bobo”. Um bem louvável atrevimento!
Tudo se iniciou na revista “Cavaleiro Andante”, com 51 pranchas, do n.º 249 ao n.º 308 (1956 e 1957).
Em 1989, numa versão redesenhada, é finalmente esta obra publicada em álbum pela Editorial Notícias. Ainda bem!... Mas, ainda mal também, porque esta edição está...esgotada!
E agora?!...
LB

domingo, 19 de março de 2017

ENTREVISTAS (24) - RAFAEL SALES

Rafael Sales
Nasceu e reside em Penalva do Castelo (Distrito de Viseu) a 6 de Dezembro de 1993.
Licenciou-se em Artes Plásticas e Multimédia na Escola Superior de Educação de Viseu.
Gosta de animais, preferencialmente, o gato.
Rafael Sales, como freelancer, trabalha em Ilustração, Banda Desenhada, Design Gráfico e Caricatura.
Tem quatro títulos editados, três histórias muito curtas e um álbum, a saber:

ARCADE JOB - foi o seu projecto final no curso. Narra a história de Mary Flowers, uma recém licenciada em artes com dificuldades em arranjar emprego.

UMA CARTA PARA MARIA - focando um tema familiar, este trabalho foi premiado há algum tempo num concurso-BD em Odemira.

RED RIDING HOOD - é uma peculiar paródia ao clássico infantil “O Capuchinho Vermelho” que, em 2016, foi incluída na antologia de Banda Desenhada “H-Alt” #4.

DETECTIVE RATON - é o seu verdadeiro primeiro álbum, com edição Escorpião Azul, da responsabilidade de Jorge Deodato. É uma divertida narrativa num “clima policial”, algures numa aldeia do interior de Portugal.

Aparentemente tímido, Rafael Sales, tem um positivo humor e um apurado sentido crítico. Eis a nossa “conversa”.

BDBD - Ao que se sabe, a tua sedução pelo desenho começou na infância. Houve algo que te despertou então para esta arte?
Rafael Sales (RS) - Quando eu era miúdo, o desenho era só mais uma forma de ocupar o meu tempo livre, mas nessa altura não sabia ao certo porque é que gostava de desenhar. Simplesmente, gostava. No entanto, aos meus 11 anos, comecei a dedicar mais tempo ao desenho e começaram a ser-me dados os primeiros elogios e apoio pela família e amigos, o que me motivou a desenhar mais.

BDBD - Depois, nunca mais paraste (e ainda bem!). Achas que é uma carreira difícil, sobretudo porque vives no interior e longe de Lisboa ou do Porto?
RS - Infelizmente, nos dias que correm, qualquer carreira ligada às artes, e não só, é difícil seja em que local for, mas eu diria que talvez nas grandes cidades, o facto de haver maior oferta cultural e artística, facilita a interacção entre novos artistas e profissionais da área, o que pode ajudar em termos profissionais. Mas hoje em dia a Internet permite aos artistas freelancer trabalharem de qualquer parte do mundo
sem necessidade de deslocação, e esse acaba por ser também o maior meio de promoção do meu trabalho. Para além disso, viver no interior é também uma grande inspiração para as minhas ilustrações e histórias de BD.

BDBD - Onde tens exposto os teus trabalhos, para além de Odemira, Amadora e Viseu?
RS - Tento participar em eventos que estejam associados à Banda Desenhada com uma banca para promover e vender alguns trabalhos da minha autoria.
O mais recente evento foi o Central Comics 2016, em Gaia, onde espero poder participar novamente este ano.

