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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

ENTREVISTAS (26) - RAFAEL COUTINHO (2.ª parte)

Concluímos hoje a publicação da entrevista iniciada no post anterior.


BDBD - Num jeito de paródia, abordaste “Mónica e Cebolinha”... O Maurício de Sousa não ficou chateado?
RC - Não... acho que ele não leu a história. Não tem tempo para isso. Mas o Sidney Gusman, que me convidou na época, é um cara muito bem humorado e inteligente e, de certa forma, todos ali gostam deste tipo de projecto e brincadeira.
Mónica e Cebolinha adultos, por Rafael Coutinho

BDBD - Afirmas-te mais criando em preto-e-branco e não com a cor. Tens alguma lógica pessoal por esta preferência?
RC - Encaro o preto-e-branco na Banda Desenhada como uma instituição cheia de expressões marcantes e históricas. Para a minha educação em artes, conhecer os trabalhos de Muñoz, de Milazzo ou o preto-e-branco de Jaime Hernandez, Katsuhiro Otomo, Tomaz Ott, Marjane Satrapi, Angeli, Crumb, foi como entender o mundo de outra forma toda vez. Há uma tradição aí, e quando passei a fazer quadrinhos de uma forma mais regular, sinto que sempre encarei isso como se tivesse me perguntando como eu entendia pontilhismo, hachura, luz e sombra, tons aguados ou o próprio tratamento digital dentro dessa tradição. Ao combinar essas técnicas, desenho realista, desenho solto, o que ficaria impreciso e o que puxaria para a abstracção, era como se eu estivesse me posicionando nesse meio, pedindo licença, me encontrando como autor... Mas adoro cor, pinto quadros, faço muitas histórias coloridas. É mais uma ferramenta, não sinto que evito essa. Mas o preto-e-branco foi e é um prazer à parte. Gosto muito.
"Mensur", álbum a preto-e-branco... com uma capa bem colorida

BDBD - Nota-se, de certo modo, uma linha dura e angustiante na tua obra. É assim que vês sempre a vida? Sem alegrias e optimismos?
RC - (riso) Puxa, acho que não!... São sistemas mais complexos do que isso, imagino. Tenho uma predilecção estética para o tratamento realista e uma educação artística que me direccionou para isso. Imagino que isso esteja conectado à forma como fui educado, vendo meus pais lerem certos livros, verem a vida de uma certa forma, filmes que vi na infância e adolescência, mas realmente, não teria como resumir isso tudo. No fim de contas, pouco importa, o facto é que sinto uma atracção muito forte por tragédias secas ou dramas onde uma certa “amargura” se impõe. Acho que conversa com um registo muito realista da vida, onde as desigualdades ocultam muita dor e dureza. E todas as histórias que mais me emocionaram e marcaram na vida tinham a ver com isso: roteiristas, directores e escritores com uma sensibilidade aguda para isso, uma coragem para expor aspectos das relações humanas que poucos têm.

BDBD - Em breves palavras, como defines a situação da Banda Desenhada no Brasil?
RC - Creio que esteja bem, passando por um momento de expansão em termos de quantidade de títulos e interesse tanto por editores quanto pelo público. O melhor da sua história, creio. Mas é difícil fazer essa avaliação sem levar em conta o tamanho do país e a proporção de leitores que realmente compram livros de BD no país. É baixo, se a média é de dois mil livros vendidos, para autores que publicam em editoras de pequeno e médio porte, num país com mais de vinte milhões de habitantes, e então ficamos deprimidos. Mas para quem anda acompanhando a produção intimamente nos últimos anos, é perceptível que há novos e ambiciosos livros circulando no país, e muito graças ao movimento independente de autores, que passaram a se auto-publicar e vender seus livros em eventos e feiras, outra frente que ganhou muita força nos últimos anos.

BDBD - A BD Portuguesa, mesmo minimamente, é conhecida no Brasil?
RC - Infelizmente não, e me pergunto porque não... Mas há mais projectos agora com o envolvimento de portugueses do que jamais houve. Paulo Monteiro foi aqui publicado. O roteirista André Morgado também apareceu nas livrarias e, na cena independente, já é possível participar em conversas onde Pedro Moura é citado, tal como Filipe Abranches ou Amanda Baesa. A Internet agrega um elemento meio  confuso aí, né? Todo o mundo conhece tudo e, mesmo que não seja uma entrada formal no mercado, os autores estão agora ali, a distância de um clique.

BDBD - Quando pensas voltar a Portugal... talvez pelo teu próximo álbum (qual é ele?...)?
RC - Ainda não sei dizer. Não tenho previsão. Tirei um ano para não fazer livros, mas este ano já está acabando. Ano que vem, volto com mais energia, provavelmente para fazer mais alguns volumes de “O Beijo do Adolescente”, série que venho fazendo há uns cinco anos. Há outras propostas em curso, mas nada de concreto.
Duas pranchas da série "O Beijo do Adolescente"

Obrigado, Rafael, por nos teres concedido esta entrevista.
Registamos, ainda, o nosso reconhecimento ao editor Rui Brito pelo apoio prestado.
LB

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

ENTREVISTAS (26) - RAFAEL COUTINHO (1.ª parte)

