sexta-feira, 16 de novembro de 2018

TALENTOS DA NOSSA EUROPA (29) - ÉDOUARD AIDANS (Bélgica)

Édouard Aidans (1930-2018)
A sua admirável obra é muito extensa, englobando histórias curtas, médias e longas, onde chegou a usar pseudónimos como: Jok, Joke, Hardan e Edouard Delacroix.
Édouard Aidans nasceu em Andenne (Bélgica) a 30 de Agosto de 1930.
Muito cedo se apaixonou pela Banda Desenhada, tanto por leituras (sobretudo pela revista “Spirou”) como tentando criá-la.
Em 1956, estreou-se precisamente na “Spirou”, com histórias curtas para a série “Les Belles Histores de l’Oncle Paul”.
Depois, foi desenhando também para outras publicações como “Tintin”, “Line”, “Pilote”, Super-Ass“Achile Talon Magazine... Em Portugal, criações suas foram publicadas no “Cavaleiro Andante”, “O Falcão”, Nau Catrineta”, “Zorro”, “Selecções  do Mundo de Aventuras”, “Pisca-Pisca” e na edição portuguesa de “Tintin”.
Aventuras de Tunga (Tounga), na revista "Tintin"

Apostou-se na 9.ª Arte realista, mas abordou também o humor (“Bob Binn”, “Gourh le Ba-Lourh”)...
"Gour la Bal-Lourh: ses amis, ses amours...", por "Joke" (Édouard Aidans), Ed. Dargaud (1977)

...e até o humor erótico, como no caso da breve série (com 3 álbuns”) “Les Saintes Nitouches”.
Capas dos dois primeiros volumes de "Les Saintes Nitouches",
 por "Hardan" (Édouard Aidans), Ed. BD Folies (1995 e 1996)

A sua primeira obra “em continuação”, foi “O Dossier Verde”, publicada no “Cavaleiro Andante” do n.º 479 ao 494.
"O Dossier Verde", por Gall (texto) e Aidans (desenho), in "Cavaleiro Andante" #479 a #494 (1960)

“La Toile et la Dague”, em três tomos, é uma bela série histórica.
Capas dos três volumes de "La Toile et la Dague" , com desenhos de Aidans e textos de Dufaux,
Ed. Dargaud (1986, 1988 e 1989)

Com “Tony Stark” (6 álbuns), aposta no “western”.
"Les Voleurs de Nuages", quarto volume de "Tony Stark", Ed. Hachette (1981)

"La Peau des Outres", sexto volume de "Tony Stark", Ed. Hachette (1982)

Mas tem mais: “Arkan” (1 álbum)...
"Arkan: l'Écume du Diable", por Tarvel (texto) e Aidans (desenhos), Ed. Vaisseau D'Argent (1990)

 “Les Aventures d’Alex Vainclair” (1 álbum)...
"Les Aventures d'Alex Vinclair", por A.P. Duchateau (texto) e E. Aidans (desenho), Ed. Pan Pan (2012)

...e “Les Panthères” ( três álbuns e um integral).
"L'Homme qui Refusait la Vie", segundo volume de "Les Pantheres", por
Greg (texto) e Aidans (desenhos), Ed. Lombard (1974)

Mas as suas mais notáveis glórias registam-se nas séries “Tounga” (8 álbuns)...
"Tounga et les Hommes Rouges", segundo volume da série "Tounga", Ed. Lombard (1967)

...e “Les Franval” (12 álbuns). Desta, o título que mais nos toca é “Destination Desertas”, até hoje inédito, via álbum, em Portugal.
"Destination Desertas", por Yves Duval (texto) e Édouard Aidans (desenhos), Ed. Lombard (1968)

"Le Démon du Temple", com texto e desenho de Édouard Aidans, Ed. Bedescope (1980)

