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| Eu e o Jorge Magalhães, observando revistas com trabalhos de Caprioli, na exposição comemorativa do Centenário do Nascimento deste autor, ocorrida em Moura, em 2012. |
Um amigo meu partiu, há precisamente uma semana, para o panteão desta Arte que designamos por BD.
Chamava-se Jorge. Ou
melhor… chama-se Jorge, porque o
Jorge não morreu. Continuará presente
na minha vida e na vida de muitos outros. Especialmente daqueles que gostam de banda desenhada.
Foi através do meu
parceiro de blogue, Luiz Beira, que contactei com o Jorge pela primeira vez.
Estávamos em 2000,
ano em que o Salão Moura BD tinha como tema o “Western”. O Beira disse-me que o
Jorge Magalhães era um grande entusiasta e entendido no assunto e eu lembrei-me
de o convidar a escrever um texto para inserir no programa-catálogo.
Embora eu já
conhecesse o Jorge Magalhães enquanto argumentista, articulista e coordenador
editorial, nunca nos tínhamos cruzado nos diversos salões e festivais que ambos habitualmente frequentávamos.
Telefonei-lhe, apresentei-me
e disse-lhe o que pretendia. Do outro lado respondeu-me a voz de um homem
afável e educado, que, vez por outra, gaguejava quando as palavras não acompanhavam o ritmo alucinante do seu raciocínio, e que usava com alguma
frequência a expressão “Bem entendido”, quando queria esclarecer melhor alguns
pontos da conversa.
O Jorge disse-me que,
por coincidência, até tinha um texto - intitulado “O Western na BD Portuguesa”
- que começara a escrever em tempos e que estava "praticamente" terminado (como
mais tarde eu perceberia, para o Jorge os seus textos nunca estavam
verdadeiramente terminados; havia sempre mais qualquer coisa a acrescentar ou a
rever…) mas que não sabia se caberia no catálogo.
- Quanto espaço é que
vocês têm? - perguntou.
Eu respondi que umas
quatro páginas A5, no máximo.
- Isso não chega nem
para metade do texto! - retorquiu ele do outro lado do telefone.
Propus-lhe, então, a
publicação de uma brochura fotocopiada, sem limite de páginas e com
ilustrações em preto e branco, para distribuição gratuita pelos visitantes. O
Jorge, com a humildade e a simpatia que o caracterizavam, concordou com a
proposta e não colocou qualquer entrave, apesar do aspecto verdadeiramente modesto
da edição.
Sete anos depois, a Câmara de Moura reeditaria este opúsculo, numa edição de luxo a cores, revista e aumentada, que deixou o Jorge satisfeitíssimo.
Tratava-se do segundo número da Colecção “J.M.”, título que ele, a princípio e por modéstia, não queria utilizar mas que, por insistência minha, acabou por aprovar, chegando um dia a dizer-me, com indisfarçável sorriso nos lábios, que, para além dele, mais ninguém se poderia orgulhar, no meio bedéfilo português, de ter uma colecção com o seu próprio nome.
O Jorge, acompanhado pela
sua inseparável companheira Catherine, visitou o Moura BD 2000 e desde logo
ficou encantado com o ambiente do salão e com a qualidade das exposições. Foi,
a partir daí, um admirador incondicional e uma visita regular do mesmo (seria muito
justamente premiado com o Troféu Balanito Especial, em 2002).
Sete anos depois, a Câmara de Moura reeditaria este opúsculo, numa edição de luxo a cores, revista e aumentada, que deixou o Jorge satisfeitíssimo.
Tratava-se do segundo número da Colecção “J.M.”, título que ele, a princípio e por modéstia, não queria utilizar mas que, por insistência minha, acabou por aprovar, chegando um dia a dizer-me, com indisfarçável sorriso nos lábios, que, para além dele, mais ninguém se poderia orgulhar, no meio bedéfilo português, de ter uma colecção com o seu próprio nome.
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| Capas da primeira e segunda edições de "O Western na BD Portuguesa" (2000 e 2007) Edição da Câmara Municipal de Moura |
Encetámos, assim, uma
relação cordial que rapidamente se transformou numa grande amizade, com vários episódios
que valeria a pena aqui focar, mas que deixaremos para uma outra ocasião, de
maneira a não tornar este texto ainda mais extenso.
Uns anos depois, em
2015, publiquei um post num outro blogue, acerca do meu western
favorito: “Shane”.
O Jorge leu o post e comentou-o, dizendo que esse
também era um dos seus filmes de eleição e acrescentando que o argumento fora
extraído de um excelente livro de Jack Schaefer, com edição em português.
Ao perceber que eu
desconhecia este facto, o Jorge prometeu emprestar-me o livro na próxima vez
que nos encontrássemos.
O tempo, contudo, foi passando e eu acabei por (quase) esquecer este assunto, pensando que o Jorge - assoberbado com projectos - também o tivesse esquecido.
Até que, em Junho
último, me desloquei em serviço a Cascais (onde o Jorge vivia) e, naturalmente,
logo combinámos tomar um rápido cafezinho, só para matar saudades.
Assim aconteceu.
Eu, a Catherine e o
Artur Jr. (filho do malogrado Artur Correia, e também morador em Cascais)
sentámo-nos na esplanada de uma pastelaria que fica em frente à casa da
Catherine e do Jorge, enquanto aguardávamos por este, que ficara a procurar
qualquer coisa.
Quando finalmente
apareceu, trazia na mão uma pasta amarela. Sentou-se ao meu lado, abriu
a pasta e dela retirou um pequeno livrinho de bolso. Na capa do livro, em letras
vermelhas, a palavra “Shane” e por baixo, numa moldura oval, a imagem de um
vaqueiro cavalgando no deserto.