Rafael Coutinho (Foto: www.universohq.com)
É um dos mais marcantes criadores da actual Banda Desenhada brasileira.
Nasceu a 1 de Janeiro de 1980, em São Paulo, onde reside e onde cursou Artes Plásticas na Universidade Estadual.
É filho de outro famoso desenhista brasileiro, Laerte Coutinho, que marcou digna presença no Salão Internacional de BD de Beja, em Maio de 2014.
Por sua vez, Rafael Coutinho, já esteve duas vezes em Portugal: em 2014 (Outubro/Novembro), no Festival da Amadora, onde apresentou o seu álbum “Cachalote”; e em 2017 (Maio), no Festival de Beja, onde apresentou o seu álbum “Mensur”. Ambas as edições são da Polvo, sob coordenação de Rui Brito.
Além de desenhista, Rafael Coutinho é também argumentista, editor, pintor, ilustrador e animador cultural. Muito afável no trato, está sempre atento ao mundo sócio-político que o envolve no dia-a-dia.
Já tem obra notável, da qual salientamos alguns títulos: “O Beijo do Adolescente” (já com três tomos), “Irmãos Grimm em Quadrinhos” (um álbum colectivo, onde participou com a sua versão de “Branca de Neve e os Sete Anões”), “Bang Bang” (álbum colectivo, onde desenhou “Sobre Daisy”), “Cachalote“ (com argumento de Daniel Galera), “Muchacha“ (onde colaborou com seu pai, Laerte Coutinho), “As Surpreendentes Aventuras do Barão de Munchausen” (segundo a obra homónima de Rudolf Erichraspe) e “Mensur”. Acrescente-se ainda que, numa certa linha humorística, parodiou em “Mónica e Cebolinha, Adultos”, personagens célebres de Maurício de Sousa.
Registe-se também que o seu espantoso álbum “Cachalote”, além de editado no Brasil (2010) e em Portugal (2014), também foi editado em França, em 2012.
Daí que, para não “perdermos” mais tempo, urgia esta entrevista que - por ser tão extensa - optámos por publicar em duas partes.

BDBD - Rafael, já vieste por duas vezes a Portugal, aos Festivais da Amadora e de Beja. Em breves palavras, que melhores recordações guardas por estas tuas presenças em terras lusas?
Rafael Coutinho (RC) – Foram duas viagens muito importantes, mas muito diferentes. Fiquei mais tempo na segunda, pude conhecer melhor regiões distintas do país, conheci mais autores, me sentia mais preparado para absorver e aprender sobre o país. A primeira vez, na Amadora, foi muito carregada de emoções relacionadas às nossas origens como colónia portuguesa, coisa que tinha ouvido muito de outros brasileiros.
É emocionante e um tanto paralisante conhecer Portugal pela primeira vez, muita coisa se explica para o brasileiro, e tudo impressiona demais.

BDBD - E da segunda vez?
RC - Já na segunda vez, não só fui muito bem recebido em Beja e pude mergulhar melhor na cultura lusófona, como contei com a ajuda de muitos amigos brasileiros e portugueses, que me acolheram e me orientaram em outras regiões. Pude viajar de combóio do sul ao norte, tive mais tempo mesmo para entender a BD local, entender o contexto, um pouco da história.

BDBD - O teu “Cachalote” também foi editado em França. Isto marca uma boa alegria para a tua carreira?
RC - Marcou na época, mas já faz tempo. Acho importante e emocionante ser publicado fora do país, mas tento focar no que tenho em frente a mim para fazer. Me divido em muitas actividades ao mesmo tempo, coordeno projectos, dou muitas aulas, viajo bastante pelo Brasil. Tirei um ano para não fazer nenhum álbum e poder me reciclar, respirar outros ares e confesso que tem sido bom. Acredito muito nessa frente educativa, somos um país muito grande que se distanciou dos seus leitores. A maior parte da população perdeu o interesse nos quadrinhos, e percebo que há interesse e desejo de se aproximarem mais. Este foi um ano de muita aprendizagem para mim, nessa frente.

BDBD - Sim, mas... e a edição em França?
RC - Esta minha resposta sugere que eu não ligue para o mercado francês, porque foco no território brasileiro, o que não é o caso. Acho que é sonho de grande parte dos autores brasileiros publicar em França, conquistar os corações dos atentos leitores europeus em geral. Há uma idealização muito distante da realidade em relação ao mercado franco-belga no Brasil; os autores ainda acham que o desenhista francês vive tranquilo, sendo bem pago e podendo dedicar-se exclusivamente às suas histórias. Parte disso também se deve a um certo eurocentrismo do meio (o mesmo acontece com o mercado americano), alimentado pela própria postura dos europeus frente ao que é produzido fora dali. Quando o “Cachalote” aí foi publicado, fui a França algumas vezes e pude entender que a realidade é bem diferente, pois ninguém está ficando rico fazendo BD (ou pelo menos, a grande maioria) e que há um inchaço preocupante que se mistura a condições extenuantes de trabalho, coisa que os brasileiros conhecem bem. Ou seja, o livro foi bem, mas a tiragem era baixa, e somos, eu e o Daniel, ainda pouco conhecidos no país. Acabei percebendo o óbvio: o que importa mesmo, são os livros, e tratar de mergulhar fundo nas obras, nos projectos. Mas sim, foi muito bom, tanto para a minha carreira quanto para o meu imaturo ego de artista.


Rafael e Laerte Coutinho, dois dos expoentes
da BD brasileira actual
BDBD - Teu pai, Laerte Coutinho, teve influência para te interessares pelas artes, nomeadamente a Banda Desenhada, ou tal inclinação surgiu por ti próprio?
RC - Ele, claramente, foi uma influência. Ter um pai artista e vê-lo trabalhar diariamente nisso, teve um impacto brutal em mim, assim como a Medicina na vida de minha mãe. Foi muito importante para que eu me preparasse para as dificuldades dessa escolha, e pudesse buscar outras frentes, como animação, pintura, artes visuais, cinema. Mas ele ainda me influencia muito, somos muito amigos e próximos, fazemos projectos juntos, damos aulas. Ele me inspira muito, é uma mulher corajosa, engraçada, muito divertida.