Para dois álbuns, Aidans criou os episódios “La Dinamitera” e “Le Poison Vert”, com os personagens da série “Bernard Prince”, criada por Hermann.
Em 2001, o Centre Belge de la Bande Dessinée editou um pequeno volume (já raro de se encontrar), mais ou menos biográfico, com o título “Sur la Piste d’Édouard Aidans”.
"Sur la Pist d' Édouard Aidans", Ed. Centre Belge de la Bande Dessinée (2001)
A terminar, salientamos algumas curtas da imensidão que ele criou: “O Paladino Rolando”, “Amelia Earhart”, “Ney”, “Simon Bolivar”, “Manolete”, “Ernest Hemingway”, “Jeanne d’Arc”, “Richard Wagner”, “Sidney Bechet”, “Beethoven”, etc.
Aplausos a Édouard Aidans!
LB
"Aventuras do Paladino Roldão", in "Cavaleiro Andante" #213 (1955)

"Bolivar herói da Venezuela", in "Cavaleiro Andante" #337 (1956)

terça-feira, 13 de novembro de 2018

NOVIDADES EDITORIAIS (158)

ET PUIS MERDE - Edição Dupuis. Autor: Hermann.
“Et  Puis Merde” é o 36.º álbum da série “Jeremiah”.
Jeremiah e o seu constante companheiro Kurdy, escapam de um pavoroso incêndio que consome o hotel onde estavam, incluindo as suas preciosas motas que ficam totalmente “grelhadas”. E não faltam convencidos e mal intencionados que os perseguem. Em fuga, os dois amigos vão parar a uma propriedade  privada que esconde um terrível mistério. O quê ou quem?...
Neste ambiente, diremos que o enredo deriva, a seu modo, para um certo clima do insólito.
Estranho e belo álbum, a ler!


ISLANDIA - Edição Soleil. Autores: Jean-Luc Istin (argumento), Zivorad Radivojevic (traço) e Eber Evangelista (cores).
É o primeiro tomo da série de ficção-científica, “Conquêtes”.
Uma vigorosa e espectacular aventura, onde o traço de Radivojevic e a côr de Evangelista, até certo ponto, nos lembram a magnífica arte do espanhol Vicente Segrelles...
De resto, toda esta obra nos cativa através do seu estranho e enigmático desenrolar, com momentos de grande beleza.
Série a acompanhar com o merecido entusiasmo.


L’ÂGE D’OR / 1 - Edição Dupuis. Autores: argumento de Roxanne Moreil e arte de Cyril Pedrosa.
O admirável Cyril Pedrosa e a sua actual companheira Roxanne Moreil, projectaram uma obra de peso (que terá um segundo tomo), “L’Âge d’Or”.
Uma espantosa viagem cheia de encantos, intrigas, coragens e medos, que em primeira ideia, se passa na Idade Média e ao sabor dos contos infantis. Mas não é bem assim...
Como desabafou Pedrosa numa recente entrevista: “Na Idade Média, a ordem feudal parecia inabalável. Sabe-se como acabou”.
Bravo, Roxanne e Cyril!


UM COWBOY EM PARIS - Edição Asa. Autores, segundo Morris: argumento de Jul e arte de Achdé.
“Um Cowboy em Paris” é uma divertida paródia à... Liberdade, servindo-se da famosa estátua (que a França ofereceu aos Estados Unidos da América do Norte), que se encontra num ilhéu frente a Nova Iorque. O ilhéu que agora tem o nome de Ilha da Liberdade, foi anteriormente chamado de Ilha Bedloe. Por esta situação, na famosa peça “Liberdade, Liberdade!”, o saudoso actor brasileiro Paulo Autran, cita que afinal, a “Liberdade” nunca penetrou nos Estados Unidos, pois ficou-se por esse ilhéu...
Neste tomo, a grande diversão está no encontro e comparações de franceses e norte-americanos. Os famigerados irmãos Dalton surgem, mais ou menos, só no princípio. De resto tudo conta com Lucky Luke e o seu cavalo Joly Jumper. Entre outros, há três personagens reais: Frédéric Auguste Bartholdi e Gustave Eiffel, que idealizaram e construíram a estátua de “Lady Liberty”, e o escritor Victor Hugo.
De través, pelas viagens de barco de ida-e-volta pelo Atlântico, acontecem os impagáveis momentos do valente Lucky Luke enjoando “a todo o vapor”...
LB