BDBD - Tens um estllo muito próprio, abordando bastas vezes, com uma peculiar linha humorística. O humor é mesmo a vertente que melhor sentes ou também apostarias na linha realista?
RS - Apesar de também esboçar traços realistas (principalmente edifícios), o meu estilo de desenho resulta das tentativas de tornar as minhas personagens e cenários mais expressivos e simples. No meu caso, essa simplificação do traço acabou por aproximar o meu estilo de desenho aos clássicos da BD franco-belga, nomeadamente o traço “cómico” de Uderzo ou Hergé, que sempre foram referências artísticas para mim. Considero que o desenvolvimento de um estilo próprio de desenho por um artista só traz vantagens, nomeadamente a facilidade com o traço que acaba de sair, ou o facto do artista não ter de seguir convenções ou regras, o que lhe dá mais liberdade artística. Para além disso, esse estilo acaba por se tornar uma espécie de “imagem de marca” do artista.

BDBD - Sentes-te influenciado, mesmo indirectamente, por alguns desenhistas profissionais e de renome?
RS - Sim. Quando me “apaixonei” pela BD, foi através da mangá japonesa, nomeadamente com artistas como Akira Toryiama e Masahi Kishimoto. À medida que ia explorando o mundo da BD, encontrava ilustradores e cartunistas com um estilo de desenho diferente que iriam influenciar o meu traço, tais como Bill Watterson, Chris Uminga, Jim Borgman e os irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon. Mais tarde, ao explorar o mundo dos “comics americanos”, encontrei artistas como Jack Kirby, Mike Mignola, Frank Miller e John Romita Jr.
Pelo nosso Portugal, estão na minha lista de favoritos Filipe Andrade, Jorge Coelho e Joana Afonso, entre outros.


BDBD - Na tua maneira de ver e de sentir, o que é para ti a Banda Desenhada? 
RS - Vou tentar não dar a resposta do dicionário de língua portuguesa! Para mim, a BD é uma forma de contar histórias, extremamente desvalorizada e que caiu no estereótipo de ser “bonecos para crianças” (sim, hoje em dia ainda há quem ache isto). Obviamente, não concordo com esta última parte, pois considero a Banda Desenhada uma forma de arte válida e que envolve um processo criativo extensivo, trabalhoso, mas que dá um gozo enorme de fazer. Em apresentações ou tentativas de explicar às pessoas porque é que a BD merece mais respeito, costumo dizer o seguinte: o processo de criação de uma BD pode, seguindo algumas convenções mais comuns, incluir o uso de diversas formas de arte, ou seja, um artista de BD é escritor, pois tem uma ideia e escreve o guião da sua história; é realizador, pois transforma o guião em imagens apelativas; é arquitecto para desenhar os cenários; é designer da moda na concepção de personagens; deve ter noções de composição; e, em alguns casos, é ainda pintor para dar côr aos seus desenhos. Se todo este processo não é o suficiente para convencer as pessoas de que a Banda Desenhada não deve ser tratada como uma coisa descartável e desprovida de criatividade, então não sei o que as poderá convencer. Talvez aconselhando-as a ler algumas BD’s e fazê-las perceber de uma forma mais prática.


Cartune realizado ao vivo por Rafael Sales em Viseu,
em Janeiro último, durante a homenagem a Luiz Beira.
BDBD - É certo que és jovem e que tudo te destina para uma bela e longa carreira através das vertentes da tua arte. Neste campo, acalentas algum sonho muito especial?
RS - Embora não goste muito da palavra sonho, diria que um dos meus objectivos é viver exclusivamente das minhas histórias de BD e ilustrações. Outra coisa que espero poder fazer a longo prazo, é desenvolver projectos livres de Cinema e Música.

BDBD - Gostas de ser o autor do texto nas tuas criações ou aceitarias também, ocasionalmente, trabalhar em parceria com algum outro argumentista?
RS - Nunca aconteceu trabalhar com um escritor, e penso que se deve ao facto de não ser muito bom a trabalhar em equipa. No entanto, gostaria de experimentar fazê-lo um dia. Até lá, ideias para histórias não me faltam.