BDBD - E preferes ser um autor total ou trabalhar em parceria com um argumentista como, por exemplo, o Daniel Galera em “Cachalote“?
RC - Ambos os processos me atraem muito. Não saberia separar. Costumo ter muitas coisas ao mesmo tempo, e percebi que buscava intuitivamente por um equilíbrio entre ambas... Projectos colectivos e/ou a solo, um alimentando o outro.
(continua)

sábado, 7 de outubro de 2017

ENTREVISTAS (25) - SANTOS COSTA

Santos Costa, em Agosto de 2017
Veterano da nossa Banda Desenhada, Santos Costa (aliás, Fernando Jorge dos Santos Costa), nasceu em Lisboa a 14 de Fevereiro de 1951, residindo há muitos anos em Trancoso.
Bem raros são os nossos desenhistas veteranos que têm as suas energias criativas ao rubro e não pausam algum tempo. Salientamos nesta louvável raridade, José Ruy e Santos Costa e, até certo ponto, José Pires. Alguns, por razões de saúde, foram “forçados” a abdicar. Outros, não produzem por falta de desafios editoriais e outros ainda, por caprichosa preguiça...
Mas hoje, a conversa é com Santos Costa, que tem um currículo invejável e monumental. É tanto e tanto, que sou obrigado a resumir esta apresentação.
Do anterior dia-a-dia, é aposentado da função pública. Safa, que isso já lá vai!... Mas, porém, todavia, contudo... sempre se dedicou intensamente a vertentes culturais: editor, escritor, ilustrador, jornalista, cartunista, sendo sobretudo um apaixonado criador da 9.ª Arte.
Foi marcante a sua colaboração como desenhista, nos periódicos “O Crime” (donde todas estas “estórias” bem mereciam ser compiladas em um ou dois álbuns...) e
“Mundo de Aventuras”.
Prancha de "O Atentado a Salazar", por Santos Costa, publicada no jornal "O Crime"

Capa e prancha de "O Atentado a Salazar", história publicada no jornal "O Crime",
que o autor reeditou em forma de caderno, com ajustes na montagem das vinhetas,
numa tiragem limitada de 100 exemplares só para amigos.

Tem álbuns editados por diversas Câmaras Municipais de regiões beirãs, como Trancoso, Lamego, Aguiar da Beira, Guarda, Meda e por aí adiante.
Capa e prancha de "Batalha de Trancoso - VI Centenário"
Edição Câmara Municipal de Trancoso (1985)

Capa e prancha de "Bandarra, Poeta, Profeta e Sapateiro de Trancoso", por Santos Costa,
Edição da Câmara Municipal de Trancoso (1990)

Também escreveu novelas policiais, editadas pela Bertrand.
Como cartunista, salienta-se a sua colaboração no periódico “O Diabo”.
Em intervenções soltas, notifica-se a sua participação no fanzine “Efeméride” de Geraldes Lino e a sua prestação especial neste nosso blogue (“Serpa Pinto”).
"Príncipe Valente em Trancoso no Século XXI", a participação de Santos Costa
no fanzine "Efeméride" #2, editado por Geraldes Lino, em 2007
Pela Rádio, também funcionou na Rádio Altitude da Guarda, nos programas “Diário Almanaque” e “Roteiro do Turista”.
Tem o seu digno blogue, “Bandarra Bandurra”, que vivamente aconselhamos a visitar com frequência.
De outros álbuns editados, demarcam-se: “Os Piratas do Deserto” (Edição Asa), “As Aventuras do Magriço” (já com dois tomos e com edição do autor), “A Viúva do Enforcado (Ed. Época de Ouro / CM do Fundão), “D. Egas Moniz, o Aio (Ed. Época de Ouro / CM de Lamego), “As Bodas de D. Diniz e Isabel de Aragão em Trancoso” (Ed. CM de Trancoso), “Registos Criminais ( Ed. Época de Ouro) e por aí adiante...
Duas pranchas de "D. Egas Moniz, o Aio", por Santos Costa
Edição da Câmara Municipal de Lamego (2003)

Capa e prancha de "Os Piratas do Deserto", adaptação livre da obra de Emílio Salgari,
por Santos Costa. Edição Asa (2012)

Em 2017, na Gala da Revista Anim’Arte/GICAV, de Viseu, recebeu merecidamente o Troféu Anim’arte 2016, na categoria Banda Desenhada.
Fica muita coisa por acrescentar mas opta-se, desde já, para a devida entrevista. Atentem bem nas suas sábias e conscientes respostas:

BDBD - Como surgiu a tua paixão pela Banda Desenhada?
Santos Costa (SC) - Não é paixão, é vício. Quase todas as paixões são falazes, assim como há vícios que se respeitam mais que as virtudes. Descobri muito cedo, mesmo antes de andar na vertical, que as canetas não serviam só para meter na boca e os livros, mesmo já impressos, nunca estavam acabados. Com três ou quatro anos, garatujava nas margens não impressas dos livros do meu pai.

BDBD - Essa paixão era só pela leitura ou também a vontade de a criar?
SC - Talvez seja uma idolatria absurda, mas adoro ler nos dois sentidos: os textos escritos e os desenhos. Talvez por isso eu leia as páginas de BD com muita lentidão. Só no cinema as imagens correm depressa. Na resposta à pergunta eu diria que é por ambas - ler e criar.
Se insistes em chamar paixão, confirmo que a leitura e a vontade de criar são como Romeu e Julieta - vivem inseparáveis.


