quarta-feira, 6 de março de 2019

CENTENÁRIO DE UM GIGANTE: ETCOELHO (3)

Por: José Ruy



No seguimento das exposições programadas pelo Clube Português de Banda Desenhada para todo este ano de 2019, na comemoração do centenário do nascimento do desenhador Eduardo Teixeira Coelho, o BDBDBlogue prossegue na sua divulgação.
Todos os meses o Clube Português de Banda Desenhada está a promover na sua sede na Avenida do Brasil, 52-A, na Amadora, exposições temáticas da obra deste autor ímpar.
A partir de 6 de março está patente a exposição «A Figura Humana na Obra de Teixeira Coelho» com meia centena de quadros.
Mantem-se o critério de mostrar as ilustrações a preto e branco, sem a cor que por vezes perturba a clareza do traço, e na dimensão em que o autor as desenhou.
ETCoelho criou uma escola neste género de arte, desenhando tudo do natural, estudando exaustivamente a anatomia humana, o seu movimento e atitude conseguindo uma naturalidade e elegância notáveis.
As ilustrações estão isentas de qualquer texto para que a atenção não se divida permitindo assim focar-se unicamente no desenho.
Por iniciativa da Autarquia da Amadora, está a ser preparada uma  mega exposição com originais deste autor, na Bedeteca dessa Cidade, comissariada pelo diretor do Festival Internacional de Beja com parceria do CPBD, a inaugurar em abril próximo e patente até setembro, e depois também no Festival de BD da Amadora em 2019.

Desde já os parabéns ao Pelouro da Cultura e à direção da Bedeteca pela iniciativa.

Voltaremos ao contacto em abril, aquando da próxima exposição de ETCoelho, sob o tema: «As Águas na Obra de ETCoelho».

domingo, 3 de março de 2019

TALENTOS DA NOSSA EUROPA (33) - DANY (Bélgica)

Dany (foto: Patricia Mathieu)
Dany (aliás,Daniel Henrotin) nasceu a 28 de Janeiro de 1943 em Marche-en-Famenne (Bélgica) e é um dos mais “terríveis” talentos vivos da BD Europeia, especialmente na dita franco-belga.
Talentoso, brincalhão e afectuoso, por três vezes se deslocou a Portugal, sempre para as edições do saudoso (ora extinto) Salão-BD Internacional da Sobreda: em 1992 (onde foi o artista estrangeiro homenageado), em 1993 e 1995.
A arte gráfica de Dany é imensa, como imensa é a sua obra, onde saltita de género para género, como “western”, ambientes exóticos, policial, terror, erotismo, humor, etc. É o que poderíamos adjectivar, um “louco maravilhoso”.
Mas vamos lá agora dissecar, mais ou menos, a obra deste encantador “doido”, que assina como Dany.

OLIVIER RAMEAU, com 12 apaixonantes álbuns, donde já, quatro Integrais...  Nenhum em português!!!... Cuidado: registamos apenas a vertente álbum-BD, pois alguns episódios foram publicados em revistas devidas.
 

ÉQUATOR, apenas em dois álbuns... Série que não resultou, mas que o marcou.
 

ARLEQUIN, com sete tomos. Porém, apesar do agrado, ficou-se por aqui.

HISTÓRIA SEM HERÓIS: VINTE ANOS DEPOIS, um díptico esmagador, onde Dany mergulha na linha realista e nos maravilha. Depois da série “Olivier Rameau”, esta é a outra sua obra por excelência.

TRANSYLVANIA, é o terceiro e último tomo da breve série “Sur les Traces de Dracula” (os dois primeiros foram, respectivamente, desenhados por Hermann e Séra), com argumentos de Yves Huppen, filho de Hermann.

ELVIS PRESLEY, em cinco pranchas, nas criações curtas de Dany, criou a vida do mito Elvis Presley, história publicada no “Almanaque Mundo de Aventuras/1982”.

JO NUAGE/KAY MAC CLOUD, foi uma aposta, mas finou-se no primeiro álbum...

Indo mais além nesta espantosa navegação pela obra de Dany...
Por amizade e admiração por Hermann, ousou desenhar três aventuras do herói deste seu colega, BERNARD PRINCE: “A Cilada dos 100.000 Dardos” (também editado e reeditado por editoras diferentes em Portugal), “Nictalope” (episódio publicado em 1978, nas “Selecções BD n.º 3) e “Orage Sur le Cormoran” (inédito em português).

