sábado, 15 de setembro de 2018

GRÃO VASCO ILUSTRADO EM VISEU - A REPORTAGEM

Cartaz com desenho de João Amaral
No passado dia 26 de Agosto rumámos até à bela cidade de Viseu, na companhia do sr. Presidente da Câmara Municipal de Moura, Álvaro Azedo, a fim de assistirmos à inauguração da exposição "Grão Vasco Ilustrado", uma produção do Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu (Gicav), com o apoio da Câmara Municipal de Viseu, da Viseu Marca e do Instituto Português do Desporto e Juventude.
A exposição teve lugar no Pavilhão Multiusos da Feira de S. Mateus, como vem sendo hábito nos últimos anos, e era composta por dois núcleos. O primeiro dedicado ao álbum de João Amaral "Museu Nacional Grão Vasco: 1916-2016 - em busca da arte perdida", com pranchas, esboços e apontamentos que nos permitiam perceber melhor todo o processo criativo que o autor empregou na realização deste trabalho. O segundo núcleo, com uma série de cartunes desenhados propositadamente, a pedido da organização, por autores muito diferentes uns dos outros (uns mais jovens, outros menos jovens; uns consagrados, outros novatos...), permitia observar trabalhos também eles muito diferentes, quer pela técnica utilizada, quer pela visão própria de cada desenhador.
E foi precisamente junto deste núcleo de cartune que a sessão de inauguração teve início, com Luís Filipe Mendes (do Gicav) a usar a palavra para dar as boas-vindas aos presentes, ladeado por representantes das entidades organizadoras envolvidas (o Vereador da Câmara de Viseu, Dr. Jorge Sobrado, a Presidente do Gicav, Dr.ª Filipa Mendes, o coordenador do departamento BD do Gicav, Carlos Almeida, a Directora do Museu Grão Vasco, Dr.ª Paula Cardoso, e a Presidente da Viseu Marca, Dr.ª Cristina Paula). 

Carlos Almeida fez, de seguida, uma visita guiada pelo núcleo de cartune, chamando a atenção dos visitantes especialmente para dois dos trabalhos expostos. Uma mini-biografia de Grão Vasco, desenhada por José Garcês numa só prancha, publicada na revista "Fagulha", em 1972; e aquele que possivelmente terá sido o último esboço desenhado por Artur Correia, que, como era hábito, não quis deixar de aceder à solicitação do Gicav. Infelizmente, Artur Correia já não tinha, nessa altura, condições de saúde para desenhar. Limitou-se, por isso, a esboçar uma ideia para cartune que o filho - curiosamente, também ele Artur Correia -, entintou e coloriu a computador.



À esquerda, a biografia de Grão Vasco, por José Garcês
Ilustrações de Ana Verónica e José Ruy

Da esquerda para a direita, trabalhos de Rá, Carlos Rico, Paulo Medeiros e Ricardo Ferreira
Outros trabalhos participantes que destacamos:
Baptista Mendes e José Pires


Eugénio Silva e Ricardo Ferreira
Carlos Almeida e Lança Guerreiro

Daniel Almeida e Miguel Rebelo

Agostinho Pereira e Pedro Emanuel

Augusto Trigo
Nelson Martins


O último esboço de Artur Correia (à esquerda) terminado pelo filho Artur Correia Jr.
Chegou, depois, o momento em que João Amaral tomou as rédeas da sessão e iniciou ele próprio uma visita guiada pelo núcleo expositivo dedicado ao seu álbum sobre o centenário do Museu Grão Vasco.
E foi uma agradável surpresa, já que o João Amaral conseguiu cativar o público com as suas bem interessantes explicações: como nasceu a ideia do álbum; como decorreu a fase de pesquisa e recolha de informação; como foi esboçado, desenhado, colorido e legendado; como foi redesenhada a capa, quanto tempo demorou a realizar... Enfim,tudo isto e muito mais foi dissecado por João Amaral, com um entusiasmo contagiante que nos apraz aqui registar.


O entusiasmo de João Amaral enquanto explicava como concebeu o álbum,
perante o público atento.