BDBD - Tens uma invejável e imensa obra, a ponto de alguns álbuns serem “edições de autor”. É complicado um desenhista editar-se no nosso País?
SC - Complicado não é, basta haver vontade e bolsa, pelo que pesa mais a última na vontade de decidir. A auto-edição é uma liberdade impagável, porventura inelutável, mas com os seus riscos. Embora tenha a maioria dos trabalhos editados por outrem - editoras e municípios - sou muito independente e tímido q.b. para evitar bater à aldraba das portas de quem o possa fazer. Sou grosso de feitio e prefiro mourejar a andar de chapéu na mão - até porque não uso chapéu.
No entanto, no meu caso, parece-me que não é isto que me empana a fama.

BDBD - Onde vês algumas soluções para aliviar este “entupimento”, não só para as tuas obras como também para as de diversos colegas teus?
SC - Se eu vislumbrasse soluções, teria aplicado primeiro a receita antes de a divulgar; todavia, presumo que a solução começa nos primeiros anos da escola e nos sequentes onde, efectivamente, há horários para desenho e pouco entusiasmo sobre o mesmo. Há quem culpe as editoras, as distribuidoras e os livreiros da “amputação” das prateleiras da BD, substituindo-as por livros impressos com patacoadas e mexericos, mas julgo que essa culpa é assumida a jusante e nunca a montante. Encontras algum programa, a sério, sobre BD na televisão? Vês lá caras papudas, muitos “com que ursos”, lavagem de roupa suja, choradinhos e crimes de trazer os cabelos em pé, pontapés na bola e na gramática, horas de tédio que não desejo à terceira idade “obrigada” a gramar aquela sopa nas cadeiras dos lares. Se a televisão é imagem, a BD também o é. Uma devia respeitar a outra.
Vejamos: quem é o livreiro que vai empatar uma carga de euros em álbuns e livros que lhe são devolvidos tarde, a más horas e, por vezes, com resquícios de terem sido atropelados por um tractor agrícola? E quem é o distribuidor que calcorreia de Ceca a Meca com o leva e traz sem levantar um milímetro a ponta do gráfico das vendas? Quem é o livreiro que arrisca ocupar prateleiras com obras que não se enquadram nas patacoadas e mexericos (decerto não seriam mais rentáveis a venda de chouriços e presuntos nas arábias), obras cujos autores mais se assemelham a magarefes por se apresentarem com enredos de faca e alguidar.
Procurem solução nas escolas (digo, nas leis que as regem) e nos canais de televisão que não ligam patavina a um programa adequado à disseminação da BD e de outras artes afins (ao menos, um “reality show” onde os “nus” andassem a fingir ler um álbum de banda desenhada, maxime para taparem as “vergonhas”, mas nem isso).

BDBD - Um álbum teu, “As Bodas de D. Diniz e Isabel de Aragão em Trancoso”, tem também edições em castelhano e em inglês. Como foi esta aposta?
SC - Foi graças à visão da Câmara Municipal e da alargada visão cultural de quem a geria. Se um município pretende divulgar o concelho e os seus valores, não deve pensar só nos autóctones. Quem aposta no turismo tem de perceber isso… ou não percebe nada disso.
Os ingleses e os espanhóis são os que mais visitam o burgo. Se a eles acrescessem os japoneses, seria de arregaçar as mangas, virar da direita para a esquerda e colocar a linguagem indígena nipónica nos balões. A isto se chama realmente aposta. E ganha-se.
Capa e prancha de "As Bodas de D. Dinis e Isabel de Aragão em Trancoso",
(aqui na edição portuguesa), Edição CM de Trancoso (2005)

BDBD - Em publicações periódicas, tens maior prestação em “ O Crime” e “Mundo de Aventuras”. Donde guardas melhor satisfação?
SC - Melhor satisfação foi, sem dúvida, a do “Mundo de Aventuras”, até porque este era então gerido por uma figura incontornável e irrepetível da BD nacional naquele sector, que é o Jorge Magalhães. Ele teve a ideia de abrir as páginas de uma revista conceituada aos mais novos, aos diletantes, aos principiantes, um risco que poucos estariam dispostos a correr. O certo é que correu bem e saíram da iniciativa bons desenhistas e argumentistas. Foi um alfobre.
Quanto a “O Crime”, foi um desafio; e os desafios causam-me gosto. A somar a isto, foi compensador em termos metálicos do porta-moedas.
Prancha de "Os Crimes de Diogo Alves", publicada no semanário "O Crime"
BDBD - Há um estranho aspecto na tua carreira: às vezes, prometedoras apostas, ficam “abandonadas”! São os casos, por exemplo, de “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias” e “A Rainha Africana”. Não vais mesmo terminar estes trabalhos?
SC - Tenho em mim um espírito troglodítico, ancestral. Se o terreno não é propício à minha caçada, não é por isso que me dedico à agricultura: vou caçar para outro lado. À margem da metáfora, afirmo que isto nem é por achar que determinado trabalho não tem saída, mas por fastio. O abandono é, assim, temporário. Quando a “saudade” ou a “fome do assunto” apertar, volto lá, mesmo que tenha de refazer tudo, de cabo a rabo.
“A Volta ao Mundo” ficou na viagem por um quarto do seu todo e aguarda o “click” para vir para cima da bancada; “A Rainha Africana” é uma obra que necessita de prateleiras por todo o país e não estou tentado a correr o risco de a receber de volta com os percalços ditos atrás ou a bater às aldrabas das portas com um chapéu emprestado.
Julguei que os blogues - pelo menos o meu - constituíssem uma espécie de barómetro para aquilatar das apetências sobre este ou aquele trabalho. Às vezes, pelo “silêncio”, dá-me a sensação que mais me valera pôr um surdo a ouvir uma partitura de Bach.
Pranchas de "A Volta ao Mundo em Oitenta Dias" e "A Rainha Africana",
projectos inacabados por Santos Costa