O ÚLTIMO SELVAGEM, narrativa curta publicada nas “Selecções-BD”, n.º 10 (segunda série).
LUDIVINE, apenas por enquanto num só álbum, com textos de Erroc e de Michel Rodrigue.

LES GUERRIÈRES DE TROY, já com três álbuns, tem argumento de Melanyn e Scotch Arleston.

Convém registar ainda, aqui e agora, a sua participação colectiva, como em ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, ou o seu empolgamento em episódios erótico-humorísticos, como ÇA VOUS INTERESSE? (série) ou BLAGUES COQUINES.
 

E agora, como informação final e “cereja no topo do bolo”, está confirmado que DANY (finalmente!) estará presente no Festival-BD de Beja... neste 2019.
Um abração, Dany!
LB

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

NOVIDADES EDITORIAIS (164)

EXODE 1938 - ​Edição Les Humanoides Asssociés. Autores (segundo ​uma novela de Edward Ryan e Yang Xie): o argumento ​é de Philippe Thirault, a arte gráfica de Jorge Miguel e ​as cores de Delf.
Este é o primeiro tomo da curta série ​"Shangai Dream".
​Jorge Miguel é um grande talento, sobretudo como ​desenhista, na Banda Desenhada Portuguesa da ​actualidade. Incomodado com a vesguice das nossas
​editoras, tem triunfado em grande no panorama ​editorial francófono.
​E, de álbum para álbum, cada vez mais se afirma e se ​confirma como um desenhista que singra para a ​classificação de impecável.
​Com "Exode 1938", ele narra belissimamente, todo ​um imenso drama/angústia que é obrigatório ler-se.
​Bravo, Jorge Miguel!


L'ENVOL DU PHÉNIX - ​Edição Glénat. Autores: Philippe Thirault e Willy ​Duraffourg e arte de Federico Nardo. É o segundo ​tomo da série "Macao".
​O Cinema usou e abusou de focar o território ex-inglês ​de Hong-Kong.
Pela Banda Desenhada, o ex-território ​português de Macau (Macao), está "na moda". Olá se está!...
​Neste díptico, há apenas que ler estes dois álbuns.


NEURO HABITAT - ​Edição Escorpião Azul. Autor: Miguel Angel Martin.
​"Neuro Habitat - Crónicas do Isolacionismo", é obra ​de um dos mais representativos, actualmente, autores ​da Banda Desenhada Espanhola.
​Muito peculiar nas suas propostas, esta obra é para ​ser lida e meditada.



O SEGREDO DA POÇÃO MÁGICA - Edição Asa. Autores: Olivier Gay (texto) e Felice Tarrin ​(arte), na adaptação do filme homónimo de animação, ​com base na série "Asterix".
​Não é propriamente um álbum de Banda Desenhada, ​mas a acompanhar o texto de Gay estão imensas e ​belas ilustrações.



O MONSTRO MARINHO OCRE - ​Edição Gailivro. Autor: Pedro Leitão.
​É o 12.º tomo da série infantil "As Aventuras de Zé ​Leitão e Maria Cavalinho", naquele belo, especial ​e divertido estilo para a criançada, a que Pedro ​Leitão já nos habituou.
LB

domingo, 24 de fevereiro de 2019

GERALDES LINO: MEMÓRIAS DE MOURA...


Um corpo franzino, um nariz proeminente apoiado num largo bigode e uma voz rouca faziam de Geraldes Lino uma figura inesquecível no meio bedéfilo.
A sua presença constante em iniciativas que girassem à volta da BD; o incentivo genuíno com que brindava os autores mais novos; a defesa acérrima do uso correcto da língua portuguesa; o amor pelos fanzines (que coleccionava fanaticamente)... eram características que o tornavam, sem dúvida, na mais popular e consensual figura da BD portuguesa.
E contudo, não me lembro ao certo quando nos conhecemos. Mas terá sido, quase de certeza, nas primeiras Jornadas BD da Sobreda que visitei, em 1992, pois o Lino não falhava, de facto, nenhum salão, tertúlia, encontro ou exposição.
Onde houvesse BD, aí estava o Lino, incansável, cheio de projectos, sempre com caneta e papel para anotar os contactos de novos autores (que, invariavelmente, convidava para a sua Tertúlia BD de Lisboa...) e alguns fanzines debaixo do braço, para trocar ou oferecer aos amigos. Ou não fosse ele "militante da BD e dos fanzines", como se auto-intitulava, com orgulho...