BDBD - Que caminho preferes: a côr, o preto-e-branco ou ambas as versões?
RS - Não sou muito bom colorista. Tendo a usar cores sólidas e esquemas cromáticos o mais simples possíveis para não se notar muito a minha fraqueza nesse aspecto. Por essa razão, e apesar de considerar que a côr ajuda a contar a história, ultimamente tenho trabalhado a preto e branco por uma questão de rapidez. Respondendo à pergunta: ambas as versões.

BDBD - Qual o teu próximo trabalho a ser editado?
RS - Neste momento estou a trabalhar numa BD chamada “Beirão”, que será lançada ainda em 2017.

BDBD - Muito obrigado, Rafael Sales, pela tua gentileza em responder a esta entrevista. Até breve!
LB

quinta-feira, 16 de março de 2017

DE ACTORES A HERÓIS DE PAPEL (14) - NORMAN WISDOM

Norman Wisdom (1915-2010)
Admirável actor inglês, através dos seus inúmeros filmes, brindou-nos com hilariantes prestações à 7.ª Arte, pela sua comicidade e pela sua genica, tão cheias de trapalhadas e astúcias, sobretudo nas décadas dos anos 50, 60 e 70.
Para além de actor, também foi cantor e autor de letras para canções.
Norman Wisdom, de seu nome completo Norman Joseph Wisdom, nasceu em Londres a 4 de Fevereiro de 1915 e faleceu em Ballasalla (Ilha de Man) a 4 de Outubro de 2010. Cinco anos antes, pelos seus 90, retirou-se da carreira artística dada a já marcante deterioração da sua saúde.
A sua infância e adolescência não foram nada felizes, nem para ele nem para a sua família. Ocupou-se de alguns trabalhos menores e também deu a sua participação ao exército inglês durante a 2.ª Grande Guerra.
É aos 31 anos de idade que inicia a sua carreira artística. E foi, degrau a degrau, uma subida de popularidade e glórias. O grande Charlie “Charlot” Chaplin desabafou um dia que Norman Wisdom era o seu “clown” (palhaço) favorito.
Teve séries na Televisão e várias vezes pisou o palco, incluindo por terras da Austrália e da República Sul-Africana. Famoso também na América do Sul, os seus filmes foram os únicos do mundo ocidental que foram permitidos na Albânia, então sob a ditadura comunista de Enver Hoxha.
O seu primeiro filme foi “Date With a Dream” em 1948, e os seus últimos, foram as séries-tv “Coronation Street” (2004), “Last of the Summer Wine” (1995-2004) e a curta-metragem “Expresso” (2007).
Norman Wisdom ladeado por Stan Laurel (Estica)
e Oliver Hardy (Bucha)
Criou o seu próprio (e quase constante) personagem, Norman Pitkin.
Principais películas da sua carreira: “O Homem do Momento” (Man of the Moment - 1955), “Norman na Tropa” (The Square Peg - 1958), Pequeno Homem, Grande Homem” (There Was a Crooked Man - 1960), “Norman Marujo” (The Bulldog Breed - 1960), “Norman na Scotland Yard” (On the Beat - 1962), “Norman no Hospital” (A Stitch in Time - 1963), Norman Jornalista” (Press For Time - 1966), etc, etc. 
  
Teve um admirável papel dramático em Nova Iorque (1981) no palco, em “Going Gently”.
Consta na Filatelia britânica e tem uma estátua em Douglas (Ilha de Man).
E com toda a justiça, a Banda Desenhada não o esqueceu, especificamente no seu país. Mostramos abaixo alguns exemplos, muito embora e com tristeza, não saibamos com garantia, indicar qual é (ou quais são) o desenhista.
Naquele tempo, eram “ilustres desconhecidos”!!...
Carinhosamente e com saudade, o BDBD aqui o regista.
LB
"Radio Fun" #706 (19.04.1952)
"Radio Fun" #831 (11.09.1954)
"Film Fun" (15.10.1955)
"Film Fun" (04.08.1956)
Capa de "Radio Fun Annual" (1956)
"Radio Fun Christmas Number" (27.12.1958)
Estátua de Norman Wisdom, em Douglas na Ilha de Man