Aspecto geral da exposição


Estudo de personagem e algumas notas soltas recolhidas por João Amaral

Estudo de personagens

Os primeiros painéis da exposição


O Presidente da Câmara de Moura, Álvaro Azedo, trocando impressões com o
Vereador da Câmara de Viseu, Dr. Jorge Sobrado, e com Luís Filipe Mendes, do Gicav.
A parceria entre Moura e Viseu continuará a ser uma realidade em 2019.
Em seguida, a sessão continuou num espaço contíguo, pequeno para tanto público presente mas bastante agradável e bem decorado, com a Presidente do Gicav a agradecer a todos os patrocinadores e colaboradores o apoio prestado na realização desta exposição, e prometendo continuar a promover a banda desenhada.   


Da mesma forma, o Dr. Jorge Sobrado agradeceu, também, em nome da Câmara de Viseu, toda a colaboração e apoios reunidos na concretização deste projecto e prometeu continuar a apoiar o Gicav na divulgação da BD.


Em seguida, José Pires foi convidado a falar um pouco sobre a doação que acabara de fazer à Bedeteca Luiz Beira: uma colecção de fanzines "FandClassics", com a obra completa "Terry and the Pirates", de Milton Caniff, recuperada pelo próprio José Pires, num trabalho notável e meritório que vem enriquecer ainda mais aquele extraordinário acervo.


Carlos Almeida regressou, depois, à mesa para apresentar a reedição do álbum "A Feira Franca de Viseu", dos gémeos Santos, dois autores locais que há alguns anos se afastaram do mundo da BD.

Carlos Almeida, no uso da palavra.



Num gesto de cortesia, o Dr. Jorge Sobrado, em nome da Câmara de Viseu, ofertou ao Presidente Álvaro Azedo um "Matarracho", figura típica local, esculpida em barro pelo ceramista Sérgio Amaral.
José Pires também teve direito a um "miminho" por parte da Câmara de Viseu...

...perante o olhar atento do público e de alguns cartunistas.
Ao centro, Ricardo Ferreira e Agostinho Pereira.
À direita, os cartunistas viseenses Daniel Almeida e Miguel Rebelo.
Depois foi tempo de por a conversa em dia...
Carlos Gonçalves (do CPBD) à conversa com Maria Bemira Correia e Artur Correia Jr.

De costas, com boné, Lança Guerreiro troca impressões com Carlos Almeida.
Entretanto, Daniel Almeida e Luís Filipe Mendes estão por perto.
...enquanto o João Amaral iniciava uma pequena sessão de autógrafos.
João Amaral dando um autógrafo desenhado, enquanto ao fundo, a Presidente do Gicav,
Dr.ª Filipa Mendes, dava uma pequena entrevista à televisão da Feira




Terminada a sessão, houve lugar para matar a sede numa barraca de comes-e-bebes da feira, enquanto se aguardava pelo jantar-convívio. 
Em primeiro plano, os principais responsáveis pela produção da exposição, Luís Filipe e Carlos Almeida.
Em segundo plano, os desenhadores Daniel Almeida (filho do Carlos) e Lança Guerreiro.
Após o jantar, a conversa continuou animada, numa esplanada. O dia, contudo, já ia longo para nós, que percorreramos muitos quilómetros desde Moura até Viseu.


Demorámos pouco tempo a regressar ao Hotel para o merecido descanso.
Na manhã seguinte, antes de rumarmos para Sul, lugar ainda para tirarmos mais algumas fotos, para mais tarde recordar os bons momentos passados na cidade de Viriato.
Lança Guerreiro, Carlos Rico, João Amaral, José Pires e Baptista Mendes
Nesta foto surge a Cristina Amaral, que foi fotógrafa de serviço mas que também
tem direito a aparecer na reportagem, pois claro.