Encontrámo-nos várias vezes na Sobreda, mas também na Amadora, Lisboa, Viseu, Beja e, obviamente, em Moura, que o Lino visitava sempre que ocorria o salão BD.
Ainda recordo os incentivos e recomendações que me dava, de forma acertiva, para melhorar o meu trabalho, enquanto autor mas, muito especialmente, enquanto coordenador do salão.
Por exemplo, dizia-me ele discretamente e após assistir a uma entrega de prémios, que numa cerimónia como aquela a figura institucional mais importante (no caso o Presidente da Câmara) não deveria entrar e sair muitas vezes do palco para não retirar impacto à sua presença. Deveria entrar uma única vez e já na parte final (onde remataria o evento com um breve discurso).
Essa subtil chamada de atenção foi suficiente para que, a partir dessa altura, passássemos a ter um cuidado maior com a preparação de toda a cerimónia. 
O Lino dava muito valor ao Moura BD. Estava sempre a dizer-me que, com poucos meios, conseguíamos fazer muita coisa. Mas não se coibia de criticar - de maneira construtiva - aquilo que não estivesse bem.

Sempre que visitava o salão Moura BD, o Lino viajava sozinho, de comboio, na véspera da sessão de homenagens (algo que não deixa de ser caricato na medida em que o ramal de Moura está desactivado há quase trinta anos!). Por isso, o Lino descia na estação de Beja e seguia, a partir dali, de autocarro, até chegar a Moura onde eu o esperava para irmos jantar (sempre a um restaurante diferente) e depois o levar ao Hotel (também sempre diferente, em cada ano). Dizia ele que, assim, passava a conhecer melhor tudo aquilo que a cidade tinha para oferecer aos seus visitantes.
Entre o jantar e a recolha ao Hotel, havia lugar para pormos a conversa em dia no Bar do Castelo, onde o Lino gostava de tomar umas cervejas e comer uma tosta mista (as melhores tostas mistas, segundo ele dizia, por serem feitas com pão alentejano). 

As visitas do Lino ao salão Moura BD coincidiam sempre com as entregas de prémios e troféus, que aconteciam a um sábado. No domingo, o programa era livre e eu aproveitava para levar a almoçar a Pias os convidados que tinham pernoitado em Moura, de modo a prolongar mais umas horas o convívio entre todos.
Depois, cada um seguia o seu destino em carro próprio ou à boleia, menos o Lino que, por ter vindo de comboio, muitas vezes não conseguia um lugar vago em nenhum veículo. Nessa altura eu oferecia-me para o levar até à Estação de Beja, aproveitando, assim, mais uma hora de animada e reconfortante conversa... 
O Lino foi homenageado, com toda a justiça, no Moura BD, em 2001, onde lhe foi outorgado o "Troféu Balanito Especial" pelo notável contributo que deu para a divulgação da 9.ª Arte.
O seu desaparecimento deixa um vazio impossível de preencher nos nossos corações. Mas o seu legado perdurará, para sempre, na História da BD portuguesa.
Eu e Geraldes Lino, na última vez que estivemos juntos, durante a homenagem a Luiz Beira, em Viseu (2017)
Geraldes Lino durante a cerimónia de encerramento do Moura BD 99
Eu, António Barata e Geraldes Lino, após a sessão de entrega de Prémios e Troféus do Moura BD 2000
Com Francisco Espada, Finha e Carlos Rico, durante o salão Moura BD 2001
Numa foto de grupo, durante o salão Moura BD 2001
Com Rá, Paula Pina, Isabel Lobinho, o esposo desta e Carlos Rico, numa esplanada, em Moura (2002)
Com Rui Pimentel, durante a sessão de homenagens do salão Moura BD 2004
Com José Carlos Francisco, no almoço-convívio do Moura BD 2007
Com um grupo de colegas e amigos, visitando a exposição de cartune de Agim Sulaj, durante o Moura BD 2011
Visitando a exposição de homenagem a Luiz Beira, em Viseu (2017)
Com Arlindo Fagundes, após a homenagem a Luiz Beira em Viseu (2017)
Para terminar, uma mensagem (como sempre aglutinadora e de grande incentivo) deixada pelo Lino no Livro de Honra do Moura BD.
Não tenho dúvidas de que iremos todos - sejamos ou não alentejanos - cumprir a sua vontade e prosseguir esta contínua luta pela divulgação da BD, honrando, assim, a sua memória.
Até sempre, Lino! Descansa bem!
CR