- Tome, Carlos, é
para si! Comprei-o num alfarrabista de propósito para lhe oferecer! – disse-me
o Jorge, tentando esconder um sorriso mal disfarçado.
Completamente surpreendido - com um sorriso que, pelo contrário, não disfarcei -, peguei no livro
e, em segundos, apreciei a capa, folheei e cheirei algumas páginas e li, rapidamente,
as primeiras duas linhas.
- E aqui tem a versão em filme,
que lhe arranjei na semana passada! - acrescentou de seguida, estendendo-me
uma caixa de DVD com a figura de Alan Ladd na capa, quase sem me dar tempo para agradecer tanta amabilidade.
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| As prendas do Jorge, que guardarei para sempre com especial carinho |
O Jorge era uma
pessoa importante neste pequeno grupo a que chamamos “bedéfilos”.
Era mesmo muito
importante.
Ele fez tanta coisa
pela BD, ao longo da vida!... Além de leitor e coleccionador, foi investigador de
prestígio, argumentista ímpar, tradutor, chefe de redacção de várias revistas, coordenador
editorial, editor de fanzines, publicou artigos em inúmeros jornais e revistas…
Ultimamente, optara por publicar os seus textos em blogues, que ia criando à
medida que necessitava de falar sobre assuntos diferentes (O Western, Caprioli, “O Mosquito”…).
O Jorge, para além de
ser uma autêntica Enciclopédia viva, era extremamente rigoroso no trabalho.
Por isso atingiu um
patamar onde muito poucos conseguiram chegar e menos ainda se conseguiram
manter.
“Carlos, ao escrevermos
um texto ou paginarmos um livro, não devemos descurar nenhum detalhe pois quando
é que isto poderá ser reeditado outra vez? Se calhar nunca mais…” - dizia-me
ele, numa das longas conversas que mantínhamos ao telefone, que por vezes
duravam mais de duas horas, mas que hoje me parecem insuficientes e breves.
Ah, como eu gostaria
de conversar uma vez mais com o Jorge - uma vez só que fosse!…
Conversaríamos, como
sempre, sobre o Caprioli, o Carlos Gimenez, o Geoff Campion ou qualquer outro dos grandes desenhadores clássicos europeus...
Ou sobre os nossos Péon, Bento e Coelho...
Ou sobre “O Mosquito”,
o “Cavaleiro Andante” e o “Mundo de Aventuras”...
Ou sobre o Trigo, o
Jobat e o Carlos Roque, que ele admirava profundamente como artistas e como
Amigos.
Ou sobre o salão e as
publicações de Moura, que o Jorge sempre cobria de elogios.
Ou sobre o “Shane” e
outros western de referência.
Ou sobre o Garra
d’Aço, o Gringo, o Major Alvega e tantos outros personagens famosos,
hoje praticamente esquecidos pelo público mas que o Jorge recordava como um menino de oito anos...
Ou sobre um milhão de
coisas mais…
Um dia, certamente, essa conversa acontecerá. Será inevitável.
Até lá, resta-me
pensar que tive muita sorte por ter privado de perto com alguém da dimensão humana e profissional do Jorge, que, com o seu exemplo, me ajudou a ser uma pessoa melhor.
Até sempre, Jorge!
Carlos Rico
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| Em 2000, na primeira vez que visitou Moura, observando a exposição sobre "O Western", com o desenhador José Pires, com quem manteve uma estreita amizade e colaboração. |
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| Recebendo o "Troféu Balanito Especial", durante a cerimónia de Encerramento do salão Moura BD 2002. |
| Em 2007, no Salão Moura BD, observando atentamente a exposição "Coleccionando Tex" |
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| Com Fabio Civitelli, durante o salão Moura BD 2007 |
| Em Moura (2007), com a sua companheira, Catherine Labey, durante o almoço de confraternização do festival |
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| Com o casal Baptista Mendes e João Amaral, à porta do Cine-Teatro Caridade, após a sessão de homenagens do salão Moura BD (2007) |
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| Com Luiz Beira, Carlos Rico e Maria José Silva (Vereadora da C.M. de Moura) durante a inauguração da exposição comemorativa do Centenário de Franco Caprioli (Junho de 2012) |
| Em Viseu, numa foto de grupo durante a inauguração da exposição de Franco Caprioli (Agosto de 2012) |
| Com António Amaral, Catherine Labey e António Mata, durante a inauguração da exposição de Franco Caprioli, em Viseu |
| Com Pedro Massano, durante o almoço de confraternização do salão Moura BD 2013 |
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| Com António Amaral, durante o Moura BD 2013. |
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| Em 2013, com Leonardo De Sá nas ruas de Moura, de visita ao último salão daquela cidade |
Nota: os créditos de algumas das imagens que ilustram este post são de Jorge Machado Dias, Dâmaso Afonso, Cristina Amaral, Osvaldo de Sousa, José Carlos Francisco e do arquivo fotográfico da CM Moura. A todos o nosso obrigado.










Parabéns pelo belo texto. Gostei também de rever alguns velhos amigos no conjunto de fotos que o ilustra. Sinto muito pela partida do Jorge Magalhães. Saudações cordiais.
ResponderEliminarObrigado, Amâncio.
EliminarTodos nós estamos muito tristes por ver partir uma pessoa como o Jorge, é verdade.
Mas todos temos, também, a certeza de que o seu nome e a sua obra ficarão eternizados na História da BD Portuguesa.
Saudações.
Carlos Rico