BDBD - Nas nossas novas gerações têm surgido, embora com mais joio do que trigo, alguns valores muito bons. O que pensas sobre isto?
SC - Tanto há trigo num campo de joio, como há joio num campo de trigo, o que parece ir dar ao mesmo. Considero que as novas gerações, numa maioria relativa, são mais trigo do que joio. O que falta são bons tratadores, segadores e consumidores, uma grande maioria mais inclinada para misturas transgénicas de má qualidade.
Há valores muito bons, muito bons mesmo. Cito o exemplo daquele jovem de Penalva do Castelo (na periferia como eu), o Rafael Sales. Assim ele não esmoreça com os entraves de que falei antes. Iremos ouvir falar muito dele e, mais ainda, ver obra sua publicada.
De um largo naipe, retiro mais um nome: o de Carlos Pais, um jovem professor de EVT/Educação Visual (actualmente no agrupamento do Sátão), que fez o favor de me mostrar um trabalho seu não editado, e que o merece ser. Uma obra magnífica em termos de traço próprio, que salta aos olhos.
Cito só estes dois exemplos, para não me alongar…

Santos Costa recebendo o
Troféu Anim'Arte 2016
BDBD - Que sentiste ao receberes o “Troféu Anim’Arte 2016”, pelo GICAV, na categoria Banda Desenhada?
SC - Senti o deslumbramento de receber um troféu, principalmente por ser atribuído por um Grupo que tem lutado pela dignificação e divulgação das Artes, de todas elas. Foi uma honra para mim. E senti que, na imensidade de nomes que poderiam ter estado nessa cerimónia, estarão outros que mereciam essa distinção.

BDBD - Qual o teu grande e próximo projecto?
SC - Suponho que foi Napoleão - se não foi ele, sou eu que agora o afirmo - que disse mais ou menos isto: “o meio mais seguro de manter uma promessa é não a prometer nunca”.
Tenho, nesta altura, a ideia de dar à estampa a BD sobre a “Vida e as Profecias do Bandarra”, que tenho em execução numa mistura, a cores, entre desenho e fotografia.
“Bandarra” vende muito bem, pelo que tenho de pensar como editor. No entanto, como já acabei a primeira parte do Magriço (260 páginas a preto), não sei se anteciparei esta à anterior. Como diz o povo, "é melhor ver de perto para contar de certo".
LB

domingo, 19 de março de 2017

ENTREVISTAS (24) - RAFAEL SALES

Rafael Sales
Nasceu e reside em Penalva do Castelo (Distrito de Viseu) a 6 de Dezembro de 1993.
Licenciou-se em Artes Plásticas e Multimédia na Escola Superior de Educação de Viseu.
Gosta de animais, preferencialmente, o gato.
Rafael Sales, como freelancer, trabalha em Ilustração, Banda Desenhada, Design Gráfico e Caricatura.
Tem quatro títulos editados, três histórias muito curtas e um álbum, a saber:

ARCADE JOB - foi o seu projecto final no curso. Narra a história de Mary Flowers, uma recém licenciada em artes com dificuldades em arranjar emprego.

UMA CARTA PARA MARIA - focando um tema familiar, este trabalho foi premiado há algum tempo num concurso-BD em Odemira.

RED RIDING HOOD - é uma peculiar paródia ao clássico infantil “O Capuchinho Vermelho” que, em 2016, foi incluída na antologia de Banda Desenhada “H-Alt” #4.

DETECTIVE RATON - é o seu verdadeiro primeiro álbum, com edição Escorpião Azul, da responsabilidade de Jorge Deodato. É uma divertida narrativa num “clima policial”, algures numa aldeia do interior de Portugal.

Aparentemente tímido, Rafael Sales, tem um positivo humor e um apurado sentido crítico. Eis a nossa “conversa”.

BDBD - Ao que se sabe, a tua sedução pelo desenho começou na infância. Houve algo que te despertou então para esta arte?
Rafael Sales (RS) - Quando eu era miúdo, o desenho era só mais uma forma de ocupar o meu tempo livre, mas nessa altura não sabia ao certo porque é que gostava de desenhar. Simplesmente, gostava. No entanto, aos meus 11 anos, comecei a dedicar mais tempo ao desenho e começaram a ser-me dados os primeiros elogios e apoio pela família e amigos, o que me motivou a desenhar mais.

BDBD - Depois, nunca mais paraste (e ainda bem!). Achas que é uma carreira difícil, sobretudo porque vives no interior e longe de Lisboa ou do Porto?
RS - Infelizmente, nos dias que correm, qualquer carreira ligada às artes, e não só, é difícil seja em que local for, mas eu diria que talvez nas grandes cidades, o facto de haver maior oferta cultural e artística, facilita a interacção entre novos artistas e profissionais da área, o que pode ajudar em termos profissionais. Mas hoje em dia a Internet permite aos artistas freelancer trabalharem de qualquer parte do mundo
sem necessidade de deslocação, e esse acaba por ser também o maior meio de promoção do meu trabalho. Para além disso, viver no interior é também uma grande inspiração para as minhas ilustrações e histórias de BD.