E cerca das 10:00 da manhã iniciámos, por fim, o regresso a casa, durante o qual a conversa, como não poderia deixar de ser, teve como grande protagonista a Banda Desenhada.
O Presidente Álvaro Azedo mostrava-se entusiasmado com a visita, e garantiu-nos que no próximo ano a colaboração entre Moura e Viseu continuaria a ser uma realidade.
Após vários projectos terem sido bem discutidos e melhor esboçados, 2019 promete tornar-se num ano marcante para os amantes da 9.ª Arte. Mas disso daremos aqui conta a seu tempo.
Por agora deixamos apenas uma palavra de agradecimento aos nossos amigos Luís Filipe Mendes e Carlos Almeida, incansáveis elementos do Gicav, pela forma como organizaram e montaram esta mostra e pelo carinho com que, mais uma vez, nos receberam. Bem-hajam!
Uma palavra, também, de muito apreço pela forma cordial e simpática como fomos recebidos pelo Sr. Vereador, pela Presidente da Viseu Marca e pela Directora do Museu Grão Vasco. 
CR

Nota: o nosso reconhecimento, também, a Viseu Marca/José Alfredo e a Cristina Amaral, a quem agradecemos a cedência de boa parte das fotografias que ilustram este post.

sábado, 8 de setembro de 2018

AS HISTÓRIAS QUE RESIDEM NA GAVETA (1) - por José Ruy

Depois de "A vida interior das redações dos jornais infanto-juvenis", "HQ Arte com muita oficina" e "A Ilha do Corvo que venceu os piratas", José Ruy surge com novo conjunto de artigos no BDBD: "As histórias que residem na gaveta".
A ideia surgiu quando, há alguns meses, num artigo de Luiz Beira intitulado "Os álbuns encalhados", publicámos uma lista de álbuns que alguns dos nossos autores mais consagrados têm prontos mas que, por este ou aquele motivo, não foram ainda publicados. Nessa altura, José Ruy informou-nos que tinha dez(!) álbuns nessas condições!
Perante a nossa curiosidade, quanto aos temas tratados e quanto às razões para que esses projectos, até hoje, se mantivessem "na gaveta", surgiu a ideia de criar uma nova série de artigos, sugestão que José Ruy imediatamente acolheu, para nossa satisfação. 
Aqui veremos, em primeira mão, algumas pranchas (a maior parte delas na fase de esboço) que o autor mantém em "stand-by", com a esperança de um dia poder, quem sabe, desenvolver e transformar em álbum.
Um tema bastante interessante, que, tal como os anteriores, obterá, por certo, grande sucesso junto dos nossos fiéis leitores.
Vamos dar, pois, a palavra a Mestre José Ruy, sem perder mais tempo.
BDBD

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Nesta profissão de realizar Histórias em Quadrinhos acontece muitas vezes, por um motivo ou outro, os originais ficarem à espera de um editor que se interesse pelo tema, e ficarem adormecidos, numa gaveta, durante bastante tempo.
No meu caso, tenho dez Histórias nessas condições, e talvez seja curioso descrever os motivos que levaram à interrupção do seu acabamento, e em que ponto se encontra a realização de cada uma delas.
Como estes temas têm ficado inéditos, já me têm alertado para o perigo de os divulgar publicamente, e poderem desse modo serem aproveitados por outros.
Como segurança, sempre que faço um novo trabalho, e enquanto se encontra em esboço, registo-o, porque mesmo ao entregar a um editor, nunca sabemos quem passa na editora e poderá ver o original sobre uma secretária, e até sem querer, mais tarde sugerir a alguém a ideia, que teria visto não sabe já onde.
Desta maneira estou sempre defendido de plágios.
Posto isto, abro a gaveta e começo ao acaso por tirar esta história:
«Francisco de Almeida Grandella, uma Aventura sem Limites».
Um esquiço de Francisco Grandella e da fachada dos seus Armazéns Grandella,
 no Chiado em Lisboa.

Trata-se da história de um arrojado comerciante, republicano insigne, filantropo e benemérito.
Nas décadas de 80 e 90 do século XX, eu prestava a minha colaboração graciosamente em eventos organizados pela Biblioteca República e Resistência, instalada na altura no Bairro Grandella, na Estrada de Benfica em Lisboa, precisamente mandado construir por este comerciante para alojar os seus empregados e famílias.
Uma parte do Bairro Grandella.

