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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

EVOCANDO (21)... MIGUEL DE CERVANTES


Miguel de Cervantes (1547-1616)
Há valores indestrutíveis e inapagáveis na História da Humanidade...
Este tema teria pano para mangas e, claro, não vamos agora por aí. Mas acontece que 2016 regista o centenário do falecimento de dois grandiosos vultos da Literatura mundial: o inglês William Shakespeare (já aqui o focámos no nosso post com data de 21 de Maio de 2015) e o espanhol Miguel de Cervantes.
Ambos faleceram em Abril de 1616, com um dia de diferença: Cervantes a 22 e Shakespeare no dia seguinte.
Miguel de Cervantes y Saavedra, nasceu em Alcalá de Henares a 29 de Setembro de 1547, tendo falecido em Madrid a 22 de Abril de 1616, como já dissemos.
De 1581 a 1583, viveu em Lisboa, donde registos seus pela admiração que tinha pela beleza da mulher portuguesa, e daí o seu dito: “Para festas Milão, para amores a Lusitânia”...
Teve uma vida agitada, aventurosa e donjuanesca. Criou obra literária admirável, mas o seu texto de honra recai para sempre no romance “Don Quijote de la Mancha”, o cavaleiro da triste figura.
Obra imensa, tem sido adaptada a diversas Artes, tamanho é o furor que suscita e seduz: Teatro, Cinema, Televisão, Bailado, Ópera, Banda Desenhada e por aí adiante.
Aliás, a vida aventurosa de Miguel de Cervantes e a alucinante de Dom Quixote, quase se confundem... Um e outro parecem o mesmo personagem, com uma versão a sério  e na outra, como se fosse em pessoal caricatura...
Curioso que na versão opereta, “O Homem da Mancha”, o mesmo actor viveu em cena os três personagens: Miguel de Cervantes, Alonso Quijana Don Quijote.
Cartaz de "Man of la Mancha",
com Peter O'Toole e Sofia Loren
(1972)
Por exemplo, em Espanha, foi o actor Claudio Brook (ao lado de Nati Mistral e Marco Antonio  Saldaña); em França, foi Jacques Brel (ao lado de Joan Diener); no Cinema, foi Peter O’Toole (ao lado de Sofia Loren e James Coco).
A 18 de Maio de 1967, a versão teatral de “Dom Quixote” pelo francês Yves Jamiaque foi levada à cena com estrondoso êxito pela companhia Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez e, nos principais
papéis, Santos Manuel (Dom Quixote), Ruy de Matos (Sancho Pança), Maria do Céu Guerra (Dulcineia) e Mirita Casimiro (Sancha).
Com encenação de Carlos Carvalheiro, a companhia teatral Fatias de Cá, de Tomar (reservas@fatiasdeca.net ou 960303501), tem em cena um espectáculo teatral versando esta obra de Cervantes, com Humberto Machado (Dom Quixote) e Luís Mourão (Sancho Pança).
Das várias versões Cinema /Televisão, destaca-se o filme “Cervantes”, realizado em 1967 por Vincent Sherman, com Horst Buchholz e Gina Lollobrigida.
Também o cinema de animação tratou de adaptar o Quixote, existindo várias versões desta obra sendo a mais conhecida aquela que a RTP passou nos anos 80, produzida por José Javier Romagosa e Cruz Delgado. 
Genérico de abertura da excelente série de animação
"Don Quijote De La Mancha" produzida para a TVE (1979)

O Bailado não ficou indiferente a “Dom Quixote”, donde por exemplo, uma coreografia por Rudolf Nureyev. E, na Ópera, em 1910, estreou-se em Monte Carlo, com partitura de Jules Massenet.
Claro que a Pintura e a Escultura também têm registado as devidas e perenes homenagens ao grande escritor. Pela Escultura, há quatro exemplos notáveis: as estátuas de Miguel de Cervantes em Valladolid e em Toledo; e as estátuas com “Dom Quixote e Sancho Pança” em Madrid (na Plaza de España) e em Alcalá de Henares (na Calle Mayor).
Por fim, cá temos a incontornável Banda Desenhada:
1 – Referente à biografia  de Cervantes, apenas sabemos até agora, de duas versões: “Cervantes” por Liliane e Fred Funcken, publicada no “Tintin” (belga) em 1956...
"Cervantes", por Liliane e Fred Funcken, in "Tintin" (1956)

...e “Miguel de Cervantes e Saavedra”, da autoria do nosso Manuel Ferreira, publicada no n.º 1 da revista “Pisca-Pisca” em 1968.
"Miguel de Cervantes e Saavedra". por Manuel Ferreira, in "Pisca-Pisca" #1 (1968)