BDBD - Onde tens exposto os teus trabalhos, para além de Odemira, Amadora e Viseu?
RS - Tento participar em eventos que estejam associados à Banda Desenhada com uma banca para promover e vender alguns trabalhos da minha autoria.
O mais recente evento foi o Central Comics 2016, em Gaia, onde espero poder participar novamente este ano.

BDBD - Tens um estllo muito próprio, abordando bastas vezes, com uma peculiar linha humorística. O humor é mesmo a vertente que melhor sentes ou também apostarias na linha realista?
RS - Apesar de também esboçar traços realistas (principalmente edifícios), o meu estilo de desenho resulta das tentativas de tornar as minhas personagens e cenários mais expressivos e simples. No meu caso, essa simplificação do traço acabou por aproximar o meu estilo de desenho aos clássicos da BD franco-belga, nomeadamente o traço “cómico” de Uderzo ou Hergé, que sempre foram referências artísticas para mim. Considero que o desenvolvimento de um estilo próprio de desenho por um artista só traz vantagens, nomeadamente a facilidade com o traço que acaba de sair, ou o facto do artista não ter de seguir convenções ou regras, o que lhe dá mais liberdade artística. Para além disso, esse estilo acaba por se tornar uma espécie de “imagem de marca” do artista.

BDBD - Sentes-te influenciado, mesmo indirectamente, por alguns desenhistas profissionais e de renome?
RS - Sim. Quando me “apaixonei” pela BD, foi através da mangá japonesa, nomeadamente com artistas como Akira Toryiama e Masahi Kishimoto. À medida que ia explorando o mundo da BD, encontrava ilustradores e cartunistas com um estilo de desenho diferente que iriam influenciar o meu traço, tais como Bill Watterson, Chris Uminga, Jim Borgman e os irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon. Mais tarde, ao explorar o mundo dos “comics americanos”, encontrei artistas como Jack Kirby, Mike Mignola, Frank Miller e John Romita Jr.
Pelo nosso Portugal, estão na minha lista de favoritos Filipe Andrade, Jorge Coelho e Joana Afonso, entre outros.


BDBD - Na tua maneira de ver e de sentir, o que é para ti a Banda Desenhada? 
RS - Vou tentar não dar a resposta do dicionário de língua portuguesa! Para mim, a BD é uma forma de contar histórias, extremamente desvalorizada e que caiu no estereótipo de ser “bonecos para crianças” (sim, hoje em dia ainda há quem ache isto). Obviamente, não concordo com esta última parte, pois considero a Banda Desenhada uma forma de arte válida e que envolve um processo criativo extensivo, trabalhoso, mas que dá um gozo enorme de fazer. Em apresentações ou tentativas de explicar às pessoas porque é que a BD merece mais respeito, costumo dizer o seguinte: o processo de criação de uma BD pode, seguindo algumas convenções mais comuns, incluir o uso de diversas formas de arte, ou seja, um artista de BD é escritor, pois tem uma ideia e escreve o guião da sua história; é realizador, pois transforma o guião em imagens apelativas; é arquitecto para desenhar os cenários; é designer da moda na concepção de personagens; deve ter noções de composição; e, em alguns casos, é ainda pintor para dar côr aos seus desenhos. Se todo este processo não é o suficiente para convencer as pessoas de que a Banda Desenhada não deve ser tratada como uma coisa descartável e desprovida de criatividade, então não sei o que as poderá convencer. Talvez aconselhando-as a ler algumas BD’s e fazê-las perceber de uma forma mais prática.


Cartune realizado ao vivo por Rafael Sales em Viseu,
em Janeiro último, durante a homenagem a Luiz Beira.
BDBD - É certo que és jovem e que tudo te destina para uma bela e longa carreira através das vertentes da tua arte. Neste campo, acalentas algum sonho muito especial?
RS - Embora não goste muito da palavra sonho, diria que um dos meus objectivos é viver exclusivamente das minhas histórias de BD e ilustrações. Outra coisa que espero poder fazer a longo prazo, é desenvolver projectos livres de Cinema e Música.

BDBD - Gostas de ser o autor do texto nas tuas criações ou aceitarias também, ocasionalmente, trabalhar em parceria com algum outro argumentista?
RS - Nunca aconteceu trabalhar com um escritor, e penso que se deve ao facto de não ser muito bom a trabalhar em equipa. No entanto, gostaria de experimentar fazê-lo um dia. Até lá, ideias para histórias não me faltam.

BDBD - Que caminho preferes: a côr, o preto-e-branco ou ambas as versões?
RS - Não sou muito bom colorista. Tendo a usar cores sólidas e esquemas cromáticos o mais simples possíveis para não se notar muito a minha fraqueza nesse aspecto. Por essa razão, e apesar de considerar que a côr ajuda a contar a história, ultimamente tenho trabalhado a preto e branco por uma questão de rapidez. Respondendo à pergunta: ambas as versões.

BDBD - Qual o teu próximo trabalho a ser editado?
RS - Neste momento estou a trabalhar numa BD chamada “Beirão”, que será lançada ainda em 2017.

BDBD - Muito obrigado, Rafael Sales, pela tua gentileza em responder a esta entrevista. Até breve!
LB

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

ENTREVISTAS (23) - MANUEL CALDAS (2.ª parte)

Publicamos hoje a segunda e última parte da entrevista que Manuel Caldas concedeu ao nosso blogue. Podem (re)ler a primeira parte clicando aqui.


Manuel Caldas
BDBD - Há quem pense que o Eduardo Teixeira Coelho terá sido convidado a continuar o Príncipe Valente, depois de Foster se ter retirado. Ainda que este facto não seja de todo verdade, acha que o nosso ETC teria sido uma boa escolha?