Esse facto levou-me a projetar fazer em Quadrinhos a sua vida.
Documentei-me devidamente e apresentei a ideia ao meu editor, que pensou propor à Empresa que na altura explorava a casa Grandella, o «Printemps», uma aquisição de exemplares da obra para oferecerem a Bibliotecas e Escolas, no sentido de uma maior divulgação da obra deste homem notável.
Essa aquisição logo à saída da máquina amortizaria a despesa de produção e tornaria assim viável a edição comercial para ser distribuída pelos postos de venda do país.
Comecei a narrativa pela chegada a Lisboa do jovem Francisco Grandella, para trabalhar numa «loja de panos».
Esboço das páginas 1, 2 e 4 da história.

O meu método de trabalho consiste sempre em esboçar toda a história, com as legendas, podendo assim ser apresentada a editores e promotores, quando os há.
A seguir a essa fase, com a história aprovada, desenho os originais em definitivo.
Isto dá-me a vantagem de distribuir previamente a ação pelas páginas disponíveis que compõem o livro.
Páginas 13, 23 e 28. O livro está estruturado para ter 32 páginas.

O esboço é informal, mas suficiente para mostrar a implantação das imagens nos planos das páginas, a sua força e a fluência da narrativa.
O «Printemp» ficou muito interessado com o projeto, mas pouco tempo depois entrou em falência e essa hipótese ficou posta de parte.
O editor tentou ainda outras possibilidades, mas em vão, e esta história tem ficado na gaveta até hoje, e possivelmente por muito mais tempo por falta de iniciativa editorial.

No próximo artigo:
A «História da Bulgária em HQ»


José Ruy

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

TALENTOS DA NOSSA EUROPA (25) - YURI JIGUNOV (Rússia)

Yuri Jigunov
Com toda a lógica, aportuguesámos este nome da ortografia francesa (Youri Jigounov). Ora vamos lá: nos tempos da nada saudosa União Soviética, esta, ao contrário de dois regimes congéneres e contemporâneos, a China de Mao e a Cuba de Castro, os senhores de Moscovo nada ligavam à 9.ª Arte, antes pelo contrário, menosprezavam-na.
Mas ela, a BD russa, existia, sobretudo no processo underground. Publicaram-se também, na revista “Sputnik”, algumas BD's infantis...
No entanto, esse tão imenso país tinha os seus magníficos desenhistas (quantos deles terão ficado perdidos para sempre?...). Destes, um valor se destaca e é já famoso a nível internacional: Yuri Jigunov.
Nasceu em Moscovo a 22 de Outubro de 1967. Porém, em 1997 instalou-se com a família na Bélgica. Foi a sua gloriosa carta de alforria, para ele e para a sua carreira.
No seu país conseguia acompanhar as edições em francês da revista “Tintin”...
Estudou na Academia da Aviação Civil de Moscovo e nesta cidade, em 1989, colaborou para um estúdio de BD.
Sozinho, havia criado uma narrativa de 46 pranchas, “As Cartas de Krivtsov”. É com esta obra debaixo do braço que se arrisca, em 1993, a viajar até Bruxelas, batendo à porta das Éditions du Lombard, o único endereço que possuía...
O argumentista Yves Sente, então director editorial da Lombard, impressionado ante a maturidade gráfica da obra, aceita publicá-la, o que acontece em álbum em 1995. Claro que esta bela obra teve de ser traduzida e “adaptada” ao sistema editorial do eixo franco-belga.
 
Depois, foi um não parar da sua carreira, não só na Europa como também nos Estados Unidos da América e no Canadá. Em Portugal, foi o entupimento do costume...
Em 1996, com argumentos de Pascal Rénard, passou a desenhar a série “Alpha” (hoje com 15 álbuns); após o falecimento de Renard (1961-1996), prosseguiu com argumentos de Mythic.
Mais tarde, abarca também o seu incontestável talento gráfico à série “XIII” (a partir do 20.º tomo), substituindo William Vance (falecido em Maio deste ano), já muito afectado na saúde.
Depois, na série paralela “Alpha-Premières Armes”, foi dando uma “mãozinha”, mormente na aplicação das cores.
Da actual Rússia e da nossa Europa (vai do Cabo da Roca aos Montes Urais), há pois este grande talento: Yuri Jigunov. Ainda bem!
Spassiba, Yuri!
LB