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

HERÓIS INESQUECÍVEIS (59) - CAVALEIRO ARDENTE


Este corajoso paladino nasceu a 4 de Janeiro de 1966, na edição belga de “Tintin”, sob criação absoluta e plena de entusiasmo do mestre François Craenhals (1926-2004).
François Craenhals, recorde-se, foi o primeiro desenhista estrangeiro homenageado ao vivo nos saudosos Salões “Sobreda-BD”, em 1986, sendo também a primeira vez que veio a Portugal. E foi um autêntico e assolapado “amor à primeira vista”: apaixonou-se pelo nosso país, onde fez bons amigos, adorou o nosso peixe e os nossos vinhos, sobretudo o vinho verde que ele provou nesse ano.
Voltou à Sobreda, em 1990 e em 1992, e ao Salão-BD de Viseu, em 1998. Sonhava tornar à Sobreda mais uma vez, mas foi traído pelo seu coração durante uma operação em 2004...
Cavaleiro Ardente (Chevalier Ardent, no original), é um dos seus heróis (série) mais sedutores e vigorosos.
Conta, via edições Casterman, com 20 álbuns, donde também, com uma dezena na versão Integral.
Capa de "L'Arc de Saka", Ed. Casterman
Prancha de "L'Arc de Saka", Ed. Casterman
Capa de "Le Piege", Ed. Casterman
Capa de "Intégrale" #1, Ed. Casterman
Capa de "L'Intégrale" #3, Ed. Casterman

Outras aventuras suas, ligeiramente mais curtas, saíram por outras editoras: “Sang de Boeuf”, “La Salamandre”, “Le Tour Sarrasin”, “O Duende”, “Les Loups-Garous”, “Le Chien des Arboë”, etc.
Capa e prancha de "Sang de Boeuf", Ed. Magic Strip

Em Portugal, contou apenas com cinco  álbuns: o primeiro, “O Príncipe Negro”, pelas edições Bertrand, e os quatro seguintes (“Os Lobos de Rougecogne”, “A Lei das Estepe”, “A Trompa de Névoa” e “A Harpa Sagrada”) pelas edições Verbo.
Capa de "A Lei das Estepes", Ed. Difusão Verbo (1985)
Prancha de "A Lei das Estepes", Ed. Difusão Verbo (1985)
No entanto, outras histórias do Cavaleiro Ardente foram publicadas no “Mundo de Aventuras” e na edição portuguesa de “Tintin” (e publicações satélites).
Chevalier Ardent no "Mundo de Aventuras" #374 (11.12.1980), com capa de Augusto Trigo
No final deste post, reproduzimos do “Almada-BD Fanzine” n.º 1 (1990), quatro divertidos cartunes referente a este herói, sendo um deles, gentilmente criado pelo próprio Craenhals; os outros três, são de Artur Correia, Augusto Trigo e Vítor Teodósio. Magníficos!
Craenhals (1926-2004)
Hoje, os álbuns com aventuras do Cavaleiro Ardente em português, são bem raros de se encontrar. A série, “em oca teoria”, não vingou entre nós com o devido mérito que lhe era devido, por despiste ou total incapacidade das nossas editoras do “vou ali e já volto”... Paciência, já que continuamos desnorteados nas poeiras de Alcácer-Quibir!...
A arte do saudoso e amigo mestre François Craenhals e as bravuras maravilhosas do Cavaleiro Ardente, continuam bem vivas nos nossos bedéfilos que se prezam!
LB

Cartune de François Craenhals, in "Almada BD Fanzine" #1 (1990)
Cartune de Artur Correia, in "Almada BD Fanzine" #1 (1990)
Cartune de Augusto Trigo, in "Almada BD Fanzine" #1 (1990)
Cartune de Vítor Teodósio, in "Almada BD Fanzine" #1 (1990)