MC - Essa história é um mito. O próprio José Ruy, que já tantas memórias escreveu sobre o Coelho, nunca a tal se referiu. E está suficientemente bem documentado como aconteceu o processo de sucessão do Foster. Eduardo Teixeira Coelho seria sem dúvida um bom desenhador para o Príncipe Valente, mas não acredito que o quisesse ser, e se, por força de quaisquer circunstâncias, acabasse por sê-lo, de certeza que com o seu individualismo não saberia sujeitar-se a trabalhar subalternizado. O melhor sucessor do Foster teria sido o José Luis Salinas, mas o José Luis Salinas dos anos 30 a 50.

Prancha de Ragnar, por E.T. Coelho
BDBD - A série Ragnar, que ETC desenvolveu, tem influências notórias de Príncipe Valente. Terá sido por isso que surgiu esse boato?

MC - A influência é apenas superficial, na estrutura da prancha e na ausência de balões. Mas até isso muda por completo depois das primeiras 168 pranchas, que, valorizando-as ainda mais, são de formato maior. Aproveito para dizer que tenho todas essas pranchas e o projecto de as publicar em três volumes – assim Cristina Teixeira Coelho o permita e o fim dos tempos não esteja próximo.

BDBD - Como se processou a substituição de Foster, quando este se retirou? Ele teve algum papel na escolha do desenhador que o substituiu? Houve outros candidatos ao lugar, para além de John Cullen Murphy? Fale-nos um pouco acerca disso...

MC - Quem escolheu o seu substituto foi o próprio Foster, entre John Cullen Murphy, Gray Morrow e Wallace Wood .Entregou a cada um deles o esboço de uma prancha diferente e decidiu-se por Murphy, por considerar admirável a forma como desenhava mãos. Foi uma má escolha, digo eu, e, apesar de a maioria da gente a quem tal interessa considerar que Wood seria melhor, eu ficaria, sem hesitar, com Morrow. Nunca com Wood, nem com Murphy.

BDBD - A parceria entre Murphy e Foster funcionava como? Foster escrevia o argumento e deixava depois a Murphy liberdade para executar a prancha, ou dava-lhe indicações precisas acerca de como queria que este a desenhasse?

MC - Foster escrevia o texto (nalguns casos, na sua época de semi-reforma mas nunca antes dela, a partir de histórias criadas por Bill Crouch Jr.), fazia um esboço muito grosseiro de como pretendia que fosse a prancha com as suas vinhetas, escrevia também uma breve descrição de cada uma destas e a partir disso tudo Murphy fazia o seu trabalho, com considerável liberdade criativa. Quando era introduzida uma nova personagem, Foster fazia também desenhos pormenorizados do seu aspecto físico e, se necessário, do traje. Tudo isto e muito mais, está documentado em "Foster e Val". No final, era também Foster a colorir as pranchas desenhadas por Murphy.


BDBD – O Príncipe Valente é uma série “perfeita”, ou também tem coisas que não lhe agradam totalmente? Haverá, por exemplo, algo que Foster pudesse ter escrito ou desenhado melhor, na sua opinião?

MC - Não, não é perfeita, claro. Que eu tal diga, não tem de surpreender, mas talvez surpreenda dizer eu, precisamente eu, que há coisas absolutamente irritantes no Foster. Por exemplo: há muitas vinhetas com partes da anatomia humana absolutamente mal desenhadas, de uma deselegância flagrante, culpa de ele evitar o uso de modelos. E, mesmo sendo um apaixonado por cavalos, nunca desenhou correctamente a sua dentição. Também sempre foi irritante o soberbo desprezo pela coerência na representação dos adereços que se repetem em sucessivas pranchas, e às vezes dentro da mesma prancha.

Hal Foster desenhando Príncipe Valente
BDBD - Considera que, hoje em dia, Foster manteria, junto dos leitores, o nível de popularidade que teve na sua fase de maior esplendor ou teria de adaptar-se aos novos tempos e modificar a forma de contar histórias (eliminando as legendas didascálicas, por exemplo, e passando a usar o balão, ao qual foi tão avesso)?

MC - Quando Foster começou, em 1937, o balão já fazia parte do código da linguagem da banda desenhada há mais de 40 anos, e ele conhecia-o perfeitamente (na sua infância lia os Katzenjammer Kids e até fez bandas desenhadas – que ainda existem – com balões). Portanto, não creio que hoje acabasse por usá-lo. Por outro lado, apesar de só usar legendas didascálicas, sempre foi comedido na quantidade de texto. Provavelmente, uma página do Blake et Mortimer de Jacobs tem três ou quatro vezes mais texto do que uma do Príncipe Valente. Não creio que Foster hoje seria um Foster diferente, nem que precisasse de o ser. Afinal, a sua obra sempre foi e continua a ser reeditada, continuamente e em vários países. Até na Rússia actual!

BDBD - Se tivesse conhecido, um dia, Foster pessoalmente, o que lhe teria dito?

MC - “I’m Prince Valiant fan number one in all the world.”

BDBD - Por motivos que não interessarão aqui focar, o Manuel Caldas deixou de poder publicar a obra-prima de Foster em Portugal e passou a editá-la (com natural sucesso) em língua castelhana. Depois de tantos anos de trabalho e dedicação a uma causa, essa foi uma situação que o entristeceu, ou encarou isso como um ponto de partida para se dedicar a outros projectos que, porventura, não teria pensado publicar no nosso país?