Pela Didáctica Editora, existe ainda a publicação “Chamo-me... Miguel  de Cervantes”, com texto de Antonio Tello e ilustrações de Òscar Julve.
"Chamo-me... Miguel de Cervantes", por Antonio Tello e Òscar Julve
Didáctica Editora

2 – Quanto às adaptações à BD de “D. Quixote”... há uma boa e imensa dose de autores de diversos países (mas não consta nenhum português!...), dos quais salientamos, apenas como breves exemplos os francófonos Auguste
Liquois...
"Don Quichotte", por Auguste Liquois - Ed. Prifo (1977)

Jean Trubert...
"Don Quixote", por Jean Trubert

...e uma adaptação de Philippe Chanoinat e Jean-Blaise Djian, desenhada por Dépé.
"Don Quichotte", por Chanoinat, Djian e Dépé - Ed. Glénat (2010)

O norte-americano Will Eisner também adaptou esta obra.
Capa de "The Last Knight", por Will Eisner - edição NBM
...e duas pranchas da edição espanhola lançada pela Norma Editorial.

Na revista "Classics Ilustrateds" #11 (1943), uma criação de Louis Zansky, com capa de Mort Kunstler...
"Don Quixote", por Louis Zansky, in "Classics Ilustrated" #11 (1943)
Capa de Mort Kunstler

O grande desenhador espanhol Victor de la Fuente também nos deixou a sua versão desta obra.
"Don Quijote", por Victor de la Fuente.

Nos anos 70, uma adaptação que teve como curiosidade o facto de os cenários serem fotografias dos locais onde decorre o enredo. Os seus autores foram A. Albarrán e Juan Sarompas (desenhos), A. Perera, Luis Herráez e Tomas Burgos (cor), Antonio A. Arias (texto) e José Luis Rodrigues (fotos).
Duas capas de outras tantas edições desta curiosa versão: a primeira da Sedmay Ediciones e a segunda das Ediciones Maranco S.A. (1971)...
...e duas pranchas (infelizmente com pouca definição).

Jan...
Vinheta de Jan

J. Espinosa (desenhos) e E. Sotillos (texto)
"El Junior Cómic de el Quijote", por E. Sotillos (texto) e J. Espinosa (desenhos),
Ed. Libro Hobby (2005)

Juan Garcia Quiros...
"Don Quijote de la Mancha", por Juan Garcia Quiros, in "Joyas Literarias Juveniles" #98 (1974)

Carlos Castaing e Patricio Diaz...
"Don Quijote de la Mancha", por Carlos Castaing (adaptação) e Patricio Diaz (desenhos),
Castaing & Von Der Hundt Ediciones (Espanha)

Nos famosos estúdios de Francisco Ibañez, um dos seus colaboradores, Luis Sagasti Iruzubieta, desenhou esta capa para um dos volumes da revista "Super Humor", com Mortadelo e Otílio no papel de D. Quixote e Sancho Pança, respectivamente.
Capa de "Super Humor"

Esta outra capa, da revista "Mortadelo Extra" #21, também dos estúdios de Ibañez, tem detalhes absolutamente delirantes...
Capa de "Mortadelo Extra" #21

Durante as comemorações do quarto centenário da publicação da primeira parte de "D. Quixote", Ibañez aproveitou para lançar uma paródia/homenagem a este romance, no seu inconfundível estilo humorístico, com Mortadelo e Filemon como personagens principais...
Capa de "Mortadelo de la Mancha" (Ed. Magos del Humor, 2004)

Vinhetas de "Mortadelo de la Mancha"

E, por fim, a adaptação para BD da série de animação a que acima nos referimos, em vários fascículos, com textos de Gustavo Alcalde e desenhos de Cruz Delgado.
"Don Quijote de la Mancha", por Gustavo Alcalde e Cruz Delgado,
Editorial Bruguera (1979)

Para finalizar, dois apontamentos curiosos: na aventura "Astérix na Hispânia", Uderzo e Goscinny parodiam D. Quixote e Sancho Pança colocando esses personagens numa vinheta.

Por sua vez, Cisco Kid e Jerry Spring bem podem ser considerados como dois alter-egos do Quixote pois que também eles têm dois gordos e alegres companheiros de aventuras (Sancho e Pancho, respectivamente) que até no nome têm semelhanças com o simpático parceiro do cavaleiro da triste figura original.

E pronto! Aqui fica registada a nossa sentida evocação, se bem que focando apenas aspectos essenciais, a Miguel de Cervantes e o seu admirável “Dom Quixote”, no ano em que passa o quarto centenário sobre o seu falecimento.