sábado, 3 de novembro de 2018

AS HISTÓRIAS QUE RESIDEM NA GAVETA (4) - por José Ruy

Nos artigos anteriores tenho vindo a mostrar aos leitores do «BDBDBlogue» as histórias em quadrinhos que repousam há tempo (alguns anos) na gaveta, que é o termo que costumamos aplicar ao que está emperrado, sem seguimento.
Este artigo é a continuação da história da Bulgária, país que visitei de ponta a ponta, fazendo pesquisas e desenhando pormenores em todas as Cidades importantes, que são muitas.
É o que vou agora mostrar, os esquissos feitos passo a passo numa recolha de elementos e dados históricos.
Comecei logo no avião da Balkan Air, que tomei em Madrid, pois esta companhia não fazia escala em Portugal em 1989. Tudo o que fui vivendo seria transferido para as personagens, por isso o interesse pelos mínimos detalhes, desde os letreiros em búlgaro colocados no avião, ao tipo de bancos, janelas, passando pelas fardas das hospedeiras de bordo.
Mas porquê desenhar, e não simplesmente fotografar, o que aparentemente seria mais rápido, perguntarão.
Acontece que em locais específicos em todo o mundo, nem sempre nos é autorizado fotografar, e além disso num desenho podemos definir um recorte que na fotografia se perde com sombras e a amalgama de planos. Mas o apontamento tem de ser muito rápido. Como nem sempre há condições para utilizar lápis de cor ou aguarelas, aponto por escrito as cores.
O que mostro são folhas de blocos de tamanho reduzido, 12 x 17 cm, que cabem num bolso e discretamente posso usar em qualquer altura.
Em cima, apontamentos rápidos dos motoristas. O primeiro, acompanhou-me durante a estada em Sófia, e o de baixo no circuito por todo o país. Por fim, a guia búlgara que falava corretamente o português.

À esquerda, um esquisso do hall do hotel «Mar negro», em Varna. A seguir uma roulotte adaptada para venda de café e outras bebidas com algo para comer. Tinha uma pequeníssima esplanada com duas mesas e cadeiras, numa praça junto ao mar. Nessa folha fiz apontamentos escritos recordando detalhes e situações de regiões por onde íamos passando. Escrevi «macieiras pequenas».
Na Bulgária não deixavam crescer as árvores de fruto para cima, iam cortando os ramos obrigando-as a rebentar para os lados, e assim uma pessoa em pé podia proceder à apanha dos frutos, sem precisar de escadas ou de algum mecanismo para o efeito. Era um espetáculo estranho, ver aqueles alinhamentos de árvores anãs, mas tão funcionais.

Na página ao lado, tirada ao acaso do conjunto, assinalo um caso curioso que não resisto em divulgar. Perto de um campo de aviação, uma autoestrada serve de alternativa para os aviões aterrarem, quando as condições meteorológicas não permitem faze-lo na pista. Foi concebida mais larga, e na área não existem árvores.
Mais uma prova da utilidade de se conhecer pessoalmente os locais que queremos incluir nas narrativas.

Na Cidade de Vratza chamou-me a atenção esta picota, que também é usada no nosso país, mas com a secção que leva o balde dentro do poço, constituída por segmentos de madeira articuladas por meio de argolas.

Num museu fixei este primitivo canhão artesanal, construído por camponeses na sua luta contra o opressor turco, que durante 500 anos ocupou a Bulgária. Era em madeira. O cano do canhão tinha um tubo de ferro no interior por onde saia a bala, com anéis deste material a abraçavam o revestimento também de madeira. Foi assim que os resistentes começaram a fazer frente aos turcos.

O desenho a seguir foi executado num carro em andamento, quando seguíamos numa das autoestradas. Registei aqui o recorte do horizonte, com as montanhas à esquerda e poucas árvores a ladear. Este esquisso é o suficiente para eu utilizar no desenho definitivo, de modo a que o leitor identifique o local onde as personagens se encontram, e não fazer um horizonte qualquer, inventado. As pessoas que vivem nos locais reconhecem assim o que se mostra no livro. Isso dá-lhe autenticidade.

Tenho pena pelo facto desta história não ter visto até agora a luz do dia, mas dou por bem empregue todo o esforço e trabalho, pois aprendi muito e isso é o melhor que podemos colher destas aventuras. Também desconheço se a Bulgária mantém estas características.

Voltaremos a retirar da gaveta mais uma história.
Mas isso faremos no próximo artigo.