MC - A ganância está sempre ligada à estupidez e aquele que partilha com outro uma galinha de ovos de ouro mas decide roubar-lhe a sua parte até poderia continuar rico se a acarinhasse; não compreendendo isto, tudo perde. A edição portuguesa, estupidamente levada à falência por quem quis ser seu único senhor sem estar minimamente categorizado, deixou-me obviamente entristecido (mas não o suficiente para que me faltassem as energias para apresentar o caso em tribunal) e também significou um enorme abalo económico. Mas, sim, o meu afastamento dela acabou por ser impulso para outros projectos. A edição portuguesa poderia hoje estar mais do que completada, fazendo felizes os editores, a distribuidora e o público. Assim não sendo, todos, todos mesmo, ficaram a perder. E para o público foi uma absoluta falta de respeito.

BDBD – Posta de lado a possibilidade de publicar Príncipe Valente em português, encetou a publicação de outras séries clássicas norte-americanas... O que tem a BD americana de tão especial em relação a outras escolas como a franco-belga, por exemplo, que tanto o atraia?

Capa de Foster e Val
MC - Não tem nada a ver com nenhuma pretensa superioridade geral de uma em relação à outra. Não, pois a banda desenhada franco-belga está cheiinha de excelência. É apenas uma questão de afectos.

BDBD - Por ser um profundo conhecedor de Príncipe Valente, o Manuel Caldas tem publicado, ao longo dos anos, vários textos sobre o assunto, mas numa obra como a de Foster, nunca estará, porventura, tudo dito. Tem planos para editar mais algum artigo de fundo (como em Foster e Val, por exemplo) ou crê que não seria viável outra edição desse tipo? 

MC - Não, há sempre coisas a dizer sobre qualquer coisa, mas eu não tenho vontade de escrever nada mais. Mesmo o Foster e Val só o escrevi porque via que ninguém se decidia a fazê-lo. Por isso é que a primeira versão do livro é bastante pobre, dada a minha imaturidade de então (ainda estava na casa dos vintes!). Aliás, eu tenho cada vez mais dificuldade em escrever bem seja o que for.

Capa de A Lei da Selva
BDBD – Disse-nos há pouco que gostaria de editar Ragnar, de E.T.Coelho, e recentemente lançou num só álbum A Lei da Selva e Bodas Índias, duas memoráveis peças, também deste autor, imaculadamente restauradas por si. Tem
na ideia editar, futuramente, outros clássicos portugueses ou, por ora, essa opção não se coloca?

MC - Nenhum editor publica clássicos da banda desenhada portuguesa se não quer perder dinheiro. Foi por puro amor à arte (e, vá lá, também por alguma vaidade: a de mostrar como se publica de forma ideal certas obras) que fiz a referida edição, com 500 exemplares de tiragem e preço de capa de 12 Euros. Passei quase dois meses a trabalhar aturadamente nela. Alguém acha que se vão esgotar os 500 exemplares? Só para pagar o custo da impressão seria preciso vender nas livrarias 350 exemplares (a distribuidora entrega ao editor 40% do preço de capa), mas alguém acha que se vão vender? Eu não espero tal coisa, mas tinha de fazer essa edição.
Quando um crítico ou divulgador censura um editor por não publicar os clássicos portugueses, desculpem-me que lhe diga: não sabe o que diz!
Portanto, sim: gostaria de publicar mais clássicos, mas não tenho nada planeado. A menos que experimente fazê-lo em print-on-demand, que não exige nenhum investimento significativo e com o qual não se perde dinheiro. É algo em que ando a pensar. 

BDBD - Que projecto gostaria de terminar que ainda não tenha, sequer, começado?

MC - Bem pensados, o meu livrinho de projectos tem mais de uma dúzia. Não vale a pena revelá-los, até porque mais importantes do que esses são aqueles que já comecei, e que são bem uma meia dúzia. De qualquer modo, os interessados em boas edições de obras de outros tempos, da banda desenhada e não só, têm já bastantes edições minhas ao dispor. Dêem uma olhadela em: www.manuelcaldas.com.

Manuel Caldas visto por Paco Nájera
BDBD – Como encara o futuro da banda desenhada? Crê que é uma forma de arte que conseguirá sobreviver às novas tecnologias (vídeo, jogos de computador, internet…) ou, pelo contrário, considera que as novas gerações terão, cada vez mais, tendência a deixar de ler BD?

MC - Parece-me que a tendência é ler-se cada vez menos banda desenhada. Sem dúvida. Só espero que, entretanto, não me falte público suficiente para continuar a viver do que faço. Espero morrer antes disso, ou ao menos não morrer por causa disso.

BDBD - Muito obrigado, Manuel Caldas, pela sua disponibilidade. Apesar desta entrevista se ter revelado bem extensa, fica desde já combinado que voltaremos a conversar de novo um dia, pois outras questões interessantes ficaram por lhe fazer... Até lá, então! 
CR

Notas:

Os interessados em adquirir as publicações da "Libri Impressi" podem consultar a sua página oficial http://www.manuelcaldas.com/ onde encontrarão toda a informação necessária (títulos disponíveis, formas de pagamento, contacto do editor...). Vale a pena uma visita, até porque, como diz Eduardo Martínez-Pinna Vallejo, "(...) são obras feitas por e para amantes de banda desenhada. Se estás entre eles, não podes perde-las." 

As fotos de Manuel Caldas que ilustram esta entrevista foram retiradas do blogue As Leituras do Pedro do nosso colega Pedro Cleto, a quem agradecemos a gentileza.

A caricatura de Manuel Caldas foi retirada, com a devida vénia, do blogue autoresdecomicaricaturizados do excelente caricaturista espanhol Paco Nájera.