Agradecemos o apoio amigo prestado por Carlos Gonçalves.
LB


Estátuas de Dom Quixote e Sancho Pança, em Madrid


quarta-feira, 27 de julho de 2016

EVOCANDO (20)... CARLOS ROQUE

Carlos Roque (1936-2006)
Carlos Santos Roque nasceu em Lisboa, a 12 de Abril de 1936.
Como muitos outros autores portugueses da sua geração, estudou na Escola António Arroio, onde tirou o curso de Desenhador-Gravador-Litógrafo. 
Estreou-se na banda desenhada, em 1959 (tinha apenas 23 anos), na revista "Camarada" II série, com "O Cruzeiro do Caranguejo" (que quatro anos mais tarde, em 1963, seria reeditado em álbum).
Colaborou em "O Século", "O Século Ilustrado", "Modas e Bordados", "Vida Mundial"...
Emigrou para a Bélgica, em 1964, para fazer parte da equipa da revista Tintin, onde trabalhou no departamento de publicidade e publicou algumas curtas BD's, com textos de Yves Duval.
"Soyez Bons Pour les Animaux" ("Sejam Bons para os Bichinhos"), história com referências a Portugal, com argumento de Yves Duval, publicada na revista "Tintin" (belga) #8, em 1966. Repare-se, na última vinheta, nas caricaturas de Roque e Duval.

Em 1965, mudou-se para a concorrente Spirou onde, para além de colaborar com bandas desenhadas, chegou a maquetista e paginador da revista. Aí reeditou "O Cruzeiro do Caranguejo", em 1979.
Versão em francês de "O Cruzeiro do Caranguejo", publicada na revista "Spirou" belga

De parceria com a sua companheira, Monique (autora dos textos), Carlos Roque criou, nos anos 60, "Angelique", um "pequenino tornado", cuja personalidade é oposta ao nome que ostenta.
Os belgas Raoul Cauvin e Charles Jadoul também colaboraram com alguns argumentos para esta série.

"Angelique", maravilhosamente desenhada pela mão de Carlos Roque

Tal como "Angelique", o pato "Wladimyr" é também uma criação do casal Roque.
De início, Carlos não se mostrou muito entusiasmado com a ideia de Monique. Desenhar as aventuras de um pato (e de uma rã), num lago, prometia ser uma tarefa de pouco sucesso: o cenário tornar-se-ia, inevitavelmente, repetitivo e os assuntos talvez se esgotassem rapidamente. 
Contudo, à medida que ia trabalhando, Carlos começou a gostar do personagem e percebeu que este tinha potencial para desenvolver bastantes aventuras. A arte de Carlos e os argumentos de Monique (que, com o tempo, foram acrescentando personagens à série) fizeram o resto e "Wladimyr" tornou-se na mais querida criação do casal Roque, chegando, inclusive, a ganhar o prestigiado Prémio Saint-Michel, em 1976.
"Wladimyr" teve as suas aventuras publicadas em português, na revista "Selecções BD"
Quando, em 1999, surgiu no mercado português a revista "Selecções BD", dirigida por Jorge Magalhães, este, movido pela admiração e amizade que os unia, não perdeu tempo a convidar Carlos Roque para realizar alguns sumários da revista (que eram sempre apresentados em formato de meia-prancha) bem como a publicar "Wladimyr".
Em "Selecções BD", o "Western" serviu de tema para introduzir o sumário da revista.
Outro sumário da mesma revista, mas aqui o tema escolhido foi bem mais "ligeiro"...
Com o regresso a Portugal, nos anos 90, foi responsável pelo suplemento TV Guia Júnior, onde publicou passatempos e banda desenhada ("Tropelias do Malaquias", "Patrake", "Medo! em Vale de Cães"...)
 
"Tropelias do Malaquias", in suplemento "TV Guia Júnior"

Outra criação do casal Roque, "Patrake" (baptizado assim por Monique, mas que, inicialmente, estava para se chamar "Mandraço"!), é uma paródia/homenagem ao célebre mágico Mandrake.
As aventuras de "Patrake" são histórias, em oito vinhetas, onde o traço e a imaginação de Carlos comprovam o génio do artista.
Aventura de"Patrake" publicada no suplemento "TV Guia Júnior"

Em 2011, já depois do seu falecimento, foi alvo de uma homenagem durante o Salão Moura BD. Aí esteve patente uma exposição de belíssimos originais seus (que depois seguiram para a Amadora, para integrar o Festival daquela cidade). Monique, a sua companheira, recebeu, com emoção mas também com orgulho, o Troféu Balanito Especial, que o Moura BD outorgou postumamente a Carlos Roque.

Estranhamente, não existe, hoje em dia, nenhum álbum deste autor. "O Cruzeiro do Caranguejo", já foi publicado há mais de meio século! Parece mentira, atendendo à qualidade do trabalho de Carlos Roque e ao avultado número de histórias que desenhou... 

Carlos faleceu em Louvain (Bélgica), faz hoje precisamente dez anos! Com o seu desaparecimento, desapareceu também um dos maiores autores portugueses de banda desenhada de sempre. Saibamos honrar a sua memória e a sua obra.